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Fundado em outubro de 1942, na Costa Rica, o Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA) completa 80 anos em outubro. Vários eventos estão sendo planejados para esse aniversário, principalmente para o segundo semestre, alguns com conteúdo técnicos e discussões conjunturais. Haverá também encontros comemorativos.
Um webinário sobre diplomacia agrícola está programado para junho, como parte das comemorações do Instituto. O objetivo será analisar o cenário de dependência da América Latina e Caribe, como a importação de fertilizantes da Rússia e de Belarus.
O IICA tem estreita relação com os representantes do corpo diplomático, “o que promove o diálogo e o intercâmbio técnico em temas de interesse da América Latina e do Caribe e, consequentemente, facilita novas oportunidades de cooperação e a criação de pontes entre os interesses do governo brasileiro e representantes de países do sistema interamericano”, explica Gabriel Delgado, representante do IICA no Brasil, em entrevista ao Diplomacia Business.
Na opinião de Gabriel Delgado, “essa proximidade também ajuda a trocar experiências exitosas desenvolvidas por meio das iniciativas de cooperação – não apenas Brasil, mas nos 34 países onde o IICA está presente -, sobre metodologias, tecnologias e boas práticas na busca de soluções para uma agricultura mais produtiva, sustentável e inclusiva, portanto, os países, organismos internacionais e outras instituições se beneficiam da nossa capilaridade”.
Diplomacia Business – Como tem sido a relação em Brasília entre o IICA e os embaixadores e representantes do corpo diplomático dos países da América Latina e do Caribe?
Gabriel Delgado, representante do IICA no Brasil – O IICA tem uma estreita relação com os representantes do corpo diplomático, o que promove o diálogo e o intercâmbio técnico em temas de interesse da América Latina e do Caribe e, consequentemente, facilita novas oportunidades de cooperação e a criação de pontes entre os interesses do governo brasileiro e representantes de países do sistema interamericano.
Essa proximidade também ajuda a trocar experiências exitosas desenvolvidas por meio das iniciativas de cooperação – não apenas Brasil, mas nos 34 países onde o IICA está presente -, sobre metodologias, tecnologias e boas práticas na busca de soluções para uma agricultura mais produtiva, sustentável e inclusiva, portanto, os países, organismos internacionais e outras instituições se beneficiam da nossa capilaridade.
O IICA e o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento têm muitos objetivos em comum. Como tem sido essa parceria?
Gabriel Delgado – Este ano o IICA completa 80 anos desde sua criação e 58 anos no Brasil. Desde então, o IICA tem trabalhado próximo ao governo brasileiro a serviço do setor agropecuário, principalmente com o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), e outros ministérios, e esta parceria se fortalece a cada dia.
A aliança do Instituto com o MAPA é fundamental para o planejamento e o desenvolvimento de projetos, iniciativas e políticas públicas que permitem fomentar o agronegócio, estimular a agropecuária, fortalecer a agricultura familiar, criar capacidades pessoais e institucionais, promover o desenvolvimento sustentável das cadeias produtivas e enfrentar os desafios regionais do setor em benefício da sociedade brasileira.
Atualmente, o IICA possui 9 grandes projetos de cooperação técnica em execução com o MAPA, em temas relacionados à defesa agropecuária, agricultura familiar, governança fundiária, bioeconomia, modernização estratégica, nova ruralidade, inventário florestal, ATER digital, dentre outros.
Recentemente, por exemplo, assinamos uma carta-convênio com o Serviço Florestal Brasileiro e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) para o Programa de Investimento Florestal (FIP), no valor de U$9,7milhões, com prazo de execução de quatro anos, para produzir informações para coletar, organizar e tornar disponível informações florestais de quatro biomas: Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica e Pantanal.
Essas parcerias permitem desenvolver estudos técnicos, iniciativas estratégicas e políticas públicas para o país com um forte componente social, além de propor metodologias, inovações tecnológicas, práticas agrícolas e soluções adequadas, frente aos desafios e ao novo contexto internacional, no que se refere à garantia da segurança alimentar, nutricional e da preservação ambiental.
Com inflação alta, preços dos combustíveis subindo, mais pessoas estão precisando de alimentos no Brasil. Que tipo de contribuição o IICA pode oferecer para melhorar a situação alimentar das famílias pobres brasileiras?
Gabriel Delgado – Diante do novo panorama geoalimentar, redefinido devido à pandemia e atual guerra no Leste Europeu, o IICA contribui, por meio da cooperação técnica internacional, apoiando os países membros nas suas funções de fornecedores de alimentos e de prestadores de serviços ambientais para as populações do mundo. Enfrentar esses desafios em um mercado cada vez mais exigente, dinâmico e tecnológico, que, a cada dia, exige menor impacto social e ambiental também requer a constante atualização e análise das tendências, para que possamos atuar como ponte entre instituições e como propulsor de estratégias que criem oportunidades.
Nossa atuação busca contribuir para geração de emprego e renda, aumento da produtividade, empoderamento de mulheres e jovens, incentivo ao empreendedorismo, inovação, associativismo, a fim de garantir a produção de alimentos em quantidade e qualidade a partir de relações competitivas, sustentáveis e principalmente inclusivas.
Quais são as prioridades do IICA no Brasil este ano?
Gabriel Delgado – Fortalecer e ampliar a carteira de projetos, junto aos atuais e novos parceiros, em apoio à formulação e implementação de políticas públicas, no âmbito dos governos federal e estaduais, em temas estratégicos e que estejam alinhados com a agenda prioritária do país e vinculados às necessidades coletivas de seus beneficiários diretos. Além disso, queremos nos aproximar mais dos bancos multilaterais de fomento, da iniciativa privada e dos fundos internacionais para aumentar a esfera de cooperação e facilitar o acesso dos governos aos recursos e a execução de projetos inovadores.
