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Por Embaixador Anil Trigunayat, ex-embaixador da Índia na Jordânia, Líbia e Malta
A Índia e a África compartilham uma relação histórica profunda e duradoura. Embora esse seja um tema frequentemente destacado em discursos oficiais, é essencial realizar uma avaliação objetiva da extensão e da profundidade dessa parceria para orientar decisões políticas mais eficazes. Ao longo das últimas décadas, a Índia manteve um relacionamento consistente com os países africanos, ainda que, em alguns momentos, de forma pontual.
Desde o período de descolonização, a Índia consolidou-se como uma importante defensora da emancipação dos países africanos do domínio colonial. Posteriormente, por meio do Movimento dos Não Alinhados (NAM), passou a apoiar as principais demandas do continente, especialmente as dos Países Menos Desenvolvidos (PMD), em fóruns internacionais como o GATT/OMC, a ONU, a Commonwealth (CHOGM) e as negociações sobre mudanças climáticas, além de defender uma reforma do Conselho de Segurança das Nações Unidas (CSNU). Durante sua presidência do G20, em 2023, a Índia liderou os esforços para tornar a União Africana (UA) membro permanente do grupo, iniciativa amplamente elogiada em todo o continente.
Outro pilar importante da parceria é a cooperação para o desenvolvimento de capacidades. Por meio de uma abordagem baseada no compartilhamento de conhecimento, a Índia contribuiu significativamente para a formação de mão de obra qualificada, o fortalecimento de instituições e a expansão da infraestrutura nos setores de educação e defesa. Professores e acadêmicos indianos exerceram grande influência entre as décadas de 1960 e 1980, sendo lembrados com respeito por muitos líderes africanos até os dias atuais. Da mesma forma, diversos oficiais militares treinados na Índia chegaram a ocupar cargos de chefes de governo e chefes de Estado em seus respectivos países.
Milhares de profissionais africanos também foram capacitados por meio do Programa Indiano de Cooperação Técnica e Econômica (ITEC), totalmente financiado pelo governo indiano, e muitos alcançaram posições de destaque em seus países. Outro exemplo de sucesso é o programa das chamadas “Mamas Solares”, que forma cerca de 80 mulheres africanas por ano para trabalhar com energia solar. Ao retornarem às suas comunidades, elas contribuem para a eletrificação de dezenas de residências e para a disseminação de tecnologias sustentáveis. Paralelamente, a Índia vem promovendo iniciativas voltadas ao desenvolvimento de competências tecnológicas por meio de centros de excelência e de parcerias bilaterais, regionais e trilaterais, em colaboração com países como França, Japão e Emirados Árabes Unidos.
No campo da conectividade e da inovação, um dos projetos mais ambiciosos foi a iniciativa Pan-African e-Network, concebida a partir da visão do ex-presidente A. P. J. Abdul Kalam. O programa conectou 48 países africanos por meio de serviços de telemedicina, tele-educação, governança eletrônica e comunicação entre chefes de Estado. A iniciativa envolveu cinco universidades indianas de excelência e doze hospitais especializados, sendo integralmente financiada pelo governo da Índia em parceria com a NEPAD. Posteriormente, o programa foi ampliado e modernizado sob o governo do primeiro-ministro Narendra Modi, passando a integrar as iniciativas e-Vidya Bharti e e-Arogya Bharti. Segundo relatórios, mais de sete mil estudantes concluíram seus cursos por meio dessas plataformas. Desde a década de 1950, a Índia também concede bolsas de estudo para estudantes africanos em instituições de ensino superior indianas. Atualmente, estima-se que mais de 55 mil estudantes africanos estejam matriculados no país.
A cooperação na área de defesa constitui outro importante eixo da relação Índia-África. Desde sua participação nas operações de manutenção da paz da ONU no Congo, em 1960, a Índia tem desempenhado um papel relevante em missões internacionais, especialmente na prevenção de conflitos, como no Sudão do Sul. O contingente feminino da polícia indiana também recebeu amplo reconhecimento por sua atuação na Libéria, sendo elogiado pela então presidente Ellen Johnson Sirleaf. Atualmente, a Índia continua oferecendo treinamento militar a profissionais africanos em áreas como operações de paz, combate ao terrorismo, enfrentamento de insurgências e desenvolvimento de capacidades estratégicas. Além disso, colaborou para a criação de instituições de ensino militar, incluindo faculdades de Defesa Nacional em países como a Nigéria.
No âmbito da segurança regional, a Índia apoia iniciativas voltadas ao fortalecimento da Arquitetura Africana de Paz e Segurança (APSA), criada pela então Organização da Unidade Africana (OUA) para enfrentar desafios como genocídios e conflitos internos. O país também participa ativamente de operações antipirataria na costa oriental da África, especialmente na Somália, no Golfo de Áden e no Canal de Moçambique, garantindo a segurança das rotas marítimas internacionais. A Marinha Indiana já escoltou aproximadamente 2.500 embarcações comerciais. Diante das transformações geopolíticas recentes e das ameaças às cadeias globais de abastecimento, a Índia busca ampliar sua cooperação marítima com os países africanos, fortalecendo a segurança energética e a proteção das rotas de comércio.
A diáspora indiana desempenha igualmente um papel estratégico no fortalecimento das relações bilaterais. Estima-se que cerca de três milhões de pessoas de origem indiana vivam no continente africano, atuando em diversos setores econômicos e sociais. Além de contribuir para a geração de empregos, essas comunidades investem em educação, saúde e desenvolvimento local. O ex-presidente da Nigéria chegou a afirmar que as empresas indianas representam o segundo maior empregador do país, atrás apenas do governo federal. Nesse contexto, a implementação plena da Zona de Livre Comércio Continental Africana (ZCLCA) também representa uma oportunidade para ampliar os vínculos econômicos entre a Índia e o continente.
Em julho de 2018, durante discurso no Parlamento de Uganda, em Kampala, o primeiro-ministro Narendra Modi apresentou dez princípios orientadores para a política da Índia em relação à África. Entre eles estão a prioridade estratégica atribuída ao continente, o fortalecimento da cooperação para o desenvolvimento, a ampliação do acesso de produtos africanos ao mercado indiano, o apoio à transformação digital, ao desenvolvimento agrícola, ao enfrentamento das mudanças climáticas, à segurança marítima e à construção de uma ordem internacional mais justa, democrática e representativa. Essa visão busca consolidar uma parceria baseada na cooperação e no benefício mútuo, em contraste com modelos frequentemente associados a práticas neocoloniais.
Atualmente, as relações entre Índia e África abrangem uma ampla gama de áreas, incluindo diálogo político, comércio, investimentos, cooperação para o desenvolvimento, capacitação profissional, saúde, educação, conectividade digital, tecnologias da informação, inteligência artificial, defesa, exploração espacial, minerais críticos, segurança alimentar, segurança energética, energias renováveis e atuação conjunta em organismos multilaterais.
Por fim, a realização do 4º Fórum Índia-África (IAFS), adiado em razão da epidemia de ebola, permanece uma prioridade para ambos os lados. O encontro poderá atualizar a agenda bilateral diante dos desafios contemporâneos e fortalecer uma parceria cada vez mais estratégica. Em um cenário internacional em transformação, a convergência entre a Agenda 2063 da União Africana e a visão indiana de Viksit Bharat 2047 oferece oportunidades para impulsionar inovação, resiliência, desenvolvimento inclusivo e crescimento sustentável em benefício de ambas as partes.
Fonte: Embaixada da Índia no Brasil.


