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As relações entre Brasil e Cuba vivem um momento de fortalecimento político, econômico e cultural. Em entrevista exclusiva, o embaixador de Cuba no Brasil, Víctor Manuel Cairo Palomo, traça um amplo panorama da cooperação entre os dois países, aborda os desafios impostos pelo bloqueio econômico norte-americano, detalha oportunidades para investimentos e turismo e analisa o papel do BRICS na construção de uma nova ordem internacional.
Ao longo da conversa, o diplomata destaca o elevado nível de diálogo entre Brasil e Havana, os avanços em projetos conjuntos nas áreas de saúde, educação, agricultura e pesquisa científica, além das perspectivas para ampliar o comércio bilateral e estabelecer voos diretos entre os dois países. Segundo ele, o Brasil representa um parceiro estratégico para Cuba, tanto pelo seu peso econômico quanto pela liderança que exerce na América Latina e nos fóruns multilaterais.
Cairo Palomo também apresenta a visão do governo cubano sobre os efeitos das sanções dos Estados Unidos na economia da ilha, especialmente nos setores financeiro e energético, e argumenta que as restrições dificultam não apenas o desenvolvimento de Cuba, mas também as oportunidades de negócios para empresas estrangeiras interessadas em atuar no país.
A entrevista aborda ainda as mudanças implementadas por Havana para atrair investimentos internacionais, a abertura de novos setores da economia cubana ao capital estrangeiro, o potencial do turismo de lazer e de saúde, bem como a participação de Cuba como país parceiro do BRICS.
Para o embaixador, o fortalecimento do bloco é fundamental para ampliar a cooperação entre os países do Sul Global, defender o multilateralismo e construir alternativas econômicas e financeiras que contribuam para uma ordem internacional mais equilibrada, baseada na soberania dos Estados, no desenvolvimento sustentável e na cooperação entre os povos.
Confira os principais trechos da entrevista:
Diplomacia Business: Embaixador, as relações diplomáticas e comerciais entre Brasil e Cuba foram historicamente marcadas por altos e baixos, dependendo da conjuntura política. Como o senhor avalia o atual momento dessa parceria e quais são as prioridades da sua gestão para estreitar os laços com o governo brasileiro?
Víctor Palomo: Neste momento, as relações bilaterais entre Cuba e Brasil são muito boas. Mantemos um diálogo político em alto nível, com intercâmbio frequente entre os governos. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva visitou Cuba durante seu atual mandato, e o presidente cubano, Miguel DíazCanel Bermúdez, também esteve no Brasil, inclusive durante a Cúpula do BRICSrealizada no ano passado.
Temos um mecanismo de diálogo que permite aos dois países coordenar posições e trocar experiências sobre temas da agenda internacional, além de aprofundar a cooperação bilateral.
Hoje, as áreas prioritárias dessa cooperação são a produção de alimentos, a saúde e a educação. São os três eixos mais importantes da relação entre os dois países.
Neste ano, celebramos ainda os 40 anos da retomada das relações diplomáticas entre Cuba e Brasil. A data será marcada por uma ampla programação cultural em ambos os países. A comemoração coincide também com os 40 anos da democracia brasileira e com o centenário de nascimento de Fidel Castro.
Apesar das oscilações políticas ao longo das últimas décadas, o que prevaleceu nesses 40 anos foi o diálogo, a cooperação e a aproximação entre os povos. Cuba e Brasil compartilham fortes laços culturais e históricos. Somos sociedades marcadas pela miscigenação, por influências africanas e europeias, pelo sincretismo religioso e por uma forma muito semelhante de expressar a cultura por meio da música, da dança e das tradições populares.
Além da cooperação política, observamos oportunidades crescentes no comércio bilateral. O Brasil é um dos maiores produtores de alimentos do mundo, enquanto Cuba precisa importar parte significativa dos produtos que consome. Isso cria oportunidades tanto para empresas estatais quanto privadas cubanas e para produtores brasileiros interessados no mercado cubano.
Na área educacional, existe uma cooperação que considero a joia da coroa das relações bilaterais. Universidades e centros de pesquisa dos dois países desenvolvem projetos conjuntos em áreas como medicamentos para câncer e diabetes, além de vacinas para diversas doenças.
Também temos projetos importantes na área social. Um exemplo é a cooperação brasileira voltada à produção de alimentos para alimentação escolar em Cuba. Outro está relacionado ao aperfeiçoamento dos mecanismos de identificação e assistência às populações em situação de vulnerabilidade social.
Na saúde, há iniciativas ligadas à atenção primária, à assistência hospitalar e à medicina preventiva. Algumas experiências inspiradas no modelo cubano são aplicadas atualmente em cidades como Niterói e Maricá, no estado do Rio de Janeiro.
Por tudo isso, posso afirmar que as relações entre Cuba e Brasil vivem um
momento positivo. O diálogo político está fortalecido e existem condições favoráveis para ampliar ainda mais a cooperação em benefício dos dois países.
