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Em uma conversa que percorre história, identidade, cultura e perspectivas de futuro, a Embaixadora de Timor-Leste no Brasil, Maria Ângela Guterres Viegas Carrascalão, apresenta um olhar sobre os vínculos que aproximam os dois países e sobre as novas possibilidades de cooperação. Educação, saúde, mudanças climáticas, agricultura, turismo, economia e diplomacia cultural estão entre os temas que revelam o potencial de uma parceria construída sobre a língua portuguesa, laços históricos e afinidades humanas.

Confira a entrevista:
1) Como a senhora avalia o atual momento das relações diplomáticas entre Timor-Leste e Brasil, e quais são hoje as principais áreas de cooperação entre os dois países?
A cooperação entre Brasil e Timor-Leste é excelente. E essa relação já existia antes de Timor-Leste recuperar a sua independência. A primeira proclamação da independência ocorreu em 1975, e o reconhecimento internacional veio em 2002. O Brasil sempre nos ajudou, especialmente no apoio diplomático à resistência timorense.
Depois da independência, a cooperação continuou muito forte. Eu não diria que melhorou imensamente, porque sempre foi uma relação muito próxima. É uma cooperação muito voltada para a educação, para a língua e a cultura, para a justiça, para a defesa e, mais recentemente, também para outras áreas de capacitação.
Na educação, por exemplo, temos mais de 300 estudantes timorenses espalhados por diferentes estados brasileiros. Para um país pequeno como Timor-Leste, que precisa investir muito na formação e na qualificação das pessoas, isso é um fator extremamente importante nas relações entre os dois países.
Esses estudantes estão em diferentes áreas, não apenas nas ciências, mas também no Direito e em outros cursos de graduação, mestrado e doutorado. Belém do Pará, por exemplo, concentra muitos estudantes timorenses, mas também há presença em Campinas, Florianópolis e em outros estados. Alguns lugares têm apenas um ou dois estudantes.
Eu mesma visitei, no ano passado, a Pontifícia Universidade Católica e encontrei um timorense que já havia concluído o doutorado e era chefe de um laboratório. Ele se casou com uma brasileira e acabou permanecendo no Brasil. Esse tipo de intercâmbio é muito importante para nós.
Quando falamos da relação entre Brasil e Timor-Leste, também não podemos esquecer Sérgio Vieira de Mello. Ele foi representante do secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan, em Timor-Leste, e teve um papel muito importante no processo de transição para a independência. Durante dois anos, chefiou a administração transitória.
Naquele período, Timor-Leste precisava construir praticamente tudo, inclusive uma nova ordem jurídica. Não fazia sentido simplesmente manter a legislação portuguesa, porque Portugal havia saído em 1975 e os timorenses já não conheciam aquela legislação. Da mesma forma, não fazia sentido adotar a legislação do período da ocupação indonésia, porque havia normas que entravam em conflito com aquilo que queríamos construir em termos de dignidade humana e direitos humanos.
Sérgio Vieira de Mello teve um papel muito importante nesse processo de transição e na construção da ordem jurídica timorense. É evidente que dois anos são muito pouco tempo para uma transformação dessa dimensão, mas o trabalho realizado foi muito valioso.
Um exemplo é a questão da pena de morte. A Indonésia possui pena de morte, enquanto a nossa Constituição é muito clara ao estabelecer que, em Timor-Leste, não existe pena de morte. Foi necessário fazer esse processo de adaptação jurídica de acordo com os princípios que queríamos para o novo Estado.
E há ainda uma contribuição brasileira muito importante na área da Justiça: a criação da Defensoria Pública em Timor-Leste. Esse conceito foi introduzido a partir da experiência brasileira.
Para nós, isso faz muito sentido. Timor-Leste é um país pequeno, mas muito montanhoso, e as comunicações entre as diferentes regiões nem sempre são fáceis. A existência de uma Defensoria Pública é, portanto, fundamental para garantir o acesso à Justiça em todo o território.
Essa é uma das razões pelas quais considero a cooperação na área da Justiça tão profunda. Atualmente, por exemplo, temos cinco defensores públicos e cinco oficiais de Justiça de Timor-Leste fazendo um estágio de três semanas na Defensoria Pública da União, no Brasil, no âmbito do acordo de cooperação existente entre os dois países.
Além da educação e da Justiça, também temos cooperação em áreas como defesa, agricultura, capacitação profissional e fortalecimento institucional. A cooperação técnica brasileira, por meio da Agência Brasileira de Cooperação, tem um papel importante nesse processo.
Do ponto de vista econômico e comercial, ainda há espaço para ampliar bastante essa relação. O comércio entre os dois países cresceu nos últimos anos, embora ainda seja relativamente limitado. O Brasil possui experiência que pode ser útil para Timor-Leste em diferentes áreas, e a posição de Timor-Leste no Sudeste Asiático também pode favorecer uma aproximação maior do Brasil com a ASEAN.
