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A relação entre o Brasil e os países árabes se tornou mais complexa e apresentou uma complementaridade evidente, na avaliação do presidente da Câmara de Comércio Árabe Brasileira, embaixador Osmar Chohfi. Em entrevista ao Diploma Business, o embaixador analisa essas sete décadas de comércio e cultura entre o Brasil e essas nações. Fala sobre as atividades que a Câmara participa este ano como a COP27, a ser realizada em novembro no Egito.
“A COP27 é uma reunião importantíssima com relação a temática da sustentabilidade e do meio ambiente, estando a Câmara envolvida nesses processos”, explica. O embaixador Osmar Chohfi destaca a copa do mundo que, “além de ser um evento esportivo, tem um aspecto sócio cultural importante com componentes na área do comércio, pois muitas empresas irão se interessar em participar de alguma forma nas atividades paralelas da copa do mundo que vai se realizar no Catar”, comenta. Veja sua entrevista completa abaixo:
A Câmara de Comércio Árabe Brasileira comemora seus 70 anos, esse ano. Que balanço o sr. faz dessas dez décadas de existência da Câmara?
Presidente da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira, embaixador Osmar Chohfi – O balanço que se pode fazer das atividades da Câmara de Comércio Árabe Brasileira nesses 70 anos é muito positivo por diferentes razões. A primeira delas é que, nesses 70 anos, a qualidade e o conteúdo da relação econômica e comercial entre o Brasil e o mundo árabe modificaram-se profundamente. É uma relação que se tornou mais complexa e que adquiriu uma complementaridade evidente.
O Brasil tornou-se um dos garantidores da segurança alimentar dos países árabes. Nossas exportações, em maioria de produtos do agronegócio, tornaram-se indispensáveis para o abastecimento alimentar de muitos países árabes, senão todos eles. Então, esse comércio é estratégico para o Brasil e para os países árabes, porque essas nações são grandes clientes da produção agroindustrial brasileira, sendo importantes, portanto, para a economia dos nossos países.
Além disso, essa relação se diversificou também no campo das exportações árabes para o Brasil, antes muito concentradas em hidrocarbonetos, mas agora incluindo também produtos industrializados e de maior valor agregado. Portanto, a relação econômica e comercial entre o Brasil e o mundo árabe é uma relação ganha-ganha, mas não somente nesse aspecto. A Câmara de Comércio Árabe Brasileira nesses 70 anos apresentou resultados muito positivos e favoráveis na relação com o mundo árabe. Nosso trabalho também tem uma vertente social e cultural importante, e a Câmara Árabe tem trabalhado muito para que os brasileiros conheçam melhor a riqueza da cultura árabe, que, secularmente, influenciou a cultura brasileira através da cultura ibérica.
Nós não podemos deixar de lembrar que muitos vocábulos da língua portuguesa têm origem na língua árabe, e esse é um elemento importante. Outro elemento importante dessa relação é que o Brasil é a casa da maior comunidade de origem árabe no mundo fora da Liga Árabe. São quase 12 milhões de brasileiros que têm pelo menos uma parcela de sangue árabe, e esse elemento humano enriquece e traz outro sentido à relação entre o Brasil e o mundo árabe. Então o que eu poderia dizer é que nesses 70 anos essa relação se enriqueceu, se diversificou, se fortaleceu em bases muito sólidas.
Quais eventos comemorativos dos 70 anos da Câmara serão feitos no segundo semestre deste ano?
Embaixador Osmar Chohfi – O ano de 2022 terá eventos importantes da Câmara Árabe em comemoração aos 70 anos da entidade. Temos eventos na área tradicional da nossa atuação, como, por exemplo, a participação em feiras e exposições no mundo árabe, referindo-me mais precisamente a “GulFood”, que se realizou no mês de fevereiro em Dubai, uma feira tradicional e uma das maiores do mundo em produtos alimentares, na qual o Brasil teve uma grande participação. A Câmara Árabe levou empresas brasileiras para essa feira e identificou oportunidades de negócios. Em maio, foi realizada a Apas Show, em São Paulo, que é uma das maiores feiras de alimentos do mundo, da área supermercadista. Nessa feira, tivemos a participação recorde de mais de 25 empresas árabes, um marco importante em 2022.