Diplomacia Business: Cuba tem implementado reformas para incentivar as PMEs (Mipymes) e atrair investimento estrangeiro como forma de aliviar a complexa situação econômica da ilha. Que garantias e atrativos o mercado cubano oferece hoje aos empresários e investidores brasileiros?
Víctor Palomo: A legislação cubana vem sendo constantemente atualizada para ampliar a abertura ao investimento estrangeiro. Cuba mantém uma carteira de oportunidades de negócios que é renovada anualmente e oferece cada vez mais facilidades para investidores internacionais.
Nos últimos anos, setores que antes estavam fechados ao capital estrangeiro passaram a receber investimentos externos. Hoje, por exemplo, já são permitidas empresas com 100% de capital estrangeiro, além de sociedades mistas entre investidores internacionais e empresas privadas cubanas.
Também existem condições favoráveis para a utilização de terrenos, imóveis e outras estruturas produtivas, o que amplia as oportunidades para novos projetos.
Tradicionalmente, o turismo foi o principal destino dos investimentos estrangeiros em Cuba. No entanto, esse cenário mudou. Atualmente, investidores podem atuar em áreas como sistema financeiro, geração de energia, exploração de petróleo, mineração, agricultura e produção de alimentos.
O Brasil é um exemplo desse interesse crescente. Existem empresários brasileiros avaliando investimentos na produção de alimentos, na fabricação de ração animal e no fornecimento de insumos para o setor agrícola cubano.
Hoje, o sistema cubano de atração de investimentos é muito mais flexível e oferece condições mais favoráveis para a participação de investidores internacionais.
O principal desafio, no entanto, continua sendo o bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos. Além das restrições diretas, há um efeito indireto importante: muitas empresas e investidores temem possíveis sanções ou
dificuldades futuras por manterem relações comerciais com Cuba.
Mesmo quando essas sanções não são aplicadas, a insegurança gerada acaba dificultando novos investimentos. Consideramos essa situação injusta porque limita a liberdade de comércio e o direito dos investidores de estabelecer relações econômicas de forma soberana.
Apesar desses obstáculos, Cuba segue oferecendo oportunidades relevantes. Uma novidade importante é que os cubanos residentes no exterior também passaram a poder investir no país, estabelecer parcerias e participar de projetos econômicos.
Nosso objetivo não é atrair apenas grandes investidores. Também buscamos criar oportunidades para pequenos e médios empresários, capazes de gerar empregos, renda e desenvolvimento local.
Existem apenas alguns setores específicos que permanecem fechados ao investimento estrangeiro, como a educação, que continua sendo responsabilidade exclusiva do Estado cubano, e áreas ligadas à defesa e à
segurança nacional.
Nos demais setores da economia, Cuba permanece aberta à busca de novos
parceiros e projetos que contribuam para o desenvolvimento econômico do país.

Diplomacia Business: O turismo é uma das principais fontes de receita da ilha, e os brasileiros têm grande apreço pela cultura caribenha. Há alguma estratégia específica da embaixada para aumentar o fluxo de turistas brasileiros para Cuba, como a facilitação de voos diretos ou vistos?
Víctor Palomo: O fortalecimento do turismo é uma das prioridades da Embaixada de Cuba no Brasil. Os brasileiros têm grande afinidade com a cultura cubana e caribenha, e nosso principal objetivo é viabilizar uma rota aérea direta entre Cuba e o Brasil.
Estamos trabalhando para que, até 2027, seja possível inaugurar voos diretos entre Havana e cidades como Rio de Janeiro ou São Paulo. Essa conexão não beneficiaria apenas os brasileiros, mas também turistas de outros países da América do Sul que poderiam utilizar o Brasil como ponto de conexão para
chegar a Cuba.
Outro segmento com grande potencial é o turismo de saúde. Cuba possui centros médicos especializados e tratamentos reconhecidos internacionalmente, incluindo para doenças dermatológicas, além de infraestrutura adequada para receber pacientes estrangeiros.
Também existe um turismo voltado ao intercâmbio cultural e à solidariedade. Diversos grupos brasileiros visitam Cuba para participar de atividades culturais, acadêmicas e sociais, fortalecendo os laços entre os dois povos.
Em 2024, o número de turistas brasileiros que visitaram Cuba cresceu cerca de 15%, demonstrando o crescente interesse pelo país como destino de cultura, história, natureza e praias. Estamos ampliando o diálogo com operadores de turismo e promovendo eventos culturais para divulgar Cuba no Brasil. Queremos expandir essas ações para diferentes regiões do país e apresentar aos brasileiros a diversidade de experiências que Cuba oferece, desde o patrimônio histórico de Havana até destinos turísticos como Varadero e Pinar del Río.
Além disso, Cuba é reconhecida como um destino seguro e acolhedor para visitantes, o que representa um diferencial importante para muitos viajantes.
Diplomacia Business: Recentemente, Cuba enfrentou momentos críticos no abastecimento de energia e apagões que afetaram a população e a economia. Há negociações com o governo brasileiro ou com a Petrobras para fornecimento de combustível, apoio técnico ou investimentos na matriz energética da ilha?
