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Alexandre Lins Batista é cientista político e pesquisador de História Internacional. Atualmente, dedica-se à análise das interações diplomáticas entre Impérios e Colônias e a alteração na geopolítica mundial após os processos de descolonização. Autor profícuo, já publicou análises em diversos periódicos e sites diplomáticos e na plataforma Medium.

Em entrevista ao Diplomacia Business, o especialista analisa o panorama diplomático mundial e o papel do Brasil no tabuleiro das Relações Internacionais, que se movimenta constantemente.

Alexandre Lins. Foto: Arquivo Pessoal

Acompanhe na íntegra:

Como o sr. vê a trajetória recente das Relações Internacionais do Brasil nos últimos anos?  

As relações internacionais do Brasil oscilaram bastante, tendo saído de uma visão mais pragmática e universal, para um lugar mais centrado na revisão das ideias do que deve ser o Brasil. Mesmo dispondo de chanceleres com modos de agir distintos, as diretrizes de política externa do atual governo não se afastaram muito desse lugar.

É importante salientar, no entanto, que, ao longo da história, o país conseguiu construir a imagem de ator conciliador, que se vale da diplomacia e do Direito Internacional para influenciar nos grandes temas globais e que costuma conseguir. Sendo assim, não acredito que essas bases da política exterior do Brasil possam ser alteradas de forma permanente. Essa imagem é bastante sólida e será sempre a marca do país.

Qual sua avaliação da participação do Brasil nos blocos econômicos multilaterais, como BRICS e Mercosul, e agora pleiteando a entrada na OCDE?

A razão de ser do Brasil reside no multilateralismo. Embora estejamos entre as maiores economias do mundo, não temos condições de sozinhos influenciar a forma de pensar do mundo. Também não somos uma potência militar capaz de dissuadir outros atores a nos seguir. Sendo assim, não há para o Brasil salvação fora da diplomacia. E temos vivido assim desde o império.

Dessa forma, é louvável que o Brasil siga investindo em uma diplomacia econômica multilateral para que, dessa forma, possa dispor de maiores instrumentos na consecução de seu desenvolvimento.

O Brasil voltou ao Conselho de Segurança da ONU depois de uma década. Quais as implicações disso para o futuro das Relações Internacionais?

Veja, o Brasil é um ator global importantíssimo. Essa é a nossa 11ª eleição ao posto de membro não-permanente no Conselho de Segurança da ONU (CSNU), fato que, por si só, demonstra a relevância do país no trato dos temas de paz e segurança internacionais.

Dito isto – e tomando emprestada uma frase do embaixador [Marcos de] Azambuja que diz que, sem falsa modéstia, o mundo só é possível se o Brasil for possível -, digo que a presença brasileira no Conselho de Segurança é importante em várias frentes. Destaco, dentre elas, a possibilidade de levar a um grupo que representa uma lógica ultrapassada uma visão de mundo que preza pelo pluralismo, pelo respeito efetivo ao Direito Internacional – especialmente princípios como o da não intervenção e autodeterminação dos povos – e que busca soluções diplomáticas, negociadas, para as controvérsias.

Além disso, o Brasil tem presença importante nas missões de paz pelo mundo, é um dos grandes articuladores do conceito de diplomacia preventiva; logo, sua voz é ouvida. Mesmo sabendo das limitações existentes nos processos políticos do CSNU, a presença do Brasil ajuda, ainda que pouco a pouco, a desmantelar pensamentos que ainda estão pautados em passados coloniais e de um mundo que não existe mais.

O Brasil abriu embaixada no Bahrein e agora pleiteia mais uma representação diplomática na China. Como o sr. vê essa aproximação com países árabes e interesse crescente na Ásia por parte do Brasil, ao mesmo tempo que o acordo União Europeia-Mercosul está congelado?

A expansão de nossa rede diplomática é sempre salutar. Nossos laços com o Oriente Médio são históricos. É impossível pensar no Brasil de hoje sem considerar a influência de diversos países da região, razão pela qual, é indispensável o fortalecimento constante desses laços por meio do incremento nas relações diplomáticas, políticas e comerciais. A Ásia, como um todo, se tornou uma região incontornável. Não há como pensar em um projeto de política exterior sem considerar as relações com os países do Oriente Médio, com a Índia, a China e tantos outros.

Em relação ao acordo Mercosul-UE, não me restam dúvidas de que as travas atuais serão desfeitas no curso do tempo. Considerando que a maior parte delas se encontra em questões relativas ao agronegócio, área em que ambas as regiões importantes atores, é salutar que as negociações sejam feitas com cautela a fim de evitar perdas indesejadas. E é aí que entra a necessidade de ampla diversificação das parcerias do Brasil. Todas as regiões são importantes, mas é indispensável formular uma política exterior pragmática, que tenha como maior interesse nacional o desenvolvimento nacional.

O Brasil está tentando se cacifar novamente como um player importante no cenário mundial, mas muitos estão céticos sobre essa retomada no curto prazo. Como o sr. vê essa questão?

É necessário considerar, antes de qualquer análise, que política externa é uma política pública, logo, não estará isenta de ideologias do governo que está no poder. Isso fará com que, muito embora o Brasil costume valer-se da continuidade em vários aspectos de suas relações internacionais, que retrocessos e avanços estejam muito presentes. Muitas vezes, será uma visão particular do analista, que tem sua própria ideia de mundo, em outros momentos, retrocessos poderão ocorrer.

É importante não perder de vista que, como toda política pública, ela passa pelo crivo social e, com o término de um governo, o próximo poderá rever posições controversas adotadas anteriormente. A política exterior não é estática e oscila conforme o poder alterna, seja para o bem, seja para o mal.

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