Mas, evidentemente, o evento mais importante e mais expressivo é a realização do nosso 4º Fórum Econômico Brasil-Países Árabes, este ano sob a temática “Legado e Inovação”. “Legado” é conhecimento de tudo aquilo que já fizemos nesses 70 anos e “Inovação”, porque a Câmara está envolvida em um processo de modernização e expansão de atividades. Além disso, teremos mais atividades até o final do ano que irão requerer um esforço grande da Câmara. Refiro-me, mais especificamente, à COP27, a ser realizada em novembro no Egito, reunião importantíssima com relação à temática da sustentabilidade e do meio ambiente, estando a Câmara envolvida nesses processos. E, mais adiante, a Copa do Mundo, que, além de ser um evento esportivo, também tem um aspecto sociocultural importante, com componentes na área do comércio, pois muitas empresas irão se interessar em participar de alguma forma das várias atividades paralelas da Copa do Mundo, que vai se realizar no Catar.
Fora isso, temos outras atividades como uma grande reunião na Arábia Saudita sobre o mercado halal [de produtos e serviços voltados ao consumidor muçulmano], tema importante para a Câmara de Comércio Árabe Brasileira. O halal é tudo aquilo que é permitido segundo a religião islâmica, e o componente halal no comércio de alimentos e [ou seja, o respeito às tradições do islamismo na produção do alimento], portanto, na segurança alimentar do mundo árabe, é fundamental. Nesse sentido a Câmara tem trabalhado bastante e vai continuar trabalhando, inclusive em colaboração com as grandes certificadoras halal que são nossas parceiras nesse processo, como a FAMBRAS, a CDial Halal e outras. Em suma, é um ano cheio de ações, um ano de grande atividade na Câmara de Comércio Árabe Brasileira. Completar 70 anos nos dá um incentivo para novas realizações e novas conquistas.
De 12 a 18 de setembro, será realizada uma missão de inovação nos Emirados Árabes, voltada para startups brasileiras mais maduras. O que o sr. espera dessa iniciativa?
Embaixador Osmar Chohfi – No mês de setembro, a Câmara de Comércio Árabe Brasileira, através do “LAB CCAB”, um centro de inovação tecnológica dentro da Câmara Árabe, vai organizar uma missão de startups e de empresas tecnológicas brasileiras para realizar um diálogo, eu diria, com o setor tecnológico do mundo árabe, especialmente dos Emirados Árabes Unidos, país que está na vanguarda tecnológica do mundo atualmente. A ideia é levar startups brasileiras e empresas de tecnologia para que conheçam melhor esse universo tecnológico dos Emirados Árabes Unidos, que é muito adiantado, para colher experiências e, ao mesmo tempo, apresentar nossas experiências e nossos avanços.
Não são só os Emirados que têm avanços nesse campo. Outros países árabes também têm setores tecnológicos e de inovação, com os quais temos interesse de trabalhar, como o Líbano e a Jordânia. Estive recentemente no último e verifiquei que possui um ecossistema de produção de games avançado, assim como o Brasil, existindo uma possibilidade de colaboração e intercâmbio de experiências. É um campo rico para trabalhar a relação árabe–brasileira.
De 04 a 12 de novembro, tem a feira Food Africa, no Cairo. O sr. e empresários brasileiros participarão desta feira?
Embaixador Osmar Chohfi – A Câmara com certeza terá uma participação na feira Food Africa através do nosso escritório recém-inaugurado no Cairo. Dentro do nosso processo de internacionalização, o escritório da Câmara Árabe-Brasileira no Cairo já está funcionando desde janeiro de 2022. A unidade tem a função não somente de trabalhar pelo fomento das nossas relações bilaterais com o Egito, mas de aproveitar o fato de o Egito ter uma influência econômica e comercial muito grande no contexto africano para detectarmos oportunidades, não só no próprio Egito, mas nos demais países do norte da África, da África Subsaariana e da África Oriental.
