|
Getting your Trinity Audio player ready...
|
As Embaixadas de El Salvador, Guatemala e Honduras realizaram, em Brasília, uma solenidade em comemoração aos 205 anos da Independência da América Central, celebrada em 15 de setembro. O encontro reuniu integrantes do corpo diplomático, autoridades, representantes de diferentes setores e convidados, em uma noite dedicada à história, à identidade cultural e aos vínculos de amizade e cooperação entre os países centro-americanos e o Brasil.
A cerimônia ocorreu na Embaixada da Guatemala e marcou a celebração conjunta de Guatemala, El Salvador, Honduras Nicarágua e Costa Rica, países que integram o conjunto das nações centro-americanas que declararam sua independência em 1821.
O discurso em nome das missões diplomáticas foi proferido pelo embaixador de El Salvador, Luis Alberto Aparicio Bermúdez, que destacou o significado histórico da independência e defendeu uma nova etapa de integração regional, baseada em desenvolvimento, cooperação e maior presença internacional.
“Em 1821, nossos antepassados tiveram a coragem de imaginar uma América Central livre. Hoje, nossa geração tem um desafio diferente: transformar essa liberdade em maior desenvolvimento”, afirmou.
Segundo o embaixador, a América Central reúne mais de 50 milhões de habitantes e ocupa uma posição geográfica estratégica, conectando dois oceanos e importantes espaços econômicos do continente americano.
Para Bermúdez, as transformações geopolíticas atuais exigem dos países centro-americanos uma atuação coordenada. “Uma América Central mais integrada pode ter uma voz mais forte”, ressaltou.
Integração regional como prioridade
O diplomata defendeu a construção de uma visão conjunta para os países da região, com o objetivo de transformar características geográficas e culturais em oportunidades de desenvolvimento econômico e de maior inserção internacional.
“Ainda que esta celebração seja uma homenagem ao passado, o mais importante é reafirmar um compromisso com o futuro”, afirmou.
Na avaliação apresentada durante a solenidade, a aproximação com o Brasil ocupa papel relevante nesse processo. O embaixador destacou a existência de relações históricas entre o Brasil e a América Central, que remontam ao início do século XX.
Documentos oficiais brasileiros registram que, em 1906, foi criada a Legação do Brasil em Havana, com jurisdição cumulativa sobre Guatemala, Honduras, El Salvador, Nicarágua, Costa Rica e Panamá. Em 1937, foi criada a Legação do Brasil na América Central, com sede na Cidade da Guatemala.
Em novembro de 2026, Brasil e Guatemala também celebrarão 120 anos de relações diplomáticas, marco que foi destacado durante a cerimônia. Segundo o governo guatemalteco, a data será comemorada em 22 de novembro.
“Precisamos transformar nossa proximidade geográfica em força econômica e nossa diversidade em capacidade de ação”, afirmou Bermúdez.
O embaixador também destacou áreas como comércio e cooperação técnica e defendeu que a relação entre o Brasil e a América Central avance para além das iniciativas tradicionais, com uma agenda de parceria estratégica.
Brasil e América Central
A importância do relacionamento com a região também foi ressaltada pela embaixadora Gisela Padovan, secretária de América Latina e Caribe do Ministério das Relações Exteriores, que participou da celebração.
Em seu discurso, Padovan fez uma homenagem à trajetória histórica da independência centro-americana e aos líderes que participaram do processo de emancipação política da região.
A diplomata citou o líder centro-americano Francisco Morazán, lembrando a ideia de que a grandeza de um país não está relacionada à extensão de seu território, mas à dignidade e à honra de seu povo.
Padovan também recordou episódios anteriores à declaração de independência de 1821, como a atuação do padre José Matías Delgado e os movimentos independentistas do início do século XIX, além de destacar figuras como Braulio Carrillo Colina, da Costa Rica; Manuel José Arce y Fagoaga, de El Salvador; María Dolores Bedoya de Molina, da Guatemala; e José Cecilio del Valle, de Honduras.
Ao abordar a trajetória das relações entre Brasil e América Central, a secretária destacou o apoio brasileiro aos processos de paz da região e o papel desempenhado pelo país no Grupo de Apoio à Contadora, no contexto que contribuiu para os históricos Acordos de Esquipulas II.
“Esse foi um momento em que a região se uniu para resolver seus próprios problemas”, afirmou.
A diplomata também defendeu a capacidade dos países latino-americanos de construir soluções próprias para os desafios regionais e ressaltou a importância da integração.