No ano passado, o Fundo Verde para o Clima (Green Climate Fund – GCF) acreditou o IICA para a implementação de projetos financiados pela sua carteira creditícia, o que nos permite acessar recursos que apoiem iniciativas de adaptação e resiliência climática da agricultura e da ruralidade dos países das Américas. Também estamos avançados no processo de acreditação junto à União Europeia. Já fomos acreditados em oito pilares. Essas acreditações fortalecem as atuais e novas parcerias estratégicas, pois asseguram que o IICA é uma organização confiável e transparente para o uso de recursos financeiros e orçamentários destinados à prestação de serviços de cooperação técnica com alta qualidade e efetividade.
Para os próximos anos, nossa prioridade serão projetos e programas relacionados à inovação e bioeconomia; desenvolvimento territorial e agricultura familiar; comércio internacional e integração regional; mudanças climáticas e sustentabilidade agropecuária; sanidade, inocuidade e qualidade dos agroalimentos; digitalização agroalimentar; e equidade de gênero e juventude.
Quais eventos o IICA está programando para este ano, quando e onde serão realizados?
Gabriel Delgado – Este ano, para celebrar o aniversário de 80 anos do IICA, esta data tão importante, temos vários eventos planejados ao longo do ano, principalmente para o segundo semestre, alguns com conteúdo técnicos, discussões conjunturais e encontros comemorativos. São eventos que vão reunir autoridades do setor agropecuário, com homenagens e iniciativas culturais. Um deles é um webinário sobre diplomacia agrícola, programado para junho, que pretende analisar o cenário de dependência da América Latina e Caribe, especialmente do Brasil, a importação de fertilizantes da Rússia e de Belarus e apresentar os esforços para a mitigação dos efeitos no comércio deste insumo em cenário de guerra.
O Instituto já está preparando algum programa para celebrar o Dia Mundial da Alimentação, em 16 de outubro?
Gabriel Delgado – Tradicionalmente, aqui no Brasil, o IICA celebra o Dia Mundial da Alimentação em parceria com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), o Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola (FIDA) e o Programa Mundial de Alimentos (PMA) com os objetivos de dar visibilidade ao tema da alimentação, destacar a importância da união de todos nos esforços para garantir a segurança alimentar e nutricional, e para compartilhar com a sociedade a dinâmica e transformações dos sistemas agroalimentares
Nos últimos anos promovemos debates e fizemos projeções estratégicas no Congresso Nacional e Museu da República. Em breve teremos o planejamento para o próximo outubro, que será divulgado oportunamente, mas as iniciativas buscam sempre valorizar o acesso à alimentação saudável para todos e os produtores rurais.
Como o sr. analisa os efeitos da guerra entre a Rússia e a Ucrânia nos sistemas agroalimentares das Américas?
Gabriel Delgado – O impacto de uma guerra é sempre muito negativo. Não há vencedores, todos perdem. Guerras são sempre disruptivas e desorganizam a produção e comércio mundial, causando escassez, aumento dos preços dos alimentos e, consequentemente, a fome e a pobreza disparam, além disso cresce o número de refugiados, entre muitos outros problemas. Com relação a este conflito específico, há uma preocupação especial com a disponibilidade de fertilizantes devido à concentração do fornecimento deste produto por parte dos países envolvidos no conflito. Estamos coordenados com o MAPA para acompanhar os efeitos das mudanças neste mercado na produção brasileira.
Em março, antes de deixar o MAPA, a ex-ministra Tereza Cristina reuniu sua equipe e nossa equipe aqui na sede do IICA Brasil para uma reunião virtual com os ministros de agricultura das Américas, para tratar do assunto. Este também foi o tema da minha primeira reunião com o ministro Marcos Pontes, no início de maio, antes de ele embarcar para uma viagem à Jordânia, Egito e Marrocos para tratar de fertilizantes. Temos conversado com especialistas e consultores e a boa notícia é que o Brasil tem uma cadeia organizada e há esforços para retomar a produção nacional de fertilizantes.
Além disso, segundo a Esalq, estudos apontam que no Brasil a reutilização de subprodutos orgânicos, como estercos animais, resíduos industriais, reutilização de lodo de tratamento de esgoto, têm capacidade de colocar no mercado 14% da quantidade de fósforo utilizada na agricultura brasileira. Segundo projeções, se o Brasil utilizar bem todos os resíduos orgânicos produzidos no País, pode chegar a 20% da demanda em 2050.
Em março, o IICA lançou o Observatório de Políticas Públicas para os Sistemas Agroalimentares (OPSAa), espaço de diálogo e propostas. O objetivo é que a plataforma seja um instrumento relevante para ajudar os países a navegar neste período de incerteza e instabilidade, marcado pela confluência de várias crises. O IICA está à disposição para colaborar nos esforços para atravessarmos este período tão desafiador quanto cheio de oportunidades de superação e desenvolvimento de novas tecnologias.
Perfil – Gabriel Delgado é economista agrícola e doutor em finanças. Cursou parte de sua graduação na Purpan Higher School of Agriculture na França e participou do Programa Executivo da Singularity University em Cupertino, Califórnia. Desde 1998, é economista (atualmente licenciado) do Instituto Nacional de Tecnologia Agrícola (INTA, Argentina), onde dirigiu o Centro de Economia, Sociologia e Políticas Públicas. Foi secretário de Agricultura, Pecuária e Pesca da Nação (Argentina). Já presidiu a Associação Argentina de Economia Agrícola e publicou diversos artigos e livros na área agrícola. Professor, há aproximadamente 20 anos, em cursos de graduação e pós-graduação.