Por isso, quando olho para as relações entre Brasil e Timor-Leste, vejo uma cooperação que tem bases muito sólidas: a língua portuguesa, a cultura, a educação, a Justiça, a formação de pessoas e os laços históricos. São elementos que nos aproximam e que podem servir de base para ampliar ainda mais essa parceria nos próximos anos.
2) Timor-Leste tornou-se oficialmente o 11.º membro da ASEAN em outubro de 2025, depois de um longo processo de adesão. Passado quase um ano, o que essa conquista já representa, na prática, para Timor-Leste e quais novas oportunidades de comércio, investimentos e desenvolvimento o país espera alcançar a partir dessa integração?
O processo de adesão levou 11 anos e foi muito longo, mas a integração de Timor-Leste à ASEAN já era uma prioridade muito antes. Em 1975, José Ramos-Horta, que na época estava ligado às relações internacionais da resistência timorense, já defendia a entrada de Timor-Leste na ASEAN, porque sabia que essa integração representaria uma oportunidade importante para o desenvolvimento do país.
Timor-Leste está na Ásia e, portanto, a entrada na ASEAN representa, efetivamente, uma nova etapa de desenvolvimento. Eu vou todos os anos a Timor-Leste e vejo uma transformação muito grande. Quando comecei a conhecer o país, Timor estava completamente destruído. Hoje, parece um imenso estaleiro, porque o país precisa se modernizar e construir as condições necessárias para acompanhar o crescimento econômico da região.
A ASEAN também estabeleceu exigências que Timor-Leste precisa cumprir para acompanhar esse processo de integração. Não posso dizer que o país já tenha cumprido 100% todas essas exigências, porque a reconstrução de um país leva tempo. Mas a adesão representa um grande recomeço e já está provocando mudanças importantes.
Há oportunidades em várias áreas, começando pelo turismo. Se Timor-Leste pode apostar em alguma coisa, é justamente no turismo, mas o turismo exige qualidade. É necessário investir em infraestrutura, melhorar os serviços, os cuidados de saúde, a conectividade e, principalmente, formar recursos humanos.
Essa questão dos recursos humanos é muito importante. Timor-Leste ainda possui poucos profissionais especializados, e a ASEAN é uma organização muito exigente, que envolve muitas reuniões, negociações e mecanismos de cooperação. Precisamos ter pessoas preparadas para acompanhar todo esse processo. Só aí já se percebe a diferença entre o que era Timor-Leste antes da ASEAN e o que passa a ser o país depois da integração.
A adesão também abre espaço para a diversificação da economia, para o comércio e para a atração de investimentos. Timor-Leste precisa criar novas atividades econômicas e fortalecer o setor privado, especialmente neste momento em que o país busca reduzir sua dependência histórica das receitas provenientes do petróleo.
Por isso, a integração regional está associada a investimentos em infraestrutura, conectividade, desenvolvimento do capital humano, fortalecimento das instituições e criação de melhores condições para o setor privado. O objetivo é que Timor-Leste possa aproveitar o acesso a um mercado regional de cerca de 680 milhões de pessoas e aumentar sua capacidade de atrair investimentos.
Há ainda outro aspecto que considero muito importante: a relação entre a ASEAN e a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, a CPLP.
Eu costumo fazer uma distinção muito clara: enquanto a ASEAN representa, para Timor-Leste, uma perspectiva de desenvolvimento econômico, a CPLP representa o desenvolvimento cultural. Nós temos uma identidade muito própria justamente porque fazemos parte da CPLP. É isso que nos diferencia como Estado e como nação.
A ASEAN reconhece essa diferença. Timor-Leste é o único país da Ásia com o português como língua oficial e, por isso, podemos desempenhar um papel importante na aproximação entre a ASEAN e os países de língua portuguesa.
Isso também pode ser importante para o Brasil. Timor-Leste pode facilitar as relações entre o Brasil e a Ásia porque falamos português e temos uma maneira própria de compreender e estabelecer relações. Temos uma história marcada pela presença portuguesa e isso também influencia a nossa cultura e a nossa maneira de estar no mundo.
Portanto, acredito que Timor-Leste pode funcionar como uma porta de entrada e de aproximação entre a ASEAN e a CPLP. A ASEAN tem um peso econômico muito maior, mas a cultura também é fundamental para a construção de um país, e a CPLP tem justamente essa força de preservar aquilo que nos torna diferentes.
A futura presidência de Timor-Leste na ASEAN, em 2029, será outra oportunidade importante. Será um momento para demonstrar os progressos alcançados pelo país, fortalecer sua posição regional e mostrar que Timor-Leste está preparado para participar cada vez mais ativamente dos processos econômicos e institucionais do Sudeste Asiático.

