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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva abriu nesta terça-feira (22) o Debate Geral da 81ª sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York. Como ocorre tradicionalmente desde 1955, o Brasil foi o primeiro país a discursar na abertura do principal fórum anual de debates da ONU. A sessão deste ano tem como tema “Restaurar a confiança, gerenciar a transformação: uma Organização das Nações Unidas que atenda a todas as pessoas”.

Em seu discurso, Lula afirmou que as Nações Unidas atravessam um dos momentos mais críticos de sua história e defendeu o fortalecimento do multilateralismo, da democracia e da cooperação internacional. O presidente também criticou o que classificou como enfraquecimento da capacidade da organização de responder aos conflitos armados e proteger populações vulneráveis.

“Esta é a décima ocasião em que abro o Debate Geral desta Assembleia”, afirmou Lula, lembrando que fez seu primeiro discurso na tribuna da ONU em 2003. Segundo o presidente, o sentimento que marcou sua fala foi o de “indignação” diante da incapacidade da comunidade internacional de conter guerras e conflitos.

Lula criticou o funcionamento do Conselho de Segurança da ONU e defendeu mudanças no sistema multilateral. Para o presidente, o poder de veto concedido às grandes potências permanece como um dos principais obstáculos à atuação efetiva da organização.

O presidente também alertou para o aumento dos conflitos armados e para os riscos de uma nova corrida armamentista. Segundo ele, tensões geopolíticas podem transformar confrontos regionais em conflitos de proporções mais amplas.

Guerra no Oriente Médio e conflito entre Rússia e Ucrânia

A guerra no Oriente Médio ocupou parte central do discurso. Lula criticou as ações do governo de Benjamin Netanyahu na Faixa de Gaza e afirmou que gerações de palestinos carregarão as consequências do conflito.

Ao mesmo tempo, o presidente condenou os ataques terroristas cometidos pelo Hamas contra civis israelenses e defendeu a responsabilização por crimes cometidos durante o conflito.

Lula também mencionou o Tribunal Penal Internacional e a relatora especial da ONU para os territórios palestinos ocupados, Francesca Albanese. Segundo ele, iniciativas para pressionar o tribunal e seus integrantes podem contribuir para a impunidade.

O presidente voltou a defender a solução de dois Estados e afirmou que a expansão de assentamentos israelenses na Cisjordânia dificulta a construção de uma solução política duradoura.

Sobre a guerra entre Rússia e Ucrânia, Lula afirmou que o conflito se prolonga em meio a graves consequências humanitárias e defendeu a diplomacia como caminho para alcançar uma solução. Ele também citou a iniciativa do Grupo de Amigos da Paz, criado por Brasil e China, como exemplo de esforço voltado ao diálogo.

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Soberania e América Latina

Ao abordar a situação da América Latina e do Caribe, Lula afirmou que os países da região precisam preservar sua soberania e fortalecer a cooperação regional.

“O Brasil não cabe no quintal de ninguém”, declarou o presidente, ao defender relações internacionais baseadas em desenvolvimento, parceria e respeito à autonomia dos países.

Lula também criticou interferências externas em processos eleitorais e afirmou que a divisão do mundo em zonas de influência e a disputa por recursos estratégicos representam práticas que não correspondem aos desafios contemporâneos.

Em relação à Venezuela, afirmou que o povo venezuelano deve ter o direito de definir seu próprio destino. Sobre a Nicarágua, disse que os problemas do país não serão resolvidos impedindo a oposição de participar das eleições.

O presidente também citou a crise no Haiti e criticou o embargo econômico imposto a Cuba, defendendo maior atenção da comunidade internacional às consequências humanitárias e econômicas da medida.

Combate ao crime organizado

Na área de segurança pública, Lula afirmou que o Brasil enfrenta de forma direta o crime organizado e rejeitou a ideia de terceirizar a responsabilidade pela proteção das fronteiras brasileiras.

“Não precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas. Precisamos de cooperação para estancar o fluxo de armas e de dinheiro que abastecem o crime”, afirmou.

O presidente mencionou ainda a criação, em Manaus, do Centro de Cooperação Policial Internacional da Amazônia, reunindo autoridades de segurança dos nove países amazônicos.

Segundo Lula, o Brasil realizou, em 2025, operações de grande escala contra organizações criminosas e ampliou a apreensão de drogas, bens e recursos de origem ilícita.

O presidente também destacou a legislação brasileira de combate ao crime organizado e afirmou que o enfrentamento à corrupção continuará sendo uma prioridade do governo.

