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Por Jason Bordoff* e Meghan L. O’Sullivan**
Um relatório histórico publicado em 2021 pela Agência Internacional de Energia (IEA) projetou que se o mundo atingir o “zero líquido” em 2050 – conforme advertiu o Painel Intergovernamental da ONU sobre Mudança Climática – será possível evitar o aumento da temperatura média global em mais de 1,5 grau Celsius acima níveis pré-industriais. Isso pode evitar os piores impactos da mudança climática, mas continuará usando quase metade da quantidade do gás natural de hoje e cerca de um quarto do petróleo.
Uma análise recente realizada por uma equipe de pesquisadores da Universidade de Princeton descobriu que se os Estados Unidos alcançassem o zero líquido em 2050, ainda estariam usando um total de um quarto a metade do gás e petróleo que usam hoje. Isso seria uma grande redução. Mas os produtores de petróleo e gás continuariam a desfrutar de décadas de alavancagem de seus tesouros geológicos.
Não há como evitar grandes convulsões ao reordenamos todo o sistema de energia. Os fornecedores tradicionais se beneficiarão da volatilidade nos preços dos combustíveis fósseis que resultará inevitavelmente de uma transição energética difícil. A combinação de pressão sobre os investidores para se desfazerem dos combustíveis fósseis e a incerteza sobre o futuro do petróleo já está levantando preocupações de que os níveis de investimento possam despencar nos próximos anos, fazendo com que os suprimentos de petróleo diminuam mais rápido do que a demanda – ou diminuam mesmo que a demanda continue a cair subir, como já está ocorrendo hoje.
Esse resultado produziria escassez periódica e, portanto, preços do petróleo mais altos e mais voláteis. Esta situação aumentaria o poder dos petroestados, aumentando sua receita e dando influência extra à OPEP, cujos membros, incluindo a Arábia Saudita, controlam a maior parte da capacidade ociosa do mundo e podem aumentar ou diminuir a produção global de petróleo em pouco tempo.
Além disso, a transição para a energia limpa acabará aumentando a influência de alguns exportadores de petróleo e gás, concentrando a produção global em menos players. No futuro, a demanda por petróleo diminuirá significativamente, mas ainda permanecerá substancial nas próximas décadas. Muitos produtores de alto custo, como os do Canadá e do território ártico da Rússia, poderiam ser excluídos do mercado conforme caísse a demanda e, provavelmente o preço do petróleo também.
Outros países produtores de petróleo que buscam ser líderes no que diz respeito às mudanças climáticas – como Noruega, Reino Unido e Estados Unidos – podem, no futuro, restringir sua produção doméstica em resposta à crescente pressão pública para acelerar o abandono de combustíveis fósseis. Como resultado, produtores de petróleo como os países do Golfo Pérsico – que produzem combustível muito barato e de baixo teor de carbono – poderão ver suas participações de mercado aumentar, pois são menos dependentes das instituições financeiras que agora evitam o petróleo e enfrentarão pouca pressão para limitar a produção
Fornecer quase todo o petróleo que o mundo consome iria conferir-lhes uma influência geopolítica descomunal, pelo menos até que o uso de combustíveis fósseis diminua mais acentuadamente. Outros países cujas indústrias de petróleo podem perdurar são aqueles que podem colocar sua produção no mercado rapidamente – como a Argentina e os Estados Unidos. Eles possuem grandes depósitos de óleo de xisto e podem, assim, atrair investidores que buscam períodos de retorno mais rápidos e podem evitar ciclos mais longos de investimentos em petróleo, dadas as incertezas sobre as perspectivas de longo prazo dos preços.
Uma versão ainda mais intensa dessa dinâmica ocorrerá nos mercados de gás natural. À medida que o mundo começa a usar menos gás natural, as participações de mercado do pequeno número de participantes que podem produzi-lo de maneira mais barata e limpa aumentarão, especialmente se os países que estão adotando medidas climáticas vigorosas decidirem limitar sua própria produção.
Para compreender a geopolítica de um mundo que se afasta dos combustíveis fósseis, é fundamental entender quais elementos de uma superpotência de energia limpa realmente produzirão influência geopolítica. Mais uma vez, a realidade difere da sabedoria convencional, e o processo de transição provavelmente será muito diferente do esperado.
No longo prazo, a inovação e o capital barato determinarão quem ganhará a revolução da energia limpa. Os países com ambos os atributos provavelmente exercerão o domínio. Um desses aspectos é o poder de definir padrões para energia limpa. Internacionalmente, um país ou empresa que define padrões globais para especificações de equipamentos ou normas de contratação mantém uma vantagem competitiva sobre os outros. Por exemplo, Austrália, Chile, Japão e Arábia Saudita emergiram como pioneiros no comércio de hidrogênio e amônia de baixo carbono e, portanto, podem ser capazes de definir padrões de infraestrutura e normas de certificação para essas fontes de combustível, privilegiando suas próprias tecnologias e equipamentos.