Víctor Palomo: Na visão do governo cubano, o principal obstáculo ao desenvolvimento econômico e energético do país continua sendo o bloqueio imposto pelos Estados Unidos.
Cuba depende da importação de aproximadamente 60% a 70% do combustível que consome. Quando surgem dificuldades para adquirir ou transportar esse combustível, os impactos atingem diretamente a população, os serviços públicos, a indústria e a agricultura.
As restrições também afetam empresas estrangeiras interessadas em manter relações comerciais com Cuba. Muitas companhias evitam ampliar negócios por receio de possíveis sanções ou dificuldades em seus mercados internacionais.
Esse cenário acaba dificultando não apenas o fornecimento de combustível, mas também investimentos em infraestrutura, energia e modernização econômica.
O que Cuba busca não é assistência ou doações, mas a possibilidade de participar livremente do comércio internacional, gerar receitas próprias e utilizálas para investir em seu desenvolvimento.
Temos mantido diálogo com autoridades brasileiras e representantes do setor empresarial sobre formas de ampliar a cooperação econômica e proteger empresas que mantêm relações comerciais legítimas com Cuba.
A discussão envolve também questões de soberania, segurança jurídica e os impactos da aplicação extraterritorial de legislações estrangeiras sobre empresas de outros países.
Diplomacia Business: O embargo econômico imposto pelos Estados Unidos continua sendo o principal desafio para o desenvolvimento de Cuba. Como as restrições financeiras internacionais afetam diretamente as transações comerciais entre Brasil e Cuba e quais alternativas têm sido buscadas para contornar
esses obstáculos?
Víctor Palomo: Durante mais de seis décadas, Cuba precisou desenvolver mecanismos alternativos para enfrentar as limitações impostas pelo bloqueio econômico.
Grande parte dessas dificuldades está relacionada ao papel central do dólar no sistema financeiro internacional. Como muitas operações globais dependem da moeda norte-americana e de instituições financeiras ligadas aos Estados Unidos, diversos países ficam sujeitos a mecanismos de sanções e restrições.
Por isso, Cuba acompanha com interesse os debates promovidos pelo BRICS sobre novas alternativas financeiras e monetárias. Também buscamos ampliar operações em outras moedas, fortalecer mecanismos de comércio digital e criar formas de intercâmbio econômico menos dependentes do sistema financeiro
norte-americano.
As empresas cubanas enfrentam desafios significativos para realizar pagamentos internacionais. Muitas vezes, precisam recorrer a intermediários em terceiros países, o que torna as operações mais complexas e mais caras.
Além da dificuldade de encontrar instituições financeiras dispostas a processar essas transações, existem custos adicionais relacionados a taxas bancárias e mecanismos de controle.
Esse é um dos temas mais sensíveis das relações econômicas entre Cuba e Brasil. Temos mantido conversas com autoridades brasileiras para identificar soluções que permitam preservar e ampliar o comércio bilateral, considerado estratégico para ambos os países.
Embora existam alternativas em discussão, ainda enfrentamos mais desafios do que resultados concretos nesse campo.
Diplomacia Business: Diante de um cenário global cada vez mais multipolar, com o fortalecimento de blocos como o BRICS, do qual o Brasil é membro fundador, como Cuba enxerga o papel do Brasil na liderança do Sul Global e na defesa do multilateralismo?
Víctor Palomo: Cuba recebeu com grande satisfação sua aceitação como país parceiro do BRICS. Reconhecemos o papel fundamental desempenhado pelo Brasil na criação e no fortalecimento do bloco.
O Brasil exerce uma liderança internacional relevante e tem sido um importante defensor do multilateralismo e de uma ordem internacional mais equilibrada. Consideramos que o presidente Lula tem mantido uma posição consistente em favor do diálogo e da cooperação internacional como instrumentos para enfrentar os desafios globais.
Na visão de Cuba, apenas o fortalecimento do multilateralismo e da multipolaridade poderá contribuir para a preservação da paz, do respeito à soberania dos Estados e da busca por soluções coletivas para problemas globais.
O mundo enfrenta desafios complexos, como mudanças climáticas, insegurança alimentar, pobreza, pandemias, conflitos internacionais e riscos ambientais. Nenhum desses problemas pode ser resolvido isoladamente.
Por isso, acreditamos que o BRICS deve ampliar sua atuação não apenas na cooperação econômica e financeira, mas também na construção de uma governança global mais equilibrada e representativa.
Cuba também possui interesse em contribuir para o bloco por meio de sua experiência em áreas como biotecnologia, saúde e indústria biofarmacêutica.
Defendemos igualmente o fortalecimento das Nações Unidas e dos mecanismos multilaterais capazes de promover a paz, o respeito ao direito internacional e a convivência pacífica entre os povos.
Nesse contexto, acreditamos que o Brasil possui uma responsabilidade especial. Como maior economia da América do Sul e liderança reconhecida na região, o país tem condições de desempenhar um papel decisivo no fortalecimento do BRICS e na promoção de uma ordem internacional baseada no diálogo, na cooperação e no respeito à soberania dos povos

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