Então, através do nosso escritório no Cairo, certamente teremos uma participação na Food Africa. Temos aqui em São Paulo um bom diálogo e uma boa colaboração com a Câmara de Comércio Africana, com a AfroChamber, e é nesse contexto que também participaremos da divulgação dessa feira e trabalharemos para que haja uma participação brasileira com significado.
A Câmara Árabe inaugurou recentemente uma filial em Brasília. Com quais objetivos?
Embaixador Osmar Chohfi – A Câmara tem que trabalhar em estreita sintonia com as autoridades governamentais brasileiras que estão ligadas ao intercâmbio com o mundo árabe, mas também com as embaixadas árabes em Brasília, que são fundamentais para o nosso trabalho. Esses dois aspectos são muito importantes para a nossa presença física em Brasília. E o terceiro aspecto é, como eu tenho sempre dito, e disse no meu discurso de inauguração do escritório em Brasília, “O Centro Oeste é uma das regiões econômicas mais dinâmicas da economia brasileira hoje em dia, e já existem empresas do Centro-Oeste que fazem comércio com o mundo árabe”. Então, o fato de termos um escritório em Brasília projeta nossa atividade tanto para o Centro-Oeste quanto para o Norte do Brasil, e isso é importante para que a gente possa desenvolver e ampliar as possibilidades de intercâmbio de diferentes regiões do Brasil com o mundo árabe.
Como a Câmara Árabe trabalha o intercâmbio entre as culturas (cinema, literatura e artes plásticas) no Brasil e nos países árabes? Que eventos culturais estão sendo levados de um lado para o outro?
Embaixador Osmar Chohfi – Eu já mencionei que a Câmara de Comércio Árabe-Brasileira tem uma vertente sócio cultural importante. A cultura, o entendimento do outro e o diálogo intercultural traz possibilidades maiores de comércio e cooperação econômica. É nesse contexto que a Câmara Árabe tem uma atuação importante na área cultural, trabalhando em cooperação com diferentes entidades que também tratam da promoção da cultura árabe, como o Instituto da Cultura Árabe, aqui em São Paulo, com setores acadêmicos de universidades brasileiras dedicadas à cultura árabe. Além disso, nós copatrocinamos anualmente um festival do cinema árabe, uma iniciativa importante para que o público brasileiro saiba que há um cinema vibrante e de qualidade no mundo árabe.
Na área de artes plásticas temos feito copatrocínios. Recentemente fizemos um acordo de cooperação com o Instituto do Mundo Árabe, em Paris, um dos órgãos mais importantes mundialmente na promoção da cultura árabe. Realizamos também uma exposição de fotógrafos árabes contemporâneos no Instituto Tomie Ohtake aqui em São Paulo. Participamos ativamente das jornadas culturais de Santos, realizadas anualmente e, na área de literatura, temos colaborado com editoras brasileiras, como a editora Tábula, que tem uma vertente de promoção da edição de autores árabes na literatura e poesia.
Também ajudamos na tradução de autores árabes para o português e de autores brasileiros para o mundo árabe. Quero destacar que há muitos autores brasileiros conhecidos que são de origem árabe, por exemplo, Raduam Nassar, Milton Hatoum e outros. Muitos deles são membros da Academia Brasileira de Letras e da Academia Paulista de Letras. Então a presença desses autores brasileiros de origem árabe nesse intercâmbio é importante. Trabalhamos em diferentes frentes, tanto no âmbito da promoção da cultura árabe no Brasil, como da cultura brasileira no exterior.
