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Trinidad e Tobago, país próximo a Venezuela, Granada e Barbados, ficou independente do Reino Unido no dia 31 de agosto de 1962. São, portanto, 60 anos de independência e 46 anos de República. A nação é rica em petróleo, exploração feita há mais de 100 anos e também mais de 60 anos no ramo do gás natural.
Segundo o embaixador de Trinidad e Tobago no Brasil, Gerard Peter Winston Greene, o primeiro poço exploratório de petróleo foi feito na ilha de Trinidad em 1857 e a produção comercial iniciou-se em 1908. “Descobrimos o gás natural em quantidades massivas em 1955 e começamos a utilizá-lo para geração de eletricidade em 1959. Houve outros ganhos significativos no setor energético a partir do ano de 1908 e, em 1989, iniciamos a produção do aço; a exportação do gás natural líquido (LNG) em 1989”, cita o diplomata.
Em entrevista exclusiva ao Diplomacia Business, Winston Greene, comenta que “no ano de 2003 construímos a maior fábrica para processamento do gás natural no mundo. Hoje o mercado energético mudou muito e é mais competitivo, mas mantemos uma presença significativa”. Na reportagem, o embaixador fala também sobre turismo, empreendedorismo, cultura e outros assuntos. Veja a matéria:
Como serão as comemorações dos 60 anos de independência de Trinidad e Tobago?
Embaixador de Trinidad e Tobago, Gerard Peter Winston Greene – Neste ano, estamos muito felizes em celebrar 60 anos como país independente e 46 anos como República. Em Trinidad e Tobago estamos nos preparando para festejar, mesmo saindo do período da pandemia. Aqui em Brasília, nós temos planejado uma recepção e a iluminação do Museu e da Biblioteca Nacional.
O sr. foi Conselheiro na embaixada do seu país em Brasília entre 1996 e 1999. Como foi essa experiência e como recebeu a notícia de voltar a viver nesta capital?
Embaixador Gerard Peter Winston Greene – Para mim, tendo formação profissional como economista e nas relações internacionais, a diplomacia do Brasil sempre é rica em experiências e com muito a aprender. Saí do Brasil e três anos depois parti para outra missão, na Bélgica. Meu sentimento era de que fui muito bem preparado pelas grandes questões políticas, econômicas e diplomáticas – que certamente encontraria na Bélgica e na União Europeia – graças a minha experiência no Brasil.
Depois da Europa, passei a exercer o cargo de cônsul-geral de Trinidad e Tobago em Miami, Flórida. Voltei à Trinidad e Tobago depois do meu tempo de serviço nos Estados Unidos. Pelo restante do meu tempo de serviço como diplomata de carreira, no Ministério das Relações Exteriores de Trinidad e Tobago, fui diretor de Relações Bilaterais, coordenador-nacional pela Cúpula das Américas, coordenador-nacional pela CELAC, entre outras funções.
Em 2021, me chamaram de novo para representar meu país como embaixador no Brasil e estou muito honrado com essa nomeação. Nossa embaixada no Brasil é concorrente também na Argentina, no Chile, Paraguai e Uruguai.
Em 1998, Trinidad e Tobago descobriu enormes reservas de petróleo e gás, que são seus principais produtos de exportação. Contudo, muitos países estão desistindo de produzir petróleo, preocupados com o meio ambiente. Como Trinidad e Tobago vê o futuro do petróleo nacional e mundial?
Embaixador Gerard Peter Winston Greene – O fato é que Trinidad e Tobago tem mais de 100 anos no negócio de petróleo e mais de 60 anos utilizando gás natural. O primeiro poço exploratório de petróleo foi feito na ilha de Trinidad em 1857 e começaram a produzir o petróleo em forma comercial em 1908. Descobrimos o gás natural em quantidades massivas em 1955 e começamos a utilizá-lo para geração de eletricidade em 1959. Houve outros ganhos significativos no setor energético a partir do ano de 1908 e, em 1989, iniciamos a produção do aço; a exportação do gás natural líquido (LNG) em 1989. E no ano de 2003 construímos a maior fábrica para processamento do gás natural no mundo. Hoje o mercado energético mudou muito e é mais competitivo, mas mantemos uma presença significativa.
