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Em entrevista exclusiva ao Diplomacia Business, o embaixador da Polônia, Jakub Skiba comenta as festividades da data nacional do país, sua próspera economia, as relações comerciais com o Brasil, a hospitalidade dos poloneses para receber os ucranianos e a guerra da Rússia e Ucrânia.
Admirador do diretor franco-polonês Roman Polanski, o embaixador Jakub Skiba o considera um dos maiores criadores do cinema mundial. “Sua biografia pessoal e as lembranças da infância trágica, durante a guerra, que ele passou na Polônia ocupada pelos alemães, certamente inspiraram muitos temas em sua obra cinematográfica”, destaca.
Sobre os refugiados ucranianos destaca que eles são tratados como irmãos e irmãs na Polônia, acolhidos em nas casas dos poloneses que lhes oferecem todo tipo de ajuda. “Eles têm acesso livre ao mercado de trabalho e à assistência médica como os cidadãos poloneses. As crianças ucranianas também são admitidas nas escolas polonesas, onde são bem recebidas pelos estudantes poloneses. A Polônia permanecerá hospitaleira com aqueles que decidirem ficar em nosso país”. Veja a entrevista completa:
Diplomacia Business – A data nacional da Polônia é dia 3 de maio. Qual a importância dessa data e como serão feitas as comemorações, dentro e fora do país?
Embaixador da Polônia no Brasil, Jakub Skiba – É uma das datas mais importantes da história da Polônia. Em 1791, o Estado polonês – que enfrentou a agressão de potências vizinhas, como a Rússia, Alemanha e Áustria – conseguiu emitir a primeira da Europa e a segunda Constituição do mundo, cuja implementação significaria reformas profundas e melhoria do funcionamento das instituições do Estado e do bem-estar de todos seus cidadãos. Escrito com espírito iluminista, com sentido de responsabilidade pelo interesse público e pelo Estado, a Constituição é e sempre será para nós, poloneses, um ponto de referência e um exemplo de ação cívica para o bem público e o bem-estar da nossa Nação.
O feriado de 3 de maio – acompanhado pelo feriado de 2 de maio, constituindo ao mesmo tempo o dia da bandeira nacional e o da comunidade polonesa espalhada no mundo inteiro – é comemorado na Polônia de forma extremamente solene, com a participação das mais altas autoridades do Estado, do exército e de todos os cidadãos. As embaixadas polonesas em todo o mundo também participam da celebração deste feriado e apoiam a comunidade dos poloneses que vivem no exterior na organização da celebração.
O que hoje mais move a economia da Polônia?
Embaixador Jakub Skiba – A economia polonesa vem se desenvolvendo de forma constante e consistente há 30 anos, desde o início da transformação do sistema socialista ao mercado livre. Atualmente, de acordo com muitos indicadores, a Polônia é um dos 20 países com as maiores economias do mundo. O PIB anual total é de aproximadamente US$650 bilhões, e o nível da renda, medido pelo parâmetro PPP, é de aproximadamente US$33.000, o que coloca a Polônia já entre os países desenvolvidos. Devemos isso ao desenvolvimento abrangente da economia em todos os ramos: indústria, serviços, agricultura, setor financeiro, bem como ao progresso nos setores da inovação tecnológica e das pesquisas. As perspectivas para um maior desenvolvimento no futuro também são otimistas, apesar dos problemas decorrentes da pandemia e da guerra na Ucrânia.
Como está hoje a relação comercial entre o Brasil e a Polônia?
Embaixador Jakub Skiba – As relações econômicas entre a Polônia e o Brasil estão muito aquém do potencial desta cooperação, dada a força de ambas as economias. A distância geográfica não justifica o baixo nível dessas relações. A tentativa de explicar esse fato pelo alto grau da competitividade das nossas economias leva à conclusão de que as relações devem ser construídas no modelo de compatibilidade, não de competitividade. Isso requer métodos mais avançados e sofisticados de cooperação econômica, baseados em altas tecnologias, investimentos e cooperação de capital em outros mercados. Só assim conseguiremos um efeito de sinergia econômica que pode trazer enormes benefícios para ambos os Países.
Quantos poloneses e descendentes estão hoje no Brasil e a que se dedicam?