SICA e o futuro da integração centro-americana
Outro ponto destacado durante a solenidade foi o papel do Sistema de Integração Centro-Americana (SICA).
O embaixador Luis Alberto Aparicio Bermúdez ressaltou que, a partir de janeiro de 2027, a Guatemala deverá assumir a Presidência Pro Tempore do organismo, oportunidade que, segundo ele, poderá contribuir para fortalecer a agenda de integração, ampliar a coordenação com parceiros estratégicos e tornar mais efetiva a cooperação regional.
A discussão sobre integração ocorre em um momento em que as missões centro-americanas vêm ampliando esforços conjuntos em diferentes partes do mundo. Em setembro de 2026, por exemplo, Guatemala, El Salvador, Honduras e Costa Rica participaram de diferentes iniciativas internacionais de comemoração dos 205 anos de independência, reforçando mensagens de unidade, cooperação e identidade regional.
Para Bermúdez, a região precisa transformar oportunidades em resultados concretos e fortalecer a ideia de um destino comum entre os países centro-americanos.
“Viva uma América Central unida! Deus abençoe a América Central! Deus abençoe o Brasil! Deus abençoe nossos povos!”, concluiu.
História, cultura e identidade
Em sua intervenção, Gisela Padovan também destacou a diversidade cultural dos países centro-americanos e a importância de preservar suas tradições e patrimônios.
A embaixadora mencionou povos originários como os Bribri, Pipil, K’iche’ e Lenca, além de sítios arqueológicos como Copán, em Honduras; Tikal, na Guatemala; Joya de Cerén, em El Salvador; e Guayabo, na Costa Rica.
A cultura garífuna também foi lembrada como expressão da herança afro-indígena da região e como parte do patrimônio cultural imaterial reconhecido internacionalmente.
Padovan destacou ainda a Costa Rica por sua tradição pacifista, a cultura e as paisagens de El Salvador e a trajetória de José Arturo Castellanos, diplomata salvadorenho reconhecido pelo Yad Vashem como Justo entre as Nações por sua atuação na proteção de judeus durante a Segunda Guerra Mundial.
A Guatemala foi lembrada pelos dois laureados com o Prêmio Nobel — Miguel Ángel Asturias, vencedor do Nobel de Literatura em 1967, e Rigoberta Menchú, vencedora do Nobel da Paz em 1992 —, enquanto Honduras foi destacada por sua tradição cafeeira e por nomes de sua literatura, como o poeta Óscar Acosta.
Comércio, turismo e cooperação
A aproximação econômica também esteve entre os temas da noite.
Durante o discurso, Padovan destacou o comércio entre o Brasil e os países centro-americanos e mencionou a presença de empresas brasileiras na região, além de projetos de cooperação técnica em áreas como saúde, bancos de leite, armazenamento e vigilância sanitária.
O turismo foi outro ponto mencionado como área com potencial de expansão. Para a diplomata, uma maior conectividade aérea e a aproximação entre os mercados podem contribuir para ampliar o fluxo de visitantes entre o Brasil e a América Central.
A celebração realizada em Brasília também teve caráter cultural. A Embaixada da Guatemala informou que a recepção contou com gastronomia, música e manifestações da cultura guatemalteca, incluindo apresentação de músicos do Batalhão da Guarda Presidencial do Brasil, exposição de indumentária maia e uma mostra de elementos tradicionais do país.
Uma agenda voltada para o futuro
Ao final da solenidade, os discursos convergiram para uma mesma mensagem: a independência conquistada há 205 anos deve ser acompanhada por uma nova agenda de desenvolvimento, integração e cooperação.
Para os representantes centro-americanos, o fortalecimento dos vínculos com o Brasil pode contribuir para ampliar oportunidades comerciais, investimentos, cooperação técnica, turismo e diálogo político.
Gisela Padovan encerrou sua participação defendendo a união dos países da região em torno de valores como democracia, direitos humanos, multilateralismo e direito internacional.
“Precisamos nos unir com a solidariedade entre países irmãos, que somos há 120 anos e continuaremos sendo”, afirmou.
A celebração terminou com uma homenagem à amizade entre o Brasil e a América Central e à identidade compartilhada pelos povos da região.
“Viva a amizade do Brasil com os países centro-americanos! Viva a nossa querida América Latina e o Caribe!”, concluiu a embaixadora.