Existe, na região sul da ilha de Trinidad, um lago de betume natural chamado Pitch Lake de La Brea e esse foi o marco que estimulou o interesse, por parte dos exploradores naquela época, de que poderiam encontrar petróleo. Deu certo. Começamos a comercializar, refinar e exportar petróleo e seus derivados em 1910 e em 1930 nossa produção de petróleo bruto atingiu um total de 10 milhões de barris por ano.
O gás natural tem uma história mais recente. Durante a maior parte da história do petróleo, o gás natural era um desejo da indústria e, na década de 90, o governo de Trinidad e Tobago tomou a decisão de extrair e comercializar mais do gás natural, utilizando-o como matéria prima para a indústria da petroquímica, a fim de ampliar a geração de energia elétrica, para exportar em forma de LNG e para outros produtos derivados.
No final dos anos 1990 e por alguns anos depois, Trinidad e Tobago se tornou um dos maiores exportadores de LNG no mundo – para EUA, Europa e Caribe. Recentemente, o LNG de Trinidad e Tobago chegou ao Brasil, Argentina e Chile. Juntamente com a maioria dos países que participaram da COP-26, Trinidad e Tobago se preocupa com a mudança climática e registrou sua pretensão de fazer parte do esforço para reduzir a emissão dos chamados gases de efeito estufa.
Reconhecemos o peso financeiro desse esforço nos países pequenos, como Trinidad e Tobago e as ilhas do Caribe, e apelamos à compreensão dos países maiores, que realmente são os grandes emissores dos gases de efeito estufa. Enfatizamos que o gás natural é um recurso bem mais limpo e que vai formar parte do padrão energético do mundo por muitos anos. Nossa posição é de que temos o direito de ganhar a vida e promover o nosso desenvolvimento tanto quanto possível, como país dono e produtor desses recursos de hidrocarboneto.
Os países do Caribe também têm o direito de produzir e utilizar o petróleo, o gás natural e seus derivados como recursos nacionais em favor do desenvolvimento porque, de fato, o mundo energético vai continuar utilizando o petróleo por muitos anos no futuro, seja com maior conscientização a respeito da mudança climática. Já temos começado, em Trinidad e Tobago, projetos para geração de energia renovável e ampliação do padrão nacional nesse sentido.
Ferro, aço, fertilizantes e pescado são outras riquezas que Trinidad e Tobago exporta. Para onde têm ido as exportações desses produtos?
Embaixador Gerard Peter Winston Greene – Ferro e aço eram produtos de exportação de Trinidad e Tobago por quase 30 anos, mas diminuiu nos últimos anos com o fechamento do maior produtor no país, o Arcelor Mittal. Naquela época de maior produção, importávamos o insumo (minério de ferro) do Brasil. Hoje, entre outros produtos derivados, temos dez fábricas de produção de amoníaco, com produção anual de 5 MMT (Milhões de Toneladas Métricas); de metanol, sete fábricas com produção anual de 4.3 MMT; e de ureia; duas fábricas com produção anual de 0.7 MMT. Os maiores mercados estão na Europa, EUA, Caribe e América Latina.
Como estão as relações comerciais entre o Brasil e Trinidad e Tobago? Em quais setores esse comércio pode se ampliar?
Embaixador Gerard Peter Winston Greene – As relações comerciais entre Brasil e Trinidad e Tobago são muito frutíferas em ambas direções. No ano de 2020, os principais produtos exportados ao Brasil foram amoníaco anidro, betume natural e ureia. Importamos principalmente minério de ferro, óleos brutos de petróleo, mas, como já disse, o mercado mudou. Continuamos com papel e cartão para escrita, impressão e afins; papel, cartão, pasta de celulose revestidos; barras de ferro ou aço não ligado; ladrilhos e placas para pavimentação; perfis de ferro ou aço não ligado; madeira compensada; outras preparações e conservas de carne; leite e nata.
Nosso esforço é para ampliar o comércio e o intercâmbio, não somente nas áreas tradicionais, mas também em novas áreas de comércio, por exemplo nas indústrias culturais e nos serviços em geral, inclusive da alta tecnologia e serviços profissionais. Trinidad e Tobago está se desenvolvendo muito rapidamente nas áreas da moda urbana, da produção de filmes, da música e do artesanato com produtos de alto valor agregado, como o chocolate.