3) Timor-Leste é frequentemente reconhecido como uma referência de democracia, reconciliação e direitos humanos na Ásia. Como o país pretende utilizar essa experiência histórica e política para contribuir com os grandes desafios internacionais atuais?
Timor-Leste, sem querer ser politicamente incorreta ao dizer isso, é realmente um farol em matéria de direitos humanos e de dignidade humana. Isso está muito claro na própria Constituição de Timor-Leste. Logo no primeiro artigo, estabelece-se que Timor-Leste é um Estado soberano e que se rege pelo respeito aos direitos humanos e à dignidade humana.
A Ásia é um pouco diferente, inclusive pela maneira de ser e pela própria diversidade das sociedades asiáticas. Mas, depois de tanto sofrimento provocado pela presença estrangeira, penso que os timorenses compreenderam que era fundamental defender os direitos humanos e o respeito pela dignidade humana, algo que, durante determinados períodos da nossa história, foi deixado de lado.
Nós lutamos durante muitos e muitos anos pela autodeterminação de Timor-Leste. Foram mais de 20 anos de luta. Durante o período em que Timor-Leste era uma colônia portuguesa, não havia propriamente uma luta pela independência como aquela que viria posteriormente. O problema surgiu sobretudo com a ocupação indonésia e com a necessidade de o povo timorense lutar pelo direito de decidir o seu próprio futuro.
Por isso, a questão dos direitos humanos é muito, muito cara a Timor-Leste. É um princípio que está profundamente ligado à nossa própria história e à construção do Estado timorense.
Timor-Leste é uma democracia plena. Eu estava lendo hoje que o país continua mantendo uma posição muito positiva nos rankings internacionais de democracia. Não houve uma queda significativa. Isso mostra que Timor-Leste continua sendo um exemplo importante na região.
Eu espero que, por meio desse exemplo, Timor-Leste possa, de alguma forma, influenciar outros países. Não no sentido de impor um modelo, mas pelo chamado “efeito de contágio”, mostrando que é possível construir uma sociedade baseada na democracia, no respeito pelos direitos humanos e na dignidade humana.
A nossa Constituição é muito clara nesse sentido. Não existe pena de morte em Timor-Leste, por exemplo, enquanto ela ainda existe em outros países. Temos também o artigo 23.º da Constituição, que estabelece claramente que o Estado timorense se rege pela Declaração Universal dos Direitos Humanos. Tudo isso marca a nossa diferença.
Eu acredito, e tenho certeza, de que os Estados da ASEAN também respeitam Timor-Leste por essa posição. Mas as coisas não se fazem de um dia para o outro. A cultura asiática é muito antiga, muito rica e muito carregada de tradições, e qualquer transformação precisa acontecer com algum cuidado, respeitando as características de cada sociedade.
Por isso, espero muito, sinceramente, que haja esse efeito de contágio do exemplo de Timor-Leste relativamente aos outros países. Estou convencida de que isso vai acontecer.
Timor-Leste pode mostrar que apostar nos direitos humanos e na dignidade humana é essencial para a construção e a consolidação de uma democracia. O nosso próprio percurso histórico demonstra isso.
Um exemplo muito importante é o processo de reconciliação com a Indonésia. Depois de um período marcado por conflitos e sofrimento, Timor-Leste conseguiu construir uma relação de diálogo e de cooperação com o país que ocupou o seu território. Essa reconciliação demonstra que é possível superar um passado difícil e construir relações baseadas na paz e no respeito mútuo.
Acredito que a liderança política e a própria história de Timor-Leste estão apostadas em fazer do país um verdadeiro reduto de paz e democracia. Essa experiência pode ser compartilhada com outros países e contribuir para os grandes desafios internacionais relacionados aos direitos humanos, à dignidade humana, à democracia e à construção da paz.
4) Timor-Leste está avançando em sua estratégia de transformação digital, incluindo governo digital, inteligência artificial, cibersegurança e formação de jovens. Como a tecnologia pode ajudar o país a superar seus desafios de desenvolvimento e criar novas oportunidades para sua população?
Os timorenses são muito ligados à tecnologia. Mas, como têm dito tanto o Presidente da República, José Ramos-Horta, como o Primeiro-Ministro Xanana Gusmão, as máquinas não são a inteligência e também não substituem as pessoas. Primeiro, nós temos de ter capacidade humana. Precisamos ter recursos humanos capazes de dominar essa tecnologia.
Depois de formarmos as pessoas, precisamos também compreender que somos todos aprendizes. Todos nós somos. E isso vale ainda mais para países como Timor-Leste, que ainda estão trabalhando muito na estruturação do país, na formação do Estado de Direito e na consolidação das instituições. Essa é uma das nossas grandes preocupações.