Embaixador Jakub Skiba – Grandes ondas de emigração polonesa do final do século XIX e do início do século XX fizeram com que no Brasil milhões de pessoas sejam de origem polonesa. Atualmente podemos avaliar que por volta de mais de 2 milhões de pessoas que vivem principalmente nos estados do Sul – Paraná, Rio Grande do Sul e Santa Catarina – são brasileiros de origem polonesa. E apesar de muitas gerações terem se passado, ainda mostram apego às tradições, cultura, costumes e até mesmo à língua do país de seus ancestrais. Eles agregam um grande valor que pode desempenhar um papel importante para desenvolver relações ainda mais próximas entre as nossas nações.
O que fascina na comunidade de brasileiros de origem polonesa é o profundo apego e patriotismo aos dois países. As autoridades polonesas e as missões diplomáticas polonesas no Brasil estão tentando apoiar essas tendências muito positivas em nome da construção das melhores relações bilaterais possíveis. Devemos também mencionar o grande grupo de descendentes da emigração intelectual polonesa que aqui veio durante a Segunda Guerra Mundial fugindo de uma pátria devastada pela guerra. Por exemplo, no âmbito da vida cultural, podemos citar tais figuras, como o fundador do teatro brasileiro, Zygmunt Ziembiński; o destacado pianista Aleksander Sienkiewicz; o grande escultor, criador do monumento Chopin no Rio de Janeiro, August Zamoyski; e Andrzej Bukowiński, artista da área da publicidade que atualmente é o cônsul honorário da República da Polônia em São Paulo.
Um dos maiores diretores de cinema do mundo, Roman Polanski, tem nacionalidade polaca e francesa. O que o sr. acha desse diretor e dos seus filmes?
Embaixador Jakub Skiba – Roman Polański é um diretor de cinema notável que é conhecido em todo o mundo. Pessoalmente eu gosto muito dos seus filmes e o considero como um dos maiores criadores do cinema mundial. Apesar dos aspectos polêmicos em torno de sua biografia, ninguém pode negar a grandeza de sua obra. Sua biografia pessoal e as lembranças da infância trágica, durante a guerra, que ele passou na Polônia ocupada pelos alemães, certamente inspiraram muitos temas em sua obra cinematográfica. Em filmes como “O Pianista” e “O Inquilino”, pode-se sentir a atmosfera trágica da solidão e opressão que pode ter uma relação com suas experiências pessoais.
Como a Polônia tem contribuído com a causa humanitária mundial, ou seja, mais especificamente de que forma? A Polônia é o país que mais acolhe refugiados da Ucrânia. Como tem sido esse acolhimento?
Embaixador Jakub Skiba – Nas últimas semanas, a Polônia tornou-se amplamente conhecida em todo o mundo por conta dos mais de 2,5 milhões de refugiados que fugiram dos territórios abrangidos pela cruel guerra. O que é especialmente admirável é a grande gentileza dos cidadãos poloneses para com os refugiados, tratando-os como irmãos e irmãs, os acolhendo em suas casas e oferecendo todo tipo de ajuda. É notável que agora na Polônia, apesar do grande número de refugiados recebidos, não há campos especiais para eles como é típico nas crises humanitárias de grande escala.
Os refugiados estão simplesmente nas casas próprias dos poloneses e nos centros de acolhimento, organizados pelo Estado e pelas autoridades locais. Eles têm acesso livre ao mercado de trabalho e à assistência médica como os cidadãos poloneses. As crianças ucranianas também são admitidas nas escolas polonesas, onde são bem recebidas pelos estudantes poloneses. Graças a isso, os ucranianos traumatizados pela guerra se sentem melhor, aguardam o fim da mesma e o retorno para sua pátria. A Polônia permanecerá hospitaleira com aqueles que decidirem ficar em nosso país.
Como o sr. avalia essa guerra entre Rússia e Ucrânia e as consequências que tem trazido para o mundo?
Embaixador Jakub Skiba – Devo enfatizar que a guerra é o resultado do ataque brutal da Rússia à Ucrânia e da violação dos fundamentos do direito internacional e dos princípios de respeito à soberania e à liberdade. As nações devem ter o direito de escolher seu próprio caminho. A Polônia está apoiando a Ucrânia, porque acredita que esta é a única maneira de acabar com a brutal agressão da Rússia contra outros países. Os crimes cometidos pelas tropas russas na Ucrânia devem ser devidamente julgados. Desejo sinceramente à Ucrânia um término próspero desta guerra e garanto que a Polônia continuará a ser uma boa vizinha e amiga, ajudando os ucranianos a reconstruir seu país destruído.




