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Com economia em expansão, profundas reformas para atrair investimentos e uma história milenar como berço da civilização africana, a Etiópia tem se consolidado como um polo estratégico no continente. Sede da União Africana e terceiro maior centro diplomático do mundo — atrás apenas de Nova York e Genebra —, o país busca intensificar parcerias com o Brasil em áreas como agricultura, energia, comércio, turismo, inovação e segurança alimentar.
A um ano da celebração dos 75 anos de relações diplomáticas entre os dois países, o Embaixador da Etiópia em Brasília, Leulseged Tadese Abebe, em entrevista exclusiva ao Diplomacia Business, detalha avanços recentes e oportunidades para transformar a amizade histórica em resultados concretos.
Confira abaixo, a entrevista na íntegra:
Diplomacia Business: Como o senhor avalia o atual estágio das relações entre Etiópia e Brasil? Quais áreas considera mais promissoras para aprofundar a cooperação nos próximos anos?
Leulseged Tadese Abebe: A relação diplomática entre Etiópia e Brasil é histórica e baseada na confiança e no respeito mútuos. No próximo ano, celebraremos 75 anos de relações diplomáticas — um marco para avaliarmos o que conquistamos e como queremos moldar um futuro melhor para os dois países.
Vale lembrar que o imperador etíope Haile Selassie foi o primeiro chefe de Estado africano a visitar Brasília, em 1960. Hoje, nossos laços bilaterais se fortalecem com visitas de alto nível. Em fevereiro, o Presidente Lula esteve na Etiópia e teve um encontro produtivo com o Primeiro-Ministro Dr. Abiy Ahmed. Também nos reunimos em julho, à margem da Cúpula do BRICS, para discutir cooperação em agricultura, comércio, investimento, turismo, infraestrutura e energia.
Gostaria de destacar que assinamos diversos acordos bilaterais entre Etiópia e Brasil nas áreas de agricultura, investimentos, turismo, educação, ciência, tecnologia e inovação, entre outras. Essas visitas e acordos reforçam nossa parceria, consolidam nossos laços históricos e fortalecem os entendimentos nas áreas de consultas políticas e cooperação econômica, promovendo a amizade e a colaboração entre nossos países.
Em fevereiro deste ano, realizamos a terceira reunião de consultas políticas etíope-brasileiras, demonstrando nosso compromisso com um diálogo regular para alinhar posições em questões regionais e internacionais. A quarta rodada de consultas políticas está prevista para o próximo ano, em Adis Abeba.
No que diz respeito às visitas realizadas em 2025, além da participação do nosso Primeiro-Ministro na Cúpula do BRICS, no Rio de Janeiro, o Vice-Primeiro-Ministro da Etiópia esteve no Brasil para participar da 2ª Cúpula Brasil-África sobre Agricultura e Segurança Alimentar. Embora a conferência tenha ocorrido em nível ministerial, o Primeiro-Ministro fez questão de enviar seu vice, ressaltando a importância do evento para nossa cooperação bilateral.
Outro ponto importante é nossa parceria com a Embrapa, com a qual mantemos vínculos em áreas como manejo de solos, produção de alimentos e desenvolvimento florestal. Essas colaborações visam transferir tecnologias e conhecimentos para melhorar a agricultura etíope, promover o desenvolvimento sustentável e fortalecer a cooperação entre os dois países. Nossa parceria com a Agência Brasileira de Cooperação (ABC) também tem se consolidado como exemplo de cooperação técnica internacional, com foco em áreas estratégicas como agricultura, gestão de recursos hídricos, saúde e desenvolvimento sustentável.
Além disso, discutimos a ampliação da conectividade aérea entre nossos países. Os voos diretos entre o Brasil e a Etiópia facilitam o intercâmbio comercial, turístico e cultural, fortalecendo ainda mais os laços econômicos e sociais que unem nossas nações. A Ethiopian Airlines e a Embraer já trabalham juntas e podem gerar resultados ainda mais transformadores.
Diplomacia Business: Quais oportunidades enxerga para estimular investimentos bilaterais, especialmente em setores como agricultura, energia renovável e infraestrutura?
Leulseged Tadese Abebe: A Etiópia está promovendo uma ampla reforma econômica para melhorar o clima de negócios e atrair capital estrangeiro. Estabelecemos cinco áreas prioritárias: agricultura e agroindústria, manufatura, turismo, mineração e economia digital.
Temos um acordo de promoção e proteção de investimentos com o Brasil e queremos que empresas brasileiras aproveitem esse momento. Gostaria de aproveitar esta oportunidade para convidar empresas brasileiras a investir na Etiópia, aproveitando o clima favorável de investimentos. O entendimento político positivo e a amizade entre nossos países, assim como o compromisso de nossos líderes em fortalecer a parceria econômica, devem ser aproveitados pelos investidores e empresas brasileiras neste momento.
A agricultura, por exemplo, é estratégica: modernizamos o setor e hoje a Etiópia é o maior exportador de trigo da África. Em abril, assinamos um novo memorando de entendimento com o Ministério da Agricultura do Brasil para ampliar essa cooperação. Outro setor promissor é a energia. A Etiópia possui um setor energético em desenvolvimento, com foco em energias renováveis e expansão do acesso à eletricidade. Temos grande potencial hidrelétrico, eólico e geotérmico, e estamos investindo em sua exploração, além de buscar diversificar as fontes de energia.
Em breve, estaremos construindo o maior aeroporto de toda a África. Já temos um dos maiores aeroportos, mas, como estamos sempre nos expandindo, ele já está sobrecarregado. Esse novo aeroporto será um passo muito importante para nós, mobilizando recursos financeiros, expandindo nossa economia e diversos outros setores, além de abrir portas para investidores interessados na Etiópia. Outro aspecto a destacar é o fortalecimento do vínculo turístico entre nossos países e com o Brasil.