Até os países desenvolvidos enfrentam problemas e, às vezes, podem ser surpreendidos ou prejudicados pelo uso da tecnologia. Quanto mais nós, que ainda somos um país jovem e estamos construindo muitas das nossas estruturas. Portanto, é preciso cuidado. É preciso ter cuidado com as fraudes, com a segurança e também com questões relacionadas à soberania.
A tecnologia pode ser muito útil, mas também pode ser utilizada de maneira fraudulenta ou para interferir em questões que dizem respeito à soberania de um país. Por isso, precisamos apostar, sobretudo, na capacidade humana.
E tudo isso passa pelas universidades, pelo ensino e pela educação. Temos de formar pessoas capazes de compreender e dominar as novas tecnologias. Não é fácil. A senhora deve calcular que não é fácil construir um país que, em determinado momento da sua história, foi praticamente reduzido a zero.
São muitas prioridades. Precisamos construir estradas, estruturar as instituições, estabelecer uma nova ordem jurídica, formar recursos humanos e, ao mesmo tempo, convencer as pessoas de que não vale a pena permanecer presas ao que houve de negativo no passado. É preciso olhar para o que ficou de bom e aproveitar essa experiência para construir o futuro.
Não é fácil, realmente, construir um país. E é ainda mais difícil acompanhar a velocidade do desenvolvimento tecnológico. Mas não podemos perder essa batalha. Se o mundo avança, nós também temos de avançar. Caso contrário, ficaremos completamente esquecidos.
Mais uma vez, a entrada de Timor-Leste na ASEAN é muito importante também nesse aspecto. A integração regional exige modernização e capacidade tecnológica. Isso deve servir como uma lição e, ao mesmo tempo, como um apoio para que nós, timorenses, possamos avançar no desenvolvimento da capacidade humana e em tudo aquilo que envolve a construção de um país moderno.
O desenvolvimento tecnológico é, portanto, muito importante para Timor-Leste.
5) Apesar de contribuir pouco para as emissões globais, Timor-Leste é altamente vulnerável às mudanças climáticas e atualmente exerce uma importante liderança entre os Países Menos Desenvolvidos. Quais são as principais prioridades do país na agenda climática e que papel o Brasil pode desempenhar nessa parceria?
O Brasil, especialmente a partir da experiência da COP30, pode perfeitamente ajudar Timor-Leste em termos técnicos e tecnológicos. Pode contribuir para que possamos compreender melhor como enfrentar e vencer essa batalha contra as mudanças climáticas.
Em Timor-Leste, temos inundações e também períodos em que chove muito. Isso acontece com bastante frequência. Portanto, acredito que o apoio do Brasil, especialmente na transmissão de conhecimento e na capacitação técnica, seria muito importante para nós.
No âmbito dos Países Menos Desenvolvidos, Timor-Leste já manifestou um compromisso forte de apoiar o grupo na promoção da ação climática global e no fortalecimento da cooperação multilateral. A região da Ásia sofre muito com as alterações climáticas. Não é apenas Timor-Leste. Temos problemas na Indonésia, nas Filipinas e em vários outros países da região. São situações que acabam também atingindo Timor-Leste.
Temos ainda, ao nosso lado, a Austrália, que também enfrenta problemas relacionados às alterações climáticas e que tem sido um parceiro importante. Mas gostaria de destacar especialmente a importância que o Brasil pode ter na capacitação e na transmissão de conhecimento, principalmente sobre como enfrentar esses problemas na prática.
Temos especialistas que conhecem muito bem essa área. Inclusive, temos um embaixador que possui grande conhecimento sobre as questões relacionadas às alterações climáticas e que participou da COP30. Por isso, acredito que um intercâmbio entre o Brasil e Timor-Leste nessa área seria muito importante.
Porque a questão climática não está apenas relacionada às grandes políticas internacionais. Ela aparece no nosso cotidiano.
Por exemplo, a construção e a reconstrução das estradas em Timor-Leste são um grande desafio. Timor-Leste é uma ilha geologicamente muito jovem e, em determinadas regiões, a terra desliza ou é levada pelas chuvas. Não faz ideia de quantas vezes é necessário reconstruir determinadas estradas porque a terra simplesmente desaparece.
Para um país pequeno como Timor-Leste, que ainda está trabalhando na construção e consolidação do Estado, isso representa um desafio enorme. Às vezes, é necessário deixar algumas coisas para trás e estabelecer prioridades. Isso pode dar a impressão de que determinadas questões, como as alterações climáticas, foram esquecidas. Não foram.
É que são tantas as necessidades e tantas as lutas que, muitas vezes, não é possível responder a todos os problemas ao mesmo tempo.
Eu própria vivi uma situação que demonstra muito bem a dimensão desse problema. Estava em Timor-Leste, de férias, durante o período da pandemia de Covid-19, e choveu muito durante uma noite. No dia seguinte, a minha varanda, que fica em uma parte alta da casa, estava completamente cheia de água. Ninguém conseguia sair.
