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O uso da água como recurso terapêutico remonta à antiguidade, quando o homem se deu conta de que alguns tipos de água podiam contribuir para a cura de doenças ou ferimentos. De acordo com a vereadora Andreia Dahdal, de Águas de Lindóia (SP), o termalismo pode ser definido como um procedimento natural de tratamento alternativo complementar à medicina tradicional, que se utiliza das águas minerais para se atingir a cura.
Dahdal conta que, no Império Romano, século I a IV, as termas foram popularizadas como fontes de prazer e cura, constituindo parte integrante dos hábitos cotidianos da população. Porém, durante a Idade Média, século V a XV, a Igreja Católica proíbe o banho de imersão para tratamento de saúde ou higiene. “Os fanáticos cristãos pregavam a salvação da alma através do sacrifício do corpo e uma das penitências impostas foi à proscrição do banho”.
Conheça mais sobre termalismo lendo a entrevista da vereadora Andreia Dahdal, concedida com exclusividade para o Diplomacia Business:
Diplomacia Business – O que é o termalismo? Onde nasceu e onde mais evoluiu e possui mais adeptos?
Vereadora Andreia Dahdal, de Águas de Lindoia – Termalismo pode ser definido como um procedimento natural de tratamento alternativo e-ou complementar à medicina tradicional, que se utiliza das águas minerais para se atingir a cura. É um recurso que permite – através dos componentes químicos da água – obter o equilíbrio orgânico e psíquico. O termalismo é prática silenciada pela mídia, pelas tecnologias biomédicas, sufocada pela indústria farmacêutica. No entanto, pode haver um diálogo que favoreça a riqueza social, cultural e a promoção à saúde.
O uso da água como recurso terapêutico remonta à antiguidade, quando o homem se deu conta de que alguns tipos de água podiam contribuir para a cura de doenças ou ferimentos. O termalismo é marcado por períodos como o histórico ou primitivo, que tem a mística religiosa na Idade Média. Foi um período empírico que teve como características a experiência e a observação. A seguir, veio o período da química moderna, que trouxe o conhecimento dos componentes das águas e o surgimento da hidrologia médica como disciplina nas universidades, na primeira metade do século XX, na França.
Levar o termalismo para a academia validou a técnica de tratamento, fortaleceu pesquisas e ajudou a disseminar as descobertas nos países e nas cidades termais. No Império Romano, século I a IV, as termas foram popularizadas como fontes de prazer e cura, constituindo parte integrante dos hábitos cotidianos da população. Porém, durante a Idade Média, século V a XV, a Igreja Católica proíbe o banho de imersão para tratamento de saúde ou higiene. Os fanáticos cristãos pregavam a salvação da alma através do sacrifício do corpo e uma das penitências impostas foi à proscrição do banho, evitando-se a nudez que era pecaminosa podendo levar ao narcisismo e ao autoerotismo. Assim, pregava-se o desprezo pelo corpo, abominação do nu e abstinência sexual para que a alma fosse eternamente feliz.
Com medo das punições impostas pela igreja católica, as pessoas foram deixando as práticas termais. Na segunda metade da Idade Média, no início do século XII, a Igreja reformulou sua posição e as águas minero medicinais passaram a ser consideradas santas e curativas. O clero passou a organizar peregrinações até às fontes termais e o aumento da procura resultou na abertura de estabelecimentos termais. Os adeptos do termalismo estão espalhados pelo mundo todo onde existem balneários, fontes termais na forma de tratamento ou adaptados à sociedade moderna na forma de técnicas de SPA.
Quais são os ganhos financeiros, de empregabilidade e turismo com o termalismo em Águas de Lindóia?
Andreia Dahdal – A atividade econômica da cidade gira em torno do termalismo que é um dos seus maiores ativos. Uma das modalidades de ação econômica hoje é associada com a saúde. Os deslocamentos em busca de saúde são observados desde a antiguidade pelo mundo, envolvendo a sua promoção e prevenção, bem como a cura de doenças. Assim surge o Turismo de Saúde definido como a movimentação de pessoas entre locais diferentes, tendo como meta a cura ou o tratamento da saúde utilizando-se de uma base turística.
O turismo de saúde já não é uma atividade exclusiva nos dias de hoje, não se reduz apenas à vertente medicinal ou curativa. As termas constituem uma oferta competitiva para ocupar o tempo livre e as férias, um espaço que combina saúde e turismo. As termas são uma fórmula atrativa, capaz de satisfazer o descanso e bem-estar, cada vez mais procurada. O turismo é uma indústria que demanda mão de obra. É nossa maior fonte de renda, seja no atendimento direto ao turista da rede hoteleira, seja nas atividades voltada ao comércio.
O município tem a preocupação de conservar suas águas e com o meio ambiente e sustentabilidade?