Devo mencionar ainda que, de 8 a 10 de setembro de 2025, com eventos preparatórios de 5 a 7 de setembro, a Etiópia sediará o Segundo Fórum Climático Africano (Second Africa Climate Summit — ACS2), um evento de alto nível que reunirá líderes africanos e globais para discutir soluções climáticas voltadas ao desenvolvimento sustentável do continente. Organizado pela União Africana e pelo Governo da Etiópia, o ACS2 ocorrerá na capital, Adis Abeba.
Diplomacia Business: Qual papel os dois países podem desempenhar na defesa do multilateralismo, no BRICS e na União Africana?
Leulseged Tadese Abebe: Vivemos um período de grandes desafios globais — mudanças climáticas, crises de paz e segurança, dívidas e comércio. O sistema internacional atual não reflete os interesses do Sul Global.
Brasil e Etiópia defendem a reforma do Conselho de Segurança da ONU, com maior participação africana. O Brasil apoia integralmente a posição comum da África por dois assentos permanentes no Conselho. Também trabalhamos juntos por uma nova arquitetura financeira internacional, que promova crescimento sustentável e rompa o ciclo da dívida. No BRICS, nossa cooperação tem sido fundamental para avançar nesses temas. Ainda estamos muito longe de conquistar todos os desafios da agenda de 2030 da ONU, sobretudo, em sustentabilidade e erradicação da pobreza e fome zero, mas tanto a Etiópia, quanto o Brasil permanecem firmes em prol desse objetivo em comum.
Com relação ao combate às mudanças climáticas, nossos países levam essa questão muito a sério. A Etiópia tem se destacado nesse esforço, especialmente por meio da Green Legacy Initiative, uma campanha massiva de plantio de árvores com o objetivo de combater o desmatamento, as mudanças climáticas e a degradação do solo. Lançada em 2019 pelo nosso Primeiro-Ministro Abiy Ahmed, mobilizou milhões de etíopes para plantar bilhões de mudas, com a meta de atingir 50 bilhões de árvores até 2026. Essa iniciativa não beneficia apenas o meio ambiente, mas também promove a segurança alimentar e gera inúmeros empregos, sobretudo empregos verdes. Brasil e Etiópia podem, assim, servir de exemplo ao mundo sobre como enfrentar os impactos das mudanças climáticas.
É evidente tanto para a Etiópia quanto para o Brasil que precisamos agir no que diz respeito ao financiamento climático, em prol do combate às mudanças climáticas, ajudando os países ou comunidades a se adaptarem e também a mitigar seus impactos.
Diplomacia Business: A Embaixada prepara uma missão cultural para setembro. Qual é o objetivo desse evento?
Leulseged Tadese Abebe: Queremos apresentar ao Brasil a riqueza cultural da Etiópia. Somos uma das civilizações mais antigas do mundo, nunca fomos colonizados e somos o berço do pan-africanismo. A diversidade cultural etíope será exibida em Brasília de 28 de setembro a 4 de outubro, com música, dança, moda, gastronomia e a tradicional cerimônia do café.
Selecionamos apenas quatro países para receber este evento, e o Brasil é um deles. Queremos aproximar nossos povos e criar bases de longo prazo para uma amizade ainda mais sólida.
Este evento cultural pretende trazer a diversidade cultural da Etiópia em forma de música, dança, desfile de moda e a melhor cerimônia do café da Etiópia, porque acreditamos que somos a origem do café. Além disso, teremos gastronomia — a diplomacia culinária também estará incluída.
Diplomacia Business: Que resultados concretos já podem ser destacados desde sua chegada ao Brasil?
Leulseged Tadese Abebe: Em dez meses, realizamos fóruns de investimentos e missões empresariais. Em abril, mais de 100 empresas brasileiras participaram do Fórum Etiópia-Brasil em São Paulo, e já vemos empresários brasileiros visitando nosso país.
Tivemos intercâmbio técnico no setor agrícola, visitas de empresas como Positivo Tecnologia e Planner Investment, além de avanços na cooperação com a Embraer. O setor farmacêutico e a economia digital também estão na pauta.
Queremos que as empresas brasileiras vejam a Etiópia como destino estratégico. O país está aberto a negócios, com ambiente favorável e liderança comprometida com o desenvolvimento liderado pelo setor privado. Ademais, temos o interesse em expandir nosso vínculo em comércio e educação e intercâmbio.
Diplomacia Business: Que projetos devem avançar em 2025?
Leulseged Tadese Abebe: A Etiópia é membro fundador da Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, liderada pelo Brasil. Essa iniciativa cria oportunidades de transferência de tecnologia, mobilização de recursos e compartilhamento de experiências.
Também consolidamos cooperação em ciência, tecnologia, turismo, educação e agricultura. Este ano assinamos um novo memorando de entendimento com o Ministério da Agricultura brasileiro e avançamos negociações com o Ministério da Pesca e Aquicultura. Sob a presidência brasileira do BRICS, já participamos de mais de cinquenta iniciativas concretas. Nosso compromisso é claro: transformar amizade histórica em parcerias econômicas duradouras.

*Leulseged Tadese Abebe assumiu a Embaixada da Etiópia no Brasil há cerca de dez meses com a missão de aproximar os dois países política, cultural e economicamente. Diplomata de carreira com experiência em negociações multilaterais e no fortalecimento de laços bilaterais, ele tem concentrado esforços em transformar a amizade histórica entre Brasil e Etiópia em parcerias concretas, especialmente nos campos da agricultura, investimentos, aviação e segurança alimentar.
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