Felizmente, os técnicos timorenses tiveram a sabedoria de desligar a eletricidade e a energia elétrica, evitando que a situação se tornasse ainda mais perigosa. Houve, no entanto, muitas pessoas que morreram em consequência das inundações. Muitas tentavam sair de suas casas e foram surpreendidas pela força da água.
Foi apenas uma noite de chuva. Uma noite. E, no dia seguinte, parecia que estávamos diante de um mar.
Eu me lembro da casa da minha irmã, que fica ao lado da minha. Não era possível sequer passar de uma casa para a outra. Ficamos todos na varanda, esperando que a água parasse de subir e começasse a baixar. Só conseguimos sair no dia seguinte.
Tenho até fotografias daquele momento. A situação era impressionante.
É por isso que digo que as alterações climáticas são um problema que o mundo inteiro precisa enfrentar. Timor-Leste é um país pequeno e contribui pouco para as emissões globais, mas sofre diretamente as consequências das mudanças climáticas.
Por isso, precisamos de cooperação. Precisamos de conhecimento, tecnologia, formação e capacidade para prevenir e responder a situações como essas.
Nesse sentido, o Brasil pode desempenhar um papel importante. Como país membro da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), o Brasil pode também contribuir para reforçar a cooperação entre os países de língua portuguesa em áreas como gestão de riscos de desastres, adaptação às mudanças climáticas e preparação e resposta a catástrofes.
Para Timor-Leste, essa cooperação é particularmente importante porque não se trata apenas de enfrentar as mudanças climáticas no futuro. É preciso lidar com os seus efeitos já hoje.
6) Em 2026, Timor-Leste alcançou uma importante conquista com a validação da eliminação do tracoma como problema de saúde pública. Quais são hoje os principais desafios da saúde timorense e onde a cooperação com o Brasil pode produzir resultados concretos?
Bom, o estado da saúde em Timor-Leste ainda é frágil. Mas é uma vitória termos vencido o problema do tracoma, assim como já tivemos avanços importantes no combate à malária. Quando se fala dos problemas que ainda existem em Timor-Leste na área da saúde, é preciso reconhecer também que houve uma evolução significativa.
Quando cheguei a Timor-Leste, as pessoas viviam muito pouco. Hoje, a expectativa de vida dos timorenses aumentou, o que demonstra que houve, de fato, uma melhoria nos investimentos em saúde, mesmo que, às vezes, possa parecer pouco. É preciso lembrar que nós temos apenas 24 anos de história como país independente. É um período muito curto.
A taxa de mortalidade infantil também diminuiu. Tudo isso tem relação não apenas com a nutrição das crianças, mas também com o apoio que o Estado vem dando à população e com a melhoria dos serviços de saúde.
É evidente que a situação geográfica de Timor-Leste também não ajuda. É uma meia ilha muito acidentada, com muitas montanhas. Se você está, por exemplo, em Hélio e precisa ir para Henaro, não basta dizer que são cinco quilômetros de distância. É preciso dizer que são duas ou três horas de viagem. É um pouco como o Brasil, só que o Brasil é muito grande. Eu estou falando de uma dimensão muito pequena, mas com dificuldades geográficas que acabam dificultando o acesso aos serviços.
Esse é um dos problemas que existem em Timor-Leste: o acesso desigual à saúde, principalmente nas regiões mais isoladas. Também precisamos aumentar o número de profissionais de saúde, sobretudo médicos especialistas, enfermeiros e gestores hospitalares.
E há outras questões que ainda precisamos vencer: a desnutrição infantil, a tuberculose e a dengue. A luta contra a dengue é muito importante e é uma área em que podemos trocar experiências com outros países.
E aí entra o Brasil. Eu estive em Manaus e conheci a Fiocruz, que tem um papel muito importante. O Brasil tem uma experiência muito maior do que Timor-Leste nessa área, e podemos trocar conhecimentos e experiências. A cooperação técnica brasileira, por meio da Agência Brasileira de Cooperação e da Fundação Oswaldo Cruz, pode contribuir especialmente para o fortalecimento das capacidades locais, da atenção primária e do combate às doenças transmissíveis.
Naturalmente, contamos também com os países da Ásia, que enfrentam problemas semelhantes. No caso do tracoma, conseguimos avançar muito, e isso é uma vantagem. É importante que essa experiência possa ser compartilhada.
Quando cheguei a Timor-Leste, na época da independência, eu quase morri. Fiquei doente de malária e, durante uma semana, precisei ficar no hospital. Naquela altura, era uma doença muito grave. Inclusive, morreu uma senhora que estava doente, ficou em casa e não procurou atendimento. Morreu de malária.