Andreia Dahdal – Uma das preocupações do município é com a preservação das águas e suas nascentes. Considerando estarmos localizados geograficamente em um território produtor de águas e que nossas matas e águas são ativos vitais para nossa indústria turística, nosso município possui mecanismos legais para proteger e conservar os mananciais, fauna e flora. Um exemplo é a Lei Municipal Nº 2.372 de 1999 que proibiu a perfuração de poços profundos nas áreas de recarga do aquífero do Balneário Municipal.
Vale destacar o vital avanço no sentido da proteção e conservação de nossas áreas verdes por meio da aprovação do novo Plano Diretor – Lei Complementar Nº 267 de 2020. Essa Lei estabeleceu novas regras de uso e ocupação de solo e a criação das chamadas ZPAs- Zonas de Proteção Ambiental, que proíbem a ocupação das áreas de mata, já que estas são as áreas de recarga de nosso aquífero e concentram abundante fauna, flora e um grande número de nascentes.
A cidade também vem avançando na destinação adequada e sustentável de resíduos, com a criação de pontos de entrega voluntária de reciclados e de um Ecoponto para gerenciamento, acondicionamento e destinação, ambientalmente adequada dos resíduos de restos de poda, material volumoso e pneus. Ou seja, os mecanismos criados ao longo das últimas décadas visam garantir a preservação e a manutenção de nosso meio ambiente para garantir a subsistência da vida e da economia de nossa cidade.
Como nasceu o interesse da senhora por estudar e praticar o Termalismo?
Andreia Dahdal – A minha relação com o termalismo começou há muitos anos quando vim morar em Águas de Lindóia, estância hidromineral no Estado de São Paulo. A cidade conta com um balneário tradicionalmente frequentado por pessoas que se submetem ao tratamento com as águas minerais com propriedades terapêuticas. Ao tomar contato com o balneário da cidade tive a oportunidade de conhecer estas pessoas que vinham de longe tratar doenças, segundo elas, “incuráveis”, na sua maioria com problemas dermatológicos e músculos esqueléticos. Essas pessoas me relatavam já terem feito de tudo para melhorar a saúde e “só” com as águas termais viram resultados.
Tenho formação acadêmica em enfermagem, com base em uma visão biomédica da saúde, que não me permitiu de imediato entender a ação da água como agente terapêutico. Portando, para mim por algum tempo, a cura pelas águas foi creditada a uma forma de placebo. Em 2008 participei de um curso de especialização em geriatria e ao final para obter o título elaborei uma monografia que teve como campo de trabalho: o idoso e o tratamento termal. A pesquisa me permitiu conhecer a complexidade do tema nas suas várias vertentes seja no âmbito curativo, preventivo e turístico.
Esse início despertou minha curiosidade e fui fazer mestrado, tendo a oportunidade de retomar o meu interesse sobre o termalismo. Para tanto elaborei um projeto de pesquisa que me permitiu, através do contato com os frequentadores das Termas de Águas de Lindóia, obter uma visão contemporânea em relação aos recursos termais oferecidos pelo balneário. Com esse trabalho procurei conhecer a realidade local que sobrevive ao tempo frente o uso das águas termais como recurso terapêutico e que mantém a tradição da estância de Águas de Lindóia viva na memória de muitos. Eu também quis, ao mesmo tempo, contribuir para a divulgação do termalismo.
Quais são as principais estâncias hidrominerais do Brasil?
Andreia Dahdal – O Brasil possui inúmeras estâncias hidrominerais com características semelhantes. Em sua essência, possuem um complexo turístico de descanso e contemplação, além das águas de fonte. Podemos citar como a maior estância hidromineral a cidade de Caxambu que fica no Parque das Águas em Minas Gerais. A mais antiga é a primeira estância termal brasileira inaugurada em 1818: Caldas da Imperatriz em Santa Catarina. Há outras espalhadas pelo nosso país.
A sra. escreveu o livro “Termalismo em Águas de Lindóia”. Onde podemos encontrá-lo? Pensa em fazer nova edição ou em escrever e lançar novo livro?
Andreia Dahdal – O livro foi uma realização pessoal. Transformei minha tese de mestrado com linguagem técnica e acadêmica em linguagem acessível; Retirei dados, tabelas e acrescentei temas que foram sugeridos para divulgação do conhecimento das nossas águas. Disponibilizei o livro na biblioteca municipal, em algumas escolas, para amigos e amantes do tema. Um livro nunca acaba e cada vez que o leio acho que poderia ser melhor, mas esse também é reflexo do momento que vivi. Tenho intenção de escrever novo livro junto com mais pessoas de áreas diferentes para refletir visões diversas de um mesmo assunto. Escrever demanda dedicação e disciplina, características que hoje desvio para minhas atuações como vereadora. As pessoas que têm interesse no livro entram em contato comigo pelas mídias sociais e quando vêm à cidade lhes entrego pessoalmente, sempre no balneário municipal.
Qual a importância do termalismo para a saúde mental e física das práticas do termalismo?