Multilateralismo, comércio e saúde

Lula dedicou parte do discurso à situação das instituições multilaterais. Na área comercial, criticou o uso de tarifas como instrumento de pressão entre países e defendeu o fortalecimento da Organização Mundial do Comércio.

O presidente também falou sobre desinformação, ciência e saúde pública. Ao mencionar a pandemia de Covid-19, afirmou que as lições deixadas pela crise sanitária não podem ser esquecidas e criticou campanhas contra vacinas.

Para Lula, o enfraquecimento de instituições internacionais de saúde aumenta a vulnerabilidade das populações diante de futuras emergências sanitárias.

Mudanças climáticas e transição energética

A agenda ambiental também ocupou espaço importante no pronunciamento. Lula afirmou que a mudança climática deve permanecer no centro das discussões internacionais e defendeu uma resposta coordenada dos países.

O presidente citou os impactos do derretimento das geleiras, eventos climáticos extremos, secas, chuvas intensas e incêndios florestais.

Ao falar sobre o Brasil, destacou a matriz energética do país e a necessidade de conciliar crescimento econômico e redução das emissões de gases de efeito estufa.

Lula também mencionou a exploração de petróleo na Margem Equatorial e afirmou que o Brasil continuará buscando novas reservas, ao mesmo tempo em que pretende avançar na agenda de descarbonização.

Outro ponto destacado foi a proteção das florestas. O presidente citou o Fundo Florestas Tropicais para Sempre, lançado durante a COP30, em Belém, e afirmou que a floresta possui maior valor econômico e ambiental quando preservada.

Lula também apresentou o Brasil como um país com potencial estratégico para a transição energética, devido às reservas de minerais críticos e terras raras.

Segundo o presidente, a exploração desses recursos deverá estar associada à geração de valor no território nacional, à transferência de tecnologia e ao fortalecimento de setores estratégicos da economia brasileira.

Inteligência artificial e plataformas digitais

A regulamentação das grandes empresas de tecnologia e da inteligência artificial foi outro tema abordado.

Lula defendeu regras internacionais para o setor e afirmou que o avanço tecnológico precisa estar acompanhado de transparência e responsabilidade.

O presidente também criticou o modelo de negócios das chamadas BETs, afirmando que a expansão das plataformas de apostas tem provocado endividamento e problemas sociais.

No ambiente digital, destacou medidas brasileiras voltadas à proteção de crianças, adolescentes e mulheres e defendeu mecanismos para garantir remuneração adequada a artistas, músicos e produtores de conteúdo audiovisual.

Lula também mencionou o PIX, sistema brasileiro de pagamentos instantâneos, defendendo sua manutenção como infraestrutura de interesse público e instrumento de inclusão financeira.

Desigualdade, desenvolvimento e trabalho

A desigualdade econômica e social foi outro eixo do discurso. Lula defendeu políticas públicas voltadas à redução da pobreza, à distribuição de renda, à geração de empregos e à ampliação do acesso à educação e à saúde.

O presidente afirmou que o Brasil busca combinar crescimento econômico com políticas de proteção social e mencionou investimentos, crédito, produtividade e valorização dos salários como componentes da estratégia econômica do governo.

Lula também abordou as transformações no mundo do trabalho e defendeu o fim da chamada escala 6×1, com dois dias de descanso semanal.

Segundo o presidente, a mudança poderia contribuir para reduzir a sobrecarga doméstica que, em sua avaliação, ainda recai de forma desproporcional sobre as mulheres.

Ele também defendeu o combate ao feminicídio e à violência contra as mulheres.

Defesa da democracia

Na parte final do discurso, Lula destacou a trajetória histórica das Nações Unidas e afirmou que a organização precisa recuperar sua capacidade de promover a paz e a cooperação entre os países.

Ao mencionar o Brasil, o presidente destacou a importância das instituições democráticas e da soberania nacional.

Lula afirmou que o país possui um sistema eleitoral “moderno e robusto” e defendeu a realização de eleições transparentes e competitivas.

O presidente também criticou o uso de redes de desinformação e alertou para tentativas de interferência externa no debate público brasileiro.

Ao concluir, Lula afirmou que a democracia brasileira pertence aos brasileiros e reafirmou a defesa da soberania nacional.

“Não vamos permitir que os inimigos da democracia, internos e externos, atentem contra a vontade popular”, declarou.

O discurso encerrou a participação brasileira na abertura do Debate Geral da 81ª Assembleia Geral da ONU, que reúne líderes dos 193 Estados-membros para discutir conflitos, desenvolvimento sustentável, mudanças climáticas, direitos humanos e outros desafios globais.

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