Trinidad e Tobago é composto por mais de 20 ilhas no Caribe. Como está hoje o turismo no país? Quais são suas maiores belezas?
Embaixador Gerard Peter Winston Greene – No direito internacional, Trinidad e Tobago, as duas ilhas maiores, e as outras ilhas pequenas compõem um arquipélago. As belezas das ilhas do Mar do Caribe são extensas – lindas praias e tesouros ecológicos com muitas oportunidades para passear. Tobago é a nossa beleza com muitas praias lindas, esportes marinhos, pesca esportiva, grandes corais no Bucco Reef, eventos tradicionais folclóricos, comida e festivais anuais com música popular.
Em Trinidad, temos grandes eventos e festivais, e o nosso Carnaval é famoso no mundo inteiro. Em muitos lugares no mundo utilizam a forma “Carnaval-Trini”, com seus desfiles e participação em massa para inspirar suas celebrações de Carnaval. Os festivais religiosos também são oportunidades para experimentar nossas tradições com música típica, comida e grandes apresentações culturais.
Como está o empreendedorismo em Trinidad e Tobago? Como o governo incentiva os pequenos empreendedores do país?
Embaixador Gerard Peter Winston Greene – O empreendedorismo em Trinidad e Tobago é muito forte com muitos incentivos para os pequenos empreendedores, particularmente os jovens. Mais de 60% das fábricas produtivas em Trinidad e Tobago são compostas por pequenos empreendedores e existe a Companhia Nacional para o Desenvolvimento do Empreendedorismo justamente para incentivar e apoiar as empresas pequenas. A maior parte desse setor inclui empresas do setor de serviços – serviços profissionais, informática, alimentação, setor criativo e cultural, e é também a maior parte do emprego nacional.
O que mais se destaca em Trinidad e Tobago na área cultural?
Embaixador Gerard Peter Winston Greene – Trinidad e Tobago inventou o Steelpan, o único instrumento musical criado no século XX. Feito inicialmente com tambores de aço descartados da indústria de petróleo, hoje em dia o instrumento é produzido utilizando uma tecnologia aperfeiçoada ao longo das décadas, com um som particular e único. O Steelpan é utilizado por artistas no mundo inteiro para tocar música clássica, R&B, jazz, rock e também pode se adaptar para tocar a música de outras partes do mundo, inclusive do Brasil. Trinidad e Tobago é um país com muitas raízes e tradições multiculturais. Sobreviveu com muito ritmo e cor das nossas heranças africanas, indianas, chinesas, orientais, europeias, latino americanas.
O sr. poderia nos falar, por gentileza, um pouco mais sobre a história e a vida atual dos moradores de Trinidad e Tobago.
Embaixador Gerard Peter Winston Greene – Muitas vezes as pessoas se surpreendem quando relato os fatos históricos das nossas ilhas, particularmente, os nomes de Trinidad e Tobago, mas é bem simples. Tobago se originou do ‘Tabac’, ‘Tobacco’, cultivado pelos índios antes da chegada dos europeus.
‘Trinidad’ é um pouco mais narrativa. Quando Cristovão Colombo chegou na parte sul da ilha de Trinidad, em 1498, na sua terceira viagem às Américas, observou três picos de montanha na terra. Era uma viagem tortuosa e com ameaças a seus marinheiros, por isso prometeu que, se pisasse aquela terra, daria graças a Deus. Então chamou a terra em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo – a Santíssima Trindade.
Como relata a nossa história, os índios das Américas estavam bem assentados em suas comunidades quando Colombo chegou. Hoje temos em Trinidad e Tobago comunidades de seus descendentes sobreviventes. Chegaram os africanos, primeiro como escravos. Mas com a abolição da escravidão nas colônias britânicas, outros chegaram depois como mão-de-obra contratada e alguns como homens livres. A maior parte da população de origem indiana, chinesa, de fala portuguesa das Ilhas Madeiras; e outros, chegaram como mão-de-obra contratada.
Hoje em dia, Trinidad e Tobago constitui uma sociedade cosmopolita. Celebramos como feriados nacionais os dias religiosos cristãos, hindus, muçulmanos numa política nacional de tolerância, incluindo uma tolerância religiosa que dá bom exemplo para o mundo.