Destaque para nossa participação na Expo2020 de Dubai, atividade estratégica deste ano na área sociocultural. Colaboramos muito para trazer conteúdo cultural para o Pavilhão do Brasil nesta mencionada exposição. No final da Expo2020 promovemos um evento destinado especificamente para informar sobre um estudo que fizemos sobre a imigração árabe no Brasil e sobre os aspectos sociais, socioeconômicos da comunidade árabe na vida nacional.
As mulheres árabes estão conquistando espaços na política e na área científica, por exemplo. Onde esses avanços são maiores?
Embaixador Osmar Chohfi – É importante notar aqui que precisamos evitar estereótipos com relação à condição da mulher no mundo árabe. Em primeiro lugar, é importante entender que estamos falando de diferentes civilizações e sistemas sociais. É óbvio que estamos no mundo ocidental condicionados a valores universais, mas temos que entender que outras civilizações têm suas características próprias. Precisamos entender o outro e evitar estereótipos. No mundo árabe está havendo evidentemente uma evolução do papel da mulher.
Em todos os países árabes que visitei nesses últimos anos, vi mulheres exercendo papéis importantes na área científica, tecnológica, na administração pública. São muitas mulheres que têm posições de destaque na administração pública. São ministras, diretoras de departamento, entre muitas outras funções de destaque. Há um reconhecimento crescente da capacidade da mulher no mundo árabe no sentido de que elas podem trazer uma contribuição importante para o desenvolvimento desses países.
Existem acordos comerciais entre o Mercosul e os países árabes? Em quais áreas há maior interesse em investimentos, importações e exportações? Como está hoje o comércio entre o Brasil e os países árabes? Em quais áreas são maiores e onde podem crescer?
Embaixador Osmar Chohfi – Não existem muitos acordos de livre comércio entre o Brasil e o mundo árabe. O acordo existente mais importante é o acordo entre o Mercosul e o Egito. Temos que lembrar aqui que o Brasil só negocia acordos de livre comércio no contexto do Mercosul. O acordo com o Egito tem tido resultados muito bons. O comércio se ampliou, incorporou novos produtos. O Brasil tem exportado mais produtos da sua pauta para o Egito, e este tem exportado produtos que antes não exportava para o Brasil, inclusive na área de produtos alimentares, e a desgravação tarifária desse acordo tem se mostrado importante para o crescimento e diversificação do comércio.
Estão sendo estudados acordos com outros países árabes, como a Palestina, que já está assinado, com o Líbano, com o Marrocos. Há também a possibilidade de se estabelecer um acordo com os países do Conselho de Cooperação do Golfo e com a Jordânia. Em suma, há possibilidades de assinatura de outros acordos comerciais. O Brasil tem priorizado determinados acordos. Então tem que haver uma priorização da negociação de acordos de livre comércio. Eu espero que haja um interesse maior do governo brasileiro na assinatura de mais acordos, pois certamente eles terão um impacto muito positivo no intercâmbio comercial do Brasil com o resto do mundo. Outra mensagem que gostaria de ressaltar é a importância da diversificação das exportações dos dois lados.
Temos a possibilidade de fomentar a exportação de produtos brasileiros competitivos no contexto do comércio com os países árabes e com outros países do mundo. Há a possibilidade de adquirir dos países árabes determinados produtos compatíveis com a demanda brasileira. É um esforço que temos de fazer. Eu diria que, do lado do Brasil, há oportunidades para exportar material médico-hospitalar, fármacos, cosméticos, produtos alimentícios processados, máquinas, equipamentos, material para a construção civil, tendo em vista os muitos projetos de infraestrutura e construção no mundo árabe.
E do lado das exportações do mundo árabe, nós poderíamos trabalhar para viabilizar a vinda de determinados produtos alimentares e determinadas especialidades industriais. Recentemente visitei o Marrocos e verifiquei que, no campo industrial, o país é um grande produtor de cabos elétricos, inclusive, uma grande empresa marroquina desse setor tem uma fábrica no Brasil. Em suma, trata-se de ser criativo e identificar nas pautas de exportações árabes e brasileiras aquilo que pode levar a uma diversificação e um aumento do comércio.