Hoje, graças a Deus, a situação é diferente. Houve avanços importantes, mas ainda temos outras questões que precisamos vencer. A desnutrição infantil, a tuberculose, a dengue e, principalmente, a necessidade de levar os serviços de saúde às pessoas que vivem nas regiões mais distantes.
Por isso, embora o sistema de saúde timorense ainda seja frágil, não podemos esquecer os progressos alcançados. A expectativa de vida aumentou, a mortalidade infantil e materna diminuiu e avançamos no combate a doenças infecciosas. Agora, precisamos consolidar esses resultados, fortalecer a atenção primária e garantir que os serviços de saúde cheguem a toda a população.
É nesse ponto que a cooperação com o Brasil pode produzir resultados concretos: na formação de profissionais, na troca de conhecimento, no fortalecimento das instituições e no desenvolvimento de soluções adequadas à realidade de Timor-Leste.

7) O tais, patrimônio cultural imaterial reconhecido pela UNESCO, representa identidade, memória e conhecimento transmitido entre gerações. Como a senhora pretende ampliar a diplomacia cultural de Timor-Leste no Brasil, inclusive por meio do tais, e, ao mesmo tempo, fortalecer os intercâmbios acadêmicos entre universidades dos dois países?
Relativamente ao tais, é importante dizer que ele é uma expressão muito forte da identidade e da cultura timorenses. É produzido tradicionalmente pelas mulheres, em teares manuais, e cada um dos 13 distritos de Timor-Leste possui características próprias, com cores, desenhos e formas de produção diferentes.
São 12 distritos e uma Região Administrativa Especial, Oe-Cusse Ambeno, que é um enclave timorense no território indonésio. Cada região tem a sua maneira própria de produzir o tais. As cores e os desenhos variam, e quem é especialista consegue identificar a origem de uma peça pelas suas características. Eu própria não consigo fazer todas essas distinções, mas essa diversidade é muito importante.
O reconhecimento do tais como patrimônio cultural imaterial pela UNESCO é importante justamente porque precisamos preservar aquilo que está por trás da peça: a nossa história, os nossos conhecimentos e a nossa identidade.
O tais está presente em diferentes momentos da vida dos timorenses. É utilizado nos casamentos, em cerimônias e também como forma de receber alguém. Oferecer um tais a uma pessoa que nos visita faz parte da cultura timorense. Ele também está presente nos momentos de despedida. Quando alguém morre, por exemplo, as sepulturas podem ser forradas com tais.
É uma tradição muito forte e que atravessou diferentes períodos da nossa história. O tais esteve presente durante o período português e também durante os 24 anos da ocupação indonésia. Nunca desapareceu. Permaneceu como uma expressão da identidade timorense.
Por isso, quando falamos de identidade, estamos falando também dessa capacidade de preservar aquilo que é nosso, apesar das diferentes influências culturais que recebemos ao longo da história. A presença portuguesa deixou marcas importantes, assim como o período indonésio, mas o tais continuou sendo uma referência cultural.
Na diplomacia cultural, temos procurado aproveitar as oportunidades para apresentar essa identidade. Um exemplo foi a entrada de Timor-Leste na ASEAN, quando levámos tais justamente para mostrar a nossa cultura e a nossa diversidade. Aqui na Embaixada, também temos peças representativas dos 13 distritos.
A distância entre Timor-Leste e o Brasil é um obstáculo para que a nossa cultura seja mais conhecida, mas, sempre que existe uma oportunidade, procuramos apresentar o tais. É uma forma de mostrar que Timor-Leste, embora seja um país pequeno, possui uma identidade cultural muito rica e diversa.
Timor-Leste tem cerca de 14 mil quilômetros quadrados, mas é um país muito diverso. É um pouco como um Brasil pequenino: o Brasil é muito diverso, e Timor-Leste também. A diferença é que toda essa diversidade está concentrada em um território muito pequeno.
Ao mesmo tempo, essa diversidade nunca impediu a construção de uma identidade nacional. Pelo contrário. Nós, timorenses, aprendemos, ao longo da nossa história, que precisamos estar unidos. Lutámos pela independência, lutámos pelo nosso futuro e temos consciência de que, se não estivermos unidos, colocamos em risco a própria existência da nação e do Estado.
O tais também representa essa continuidade. É uma tradição que vem de muito antes da chegada dos portugueses. Há características dos nossos tecidos que, inclusive, podem ser encontradas, com algumas semelhanças, em outras partes da Ásia e até em países da América Latina.
Mas há uma característica muito própria do tais timorense: ele é produzido manualmente por mulheres. Elas trabalham nos teares manuais, muitas vezes sentadas no chão, e cada peça exige tempo, conhecimento e habilidade. Não é uma produção industrial.