Andreia Dahdal – Os tratamentos termais envolvem abordagens que buscam estimular os mecanismos naturais de prevenção de agravos, recuperação da saúde e a integração do ser humano com o meio ambiente e a sociedade. O termalismo apresenta a possibilidade de conferir visibilidade aos diferentes modos de cuidar. Atualmente, observa-se uma crescente preocupação em âmbito mundial com a manutenção da saúde no seu aspecto preventivo e não apenas com a recuperação, no aspecto curativo.
São inúmeras as razões para que as pessoas frequentem as estâncias termais. Algumas procuram as termas porque a medicina convencional não atende as suas exigências ou falha na hora de dar alivio. Outras frequentam pela promessa de encontrar melhorias para a saúde e bem estar. Numa tentativa de satisfazer as necessidades emergentes de seus usuários foram se acrescentando produtos e serviços à oferta termal tradicional. Até porque o destino turístico tem que reagir às diversas fases por que passam as necessidades da sociedade. Essas necessidades compartilham a satisfação de cuidados preventivos de saúde como na medicina preventiva; a prestação de serviços terapêuticos que abrange a medicina curativa e a realização de tratamentos de recuperação, no caso a medicina de reabilitação.
O termalismo é dinâmico e está em constante evolução. A atualização em todos seus setores é determinante para atender as novas demandas delineadas de acordo com as necessidades emergentes de seu usuário. O termalismo clássico de longa permanência não perde seu lugar. O que é novo são os tratamentos de finais de semana e feriados, otimizando a ociosidade da baixa temporada nas termas. É uma estratégia mercadológica crescente principalmente nos meses de baixa estação.
As estâncias termais não devem ser reduzidas ao simplismo de instalações balneárias que se utilizam das águas em prol da saúde, da cura, reabilitação e ou prevenção, pois se fosse assim seriam clinicas de saúde e ainda não podemos reduzir a meros spas termais. As termas oferecem muito além dessa visão redutora,
Quais são os principais benefícios da prática do Termalismo?
Andreia Dahdal – Os usuários das termas possuem suas próprias concepções sobre seus problemas de saúde, seja de origem física ou mental. Esse ponto de vista envolve os processos de saúde-doença e as crenças no tratamento termal com a convicção de seus resultados. Essa atitude dos usuários é baseada no contexto social e cultural que trazem de familiares e foram transmitidas entre gerações e de histórias que ouviram ao longo de suas vidas.
Os benefícios da prática do termalismo em relação ao uso da água termal estão relacionados às necessidades pessoais, ou seja, para o relaxamento ou para o alívio dos males do corpo. Hoje o termalismo de bem estar abrange a prevenção e a promoção da saúde em detrimento ao uso do termalismo clássico que era o uso das águas como terapia específica para determinada doença. Podemos concluir que o balneário de Águas de Lindóia e tantos outros espalhados por nosso país sobrevivem ao tempo, testemunha de glória e esquecimento. Estar em Águas de Lindóia está associado a uma visão ampliada de saúde, integrando o bem estar físico, psicológico e social.
Como vereadora, quais as prioridades da sra. para Águas de Lindóia
Andreia Dahdal – Minhas ações são pautadas para o coletivo com participação e transparência para a sociedade. Mostro nas mídias sociais minhas ações. Trabalho para a valorização da mulher, pois sou a única representante no legislativo, e para a formulação de políticas públicas voltadas para as mulheres; incentivo à participação feminina nos conselhos municipais; fomento à participação feminina na construção e formulação de políticas públicas municipais.
Na área da Saúde trabalho para a criação do núcleo de saúde da mulher, centralizando procedimentos voltados às necessidades do público feminino na atenção primária. No turismo, trabalho para aprimorar a infraestrutura turística, valorizar a história da cidade e do artista local, aperfeiçoar a divulgação dos pontos turísticos e atividades turísticas e fortalecer o conselho municipal de turismo, Comtur.
No Meio Ambiente, trabalho para a fiscalização do plano diretor municipal, coleta de lixo reciclável, fortalecimento do conselho do meio ambiente, educação ambiental nas escolas, retomada da coleta seletiva de resíduos. Na Participação e Transparência, luto para institucionalizar a ampliação dos mecanismos de transparência, transmissão de todas as atividades legislativas, gabinete itinerante para aproximar o mandato dos territórios e bairros a fim de incentivar a participação política da população.
Perfil
Andreia Dahdal é enfermeira, especialista em geriatria e arteterapia pela Unicamp, mestre em saúde e reabilitação com pesquisa no termalismo pela UNICAMP. É autora do livro “Águas de Lindóia: Reflexões sobre sua água e sua trajetória”. Elegeu-se vereadora (2020-2024) pelo Movimento Democrático Brasileiro (MDB) e primeira secretária (2021-2022) da Mesa Diretora da Câmara Municipal de Águas de Lindóia.