O estabelecimento de padrões será particularmente importante quando se trata de energia nuclear. De acordo com a IEA, a geração global de energia nuclear precisará dobrar até 2050 para que o mundo alcance emissões líquidas zero. Em 2018, dos 72 reatores nucleares planejados ou em construção fora das fronteiras da Rússia, mais de 50% estavam sendo construídos por empresas russas e cerca de 20% por chinesas; menos de dois por cento estavam nas mãos de empresas americanas. Isso permitirá que Moscou e Pequim influenciem cada vez mais as normas relativas à não proliferação nuclear e imponham novos padrões operacionais e de segurança projetados para dar às suas próprias empresas uma vantagem duradoura em um setor que precisará crescer à medida que a transição energética se desenrolar.
Mudar para uma economia global de combustíveis gerará conflitos – e, por fim, teremos vencedores e perdedores. Uma segunda fonte de domínio em um mundo de energia limpa será o controle da cadeia de abastecimento de minerais como cobalto, cobre, lítio, níquel e terras raras, que são essenciais para várias tecnologias de energia limpa, incluindo turbinas eólicas e veículos elétricos.
De acordo com a IEA, se o mundo começar a se mover com pressa em direção a uma matriz energética mais sustentável, a demanda por tais substâncias excederá em muito a que está disponível hoje. Na estimativa da agência, um mundo que pretende ter emissões líquidas zero em 2050, uma década antes já precisará de seis vezes mais energia limpa do que hoje.
O controle da China sobre os insumos para muitas tecnologias de energia limpa não se limita às suas proezas de mineração; tem um papel ainda mais dominante no processamento e refino de minerais essenciais. Pelo menos na próxima década, essas realidades darão à China um novo poder econômico e geopolítico real. No entanto, a longo prazo, essa influência diminuirá, como acontecer como os países petrolíferos da década de 1970 para cá.
O terceiro elemento do domínio da energia limpa será a capacidade de fabricar componentes para novas tecnologias a baixo custo. No entanto, isso não vai conferir as mesmas vantagens que possuir recursos de petróleo ou gás.
A última maneira pela qual um país pode se tornar uma superpotência de energia limpa é por meio da produção e exportação de combustíveis com baixo teor de carbono. Esses combustíveis – especialmente hidrogênio e amônia – serão essenciais para a transição energética. O cenário antevisto pelo IAE prevê que o comércio dessas substâncias aumentará de quase nada hoje para mais de um terço de todas as transações relacionadas à energia, dentro de três décadas. Com o tempo, os suprimentos de hidrogênio devem consistir principalmente de hidrogênio verde produzido em locais com energia renovável abundante e de baixo custo, como o Chile e os países do Golfo, que possuem grandes quantidades de energia solar barata. Desta forma, alguns dos petroestados ameaçados pelo abandono dos combustíveis fósseis podem ser capazes de se transformar em “eletrostados”.
Por mais que os governos precisem promover novas inovações e acelerar a transição para energia limpa para conter a mudança climática, também devem tomar medidas conscientes para mitigar os riscos geopolíticos que essa mudança criará. As novas tecnologias podem resolver problemas técnicos e logísticos, mas não conseguirão eliminar a competição, as diferenças de poder ou o incentivo que todos os países têm para proteger seus interesses e maximizar sua influência. Se os governos não reconhecerem isso, o mundo enfrentará algumas descontinuidades chocantes nos próximos anos, incluindo novas ameaças econômicas e de segurança que irão reconfigurar a política global.
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*Jason Borddoff é reitor da Escola de Clima de Columbia e Diretor Fundador do Centro de Política de Energia Global da Escola de Relações Públicas e Internacionais da Universidade de Columbia. Durante o governo Obama, atuou como assessora especial do Presidente e Diretor Sênior de Energia e Mudanças Climáticas na equipe do Conselho de Segurança Nacional.
**Meghan O’sullivan é professora de Prática de Assuntos Internacionais na Harvard Kennedy School e autora do livro “Windfall: Como a nova abundância de energia altera a política global e fortalece o poder da América”. Durante o governo de George W. Bush, atuou como assessora especial do presidente e conselheira adjunta de segurança nacional para o Iraque e o Afeganistão.
Parte 2 do texto publicado originalmente em Foreign Affairs. Para ler a parte 1 clique aqui.