Por isso, é natural que uma peça feita manualmente tenha um valor diferente de um produto industrializado. O tais é, antes de tudo, uma forma de arte. Existem vários desenhos e padrões tradicionais. Alguns remetem a elementos mais antigos da cultura timorense, ligados às tradições animistas. Com a presença do catolicismo, que tem um peso muito grande em Timor-Leste, também foram incorporados novos elementos, como anjos e santos.
Tudo isso contribuiu para a riqueza cultural do tais. A cultura timorense foi incorporando diferentes influências sem perder a sua identidade. Essa capacidade de assimilar aquilo que contribui para a preservação da cultura é, na minha opinião, uma das características importantes de Timor-Leste.
No campo acadêmico, a educação é uma das áreas mais evidentes da cooperação entre Timor-Leste e o Brasil. Temos interesse em ampliar o intercâmbio entre universidades, professores, pesquisadores e estudantes dos dois países.
Mas existe um obstáculo muito concreto: a distância. Timor-Leste está muito longe do Brasil e, além da distância geográfica, existe também uma diferença significativa de fuso horário. Isso torna mais difícil estabelecer intercâmbios presenciais e manter uma circulação constante de estudantes e pesquisadores.
Ainda assim, precisamos encontrar formas de aproximar as universidades. A tecnologia pode ajudar nesse processo, criando possibilidades de intercâmbio acadêmico a distância, projetos conjuntos, pesquisa e troca de conhecimento.
Assim, o tais e a educação podem cumprir papéis complementares na aproximação entre Timor-Leste e Brasil: um apresenta a nossa história, a nossa cultura e a nossa identidade; o outro cria pontes de conhecimento e aproxima as novas gerações dos dois países.
8) À frente da Embaixada de Timor-Leste no Brasil, quais são hoje suas principais prioridades nas áreas de economia, educação, intercâmbio acadêmico e aproximação institucional? E qual é a visão da senhora para a relação Brasil–Timor-Leste nos próximos anos?
Quando falamos da importância do Brasil para Timor-Leste, é incontornável falar da língua portuguesa e do ensino do português no país. Tudo passa, de alguma maneira, pela educação e pela formação das pessoas. A língua portuguesa faz parte da nossa identidade, e o Brasil tem um peso muito grande nesse tipo de cooperação com Timor-Leste.
Infelizmente, temos um obstáculo que é muito concreto: Timor-Leste está a muitas horas de viagem e a milhares de quilômetros do Brasil. Mas essa distância não impede que existam relações comerciais. Há, por exemplo, produtos brasileiros que chegam a Timor-Leste, inclusive carne de frango, ainda que muitas vezes por meio de outros mercados da região.
O que precisamos é aproveitar melhor a experiência que o Brasil possui em áreas como turismo, comércio, agricultura e formação profissional. A educação, para nós, continua sendo essencial. A capacitação e a formação das pessoas são fundamentais para que Timor-Leste possa consolidar o seu desenvolvimento.
E há uma questão que considero particularmente importante: o ensino da língua portuguesa precisa continuar. O tétum é a nossa língua nacional, é a língua que todos falamos e através da qual nos entendemos. Mas, para nos relacionarmos com o resto do mundo e também para preservar uma parte fundamental da nossa história, o português tem um papel muito importante.
Foi a língua portuguesa que, juntamente com outros elementos da nossa história, contribuiu para a construção da identidade de Timor-Leste como Estado e como nação. Não vou entrar aqui na questão da colonização, mas há um episódio que considero significativo. Quando se completaram 500 anos da chegada dos portugueses a Timor-Leste, o país realizou uma celebração. Isso mostra que conseguimos transformar diferentes momentos da nossa história em elementos da construção da nossa identidade.
A língua portuguesa e a religião católica são dois traços muito importantes dessa identidade. A presença dos missionários portugueses ao longo dos séculos deixou uma influência que contribuiu para esse processo de construção da identidade timorense.
Também vejo espaço para ampliar a cooperação com o Brasil em setores como o tratamento e a produção de café, a agricultura e a agropecuária, além do turismo. O Brasil tem uma experiência muito grande nessas áreas e pode contribuir para a formação e a capacitação de profissionais timorenses.
Neste momento, porém, estamos muito concentrados na educação. Não seria correto dizer o contrário. Para Timor-Leste, formar pessoas é uma prioridade. E, nesse sentido, o papel do Brasil na preparação e na capacitação de recursos humanos é muito importante.
Essa cooperação não precisa acontecer apenas com timorenses vindo para o Brasil. Também é importante que brasileiros possam ir a Timor-Leste, compartilhar conhecimento e trabalhar diretamente com as nossas instituições. É uma forma de ajudar Timor-Leste a fortalecer as suas próprias capacidades.
Nós somos um país pequeno, e é importante dizer isso. Mas a soberania de um Estado não depende do seu tamanho. A soberania é igual para países pequenos e grandes. O nosso desafio é consolidar o Estado, e isso só é possível se tivermos cultura, identidade e capacidade para formar as nossas próprias pessoas.
É por isso que considero a educação tão importante. E a língua portuguesa faz parte desse processo de construção da nossa identidade.
Ao mesmo tempo, a realidade regional exige que Timor-Leste também esteja preparado para utilizar o inglês. Agora que fazemos parte da ASEAN, precisamos falar inglês, porque é a principal língua de trabalho da organização. Isso não diminui, de maneira alguma, a importância do português.
São duas necessidades que podem coexistir. O inglês é importante para a nossa integração regional, enquanto o português está ligado à nossa história, à nossa cultura e à nossa identidade como Estado.
Por isso, olhando para os próximos anos, vejo a relação entre Brasil e Timor-Leste muito ligada à educação, à formação de pessoas, à língua portuguesa e à transferência de conhecimentos. Há também espaço para avançarmos no comércio, na agricultura, no turismo e em outras áreas em que o Brasil possui experiência.
A distância é grande, mas não precisa ser uma barreira. Se conseguirmos aproximar instituições, universidades, profissionais e empresas, poderemos transformar essa relação em uma cooperação cada vez mais concreta.
Para nós, essa aproximação também tem um significado maior: ajuda Timor-Leste a fortalecer as suas raízes, a consolidar a sua identidade e a construir, com autonomia, o seu futuro como Estado e como nação.

9. Para os brasileiros que ainda conhecem pouco sobre Timor-Leste, o que a senhora gostaria que eles soubessem sobre o país, sua cultura e seu povo?
Resposta:
Eu costumo dizer que, antes mesmo de os brasileiros irem para Timor-Leste, o Brasil já fazia parte do nosso imaginário. Quando Timor-Leste ainda era português, eu já conhecia Roberto Carlos. Portanto, o Brasil não é um país estrangeiro para mim. Eu já conhecia vários cantores brasileiros, como Gal Costa, Chico Buarque, Maria Bethânia e Caetano Veloso, entre tantos outros. Sempre tivemos esse contato com a cultura brasileira.
E sei que muitos brasileiros gostam de estar em Timor-Leste. Gostam do clima, da natureza, da tranquilidade e, sobretudo, da segurança. É importante dizer que um estrangeiro que esteja em Timor-Leste é tratado com respeito. Pode haver conflitos entre timorenses, como acontece em qualquer sociedade, mas existe um sentimento muito forte de respeito em relação ao estrangeiro.
Tenho certeza de que os brasileiros que vão para Timor-Leste se sentem em casa, assim como eu me sinto em casa aqui em Brasília. A língua portuguesa também contribui muito para essa proximidade.
Conheço muitos brasileiros que estiveram ou ainda estão em Timor-Leste. Há poucos dias, por exemplo, estive com uma defensora pública brasileira que foi para Timor pensando em ficar dois anos e acabou permanecendo dez. Isso mostra que existe uma relação muito especial entre os brasileiros e o país.
Lembro também do período em que Timor-Leste ainda não era independente e o Brasil participou das forças de manutenção da paz, no contexto da presença das Nações Unidas. Naquela época, Timor estava completamente destruído. Eu perguntei a um militar brasileiro que estava lá se ele gostava de estar em Timor-Leste.
Ele respondeu que sim, porque encontrava ali muitas coisas semelhantes ao seu próprio país, apesar de todas as dificuldades.
Essa resposta ficou comigo. Eu queria saber se os brasileiros, vindos de um país tão grande, conseguiam se identificar com Timor-Leste. É claro que a diferença de escala é enorme. O Brasil é imenso; Timor-Leste é muito pequeno. Mas existe uma proximidade humana que ultrapassa o tamanho dos dois países.
Tenho certeza de que os brasileiros gostam de estar em Timor-Leste e, quando voltam, não se esquecem do país. Vejo isso em profissionais brasileiros que trabalham lá, como defensores públicos, professores e outros especialistas que chegam a regiões muito afastadas, onde nem sempre é fácil viver ou trabalhar.
Muitos não se importam com essas dificuldades. Pelo contrário, gostam das praias, das regiões mais isoladas e da tranquilidade de Timor-Leste. Existe uma sensação de liberdade e, principalmente, de segurança.
Para mim, como embaixadora de Timor-Leste, é motivo de orgulho saber que um estrangeiro pode chegar ao nosso país e sentir-se seguro, acolhido e respeitado.
É isso que eu gostaria que os brasileiros conhecessem sobre Timor-Leste: um país pequeno, com uma cultura muito própria, mas que tem uma grande capacidade de acolher. E acredito que, quando um brasileiro conhece Timor-Leste, encontra ali muito mais proximidade do que poderia imaginar.
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