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“Duas grandes nações em desenvolvimento, a China e o Brasil são também economias emergentes de relevância e parceiros do BRICS”, destacou o Ministro da embaixada da China no Brasil, Jin Hongjun. Ele já foi embaixador do seu país em Guiné-Bissau, sendo fluente em português.
Em entrevista ao Diplomacia Business, ele analisou as relações bilaterais, enfocando a aproximação dos países no combate à pandemia de Covid-19. Destacou ainda como seu país eliminou a pobreza extrema e como essa conquista pode auxiliar outras nações.
A China já é o maior parceiro comercial do Brasil, mesmo assim, o diplomata diz que há chances para crescimento. “Podemos alinhar as estratégias de desenvolvimento, otimizar a pauta comercial e expandir a cooperação em setores como economia verde, agricultura inteligente, informação e telecomunicação, além de manufatura avançada”, ressaltou.
O ministro falou ainda sobre as expectativas e os preparativos das Olimpíadas de Inverno 2022, que têm início dia 2 de fevereiro na capital Beijing.
Confira na íntegra:
Diplomacia Business: A China será a sede das Olimpíadas de Inverno Beijing 2022 em fevereiro e, na sequência, os Jogos Paralímpicos de Inverno. Qual a expectativa para o evento?
Ministro Jin Hongjun: Já está tudo pronto para inaugurar, daqui a alguns dias, as Olimpíadas de Inverno de Beijing 2022. Trata-se de um evento que reúne os melhores atletas de esportes de gelo e neve do mundo inteiro, e tem seu valor especial nas circunstâncias de uma pandemia. Em julho do ano passado, o Comitê Olímpico Internacional decidiu acrescentar “Together” ao lema olímpico “Faster, Higher, Stronger”. Esperamos que Beijing 2022 seja um evento de grande união mundial e espírito esportivo, capaz de trazer confiança e força a um mundo atormentado pela pandemia.
Diante da ameaça da COVID, especialmente da variante ômicron, o Comitê Organizador de Olimpíadas de Inverno de Beijing 2022 considera prioritário o controle da pandemia e, para tanto, já está tomando providências meticulosas. As medidas sanitárias foram avaliadas em uma série de eventos-teste. A China está confiante e será capaz de oferecer um ambiente de competição saudável e seguro aos atletas olímpicos. Além de ser um evento seguro, vale mencionar que Beijing 2022 também será um evento verde: 100% da energia elétrica consumida nos jogos virá de fontes renováveis, e a emissão de gases de efeito estufa chegará a quase zero, ambos feitos inéditos na história olímpica.
Tanto a China como o Brasil são potências esportivas. Atletas brasileiros estão na reta final nos preparativos para Beijing 2022. De Brasília, estamos também torcendo para que esses jovens brasileiros mostrem o melhor de si nas arenas de Beijing e realizem seus sonhos.
Sr. Ministro, como o senhor vê as relações bilaterais num momento onde a pandemia aproximou muito o Brasil da China no combate à pandemia?
Duas grandes nações em desenvolvimento, a China e o Brasil são também economias emergentes de relevância e parceiros do BRICS. Entre nossos países há tanta convergência de interesses na política internacional e na cooperação pragmática que somos inseparáveis como parceiros estratégicos globais. Se a pandemia fosse um espelho, ela refletiria a importância especial da nossa cooperação bilateral. A pandemia do século impactou todos os países de forma profunda, e a única saída reside na união e na cooperação de todos.
Quando o Brasil vivia o auge dos contágios, a China superou dificuldades de toda espécie e foi o primeiro a fornecer vacinas ao Brasil, além dos IFAs. Fizemos isso não só porque o Brasil é um parceiro importante, mas também porque sabemos que um desafio global requer respostas conjuntas. Com uma frágil recuperação da economia mundial, a cooperação econômica e comercial China-Brasil se faz ainda mais necessária para sustentar o crescimento dos nossos dois países. O comércio bilateral cresceu 32% em 2021 e bateu um novo recorde histórico. Trata-se de uma conquista raramente vista em circunstâncias normais e, portanto, ainda mais valiosa em plena recessão. Uma conquista como essa contribui para estabilizar a economia, preservar empregos e gerar receita tributária para o Brasil.
É claro que o cenário mundial tumultuado durante a pandemia gerou novos desafios para as relações sino-brasileiras. No entanto, quero salientar que a China tem uma política estável e de longo prazo para aprofundar as relações com o Brasil, país que é e será uma das prioridades da nossa diplomacia na América Latina e mesmo no mundo inteiro. A China quer unir forças com o Brasil para fortalecer a confiança mútua e expandir a cooperação, com o objetivo fundamental de alcançar o progresso comum. Gostaríamos também de ver atores de diferentes setores da sociedade brasileira estudando a China, pensando as relações bilaterais e apresentando propostas construtivas.
Desde 2009 a China é o maior parceiro comercial do Brasil. A cada ano novas empresas chinesas abrem filiais por aqui, qual a projeção para o futuro próximo, em especial com o avanço da Iniciativa Cinturão e Rota na América do Sul?
Em 2021, o comércio bilateral superou a marca de US$ 130 bilhões. A China absorveu um terço das exportações brasileiras e respondeu por dois terços do superávit comercial brasileiro. Enquanto isso, os investimentos chineses no Brasil já totalizam quase US$ 100 bilhões e vários projetos de energia, infraestrutura e produção industrial estão avançando a pleno vapor.
O crescimento da parceria nessa vertente se deve fundamentalmente à alta complementaridade das duas economias, sendo o mercado a principal força motriz. A China e o Brasil estão entre as principais economias emergentes em termos de volume econômico e de perspectiva de desenvolvimento. As vantagens comparativas da estrutura econômica dos dois países geram enorme margem para o engajamento entre os dois mercados e os setores industriais. Essa parceria atende às demandas de cada lado e traz benefício para ambos, contribuindo, assim para o desenvolvimento dos dois países.
Esperamos trabalhar com os brasileiros a fim de criar um ambiente favorável para preservar e promover a parceria bilateral em todos os campos. Podemos alinhar as estratégias de desenvolvimento, otimizar a pauta comercial e expandir a cooperação em setores como economia verde, agricultura inteligente, informação e telecomunicação, manufatura avançada, dando mais fôlego à retomada econômica e ao desenvolvimento sustentável em ambos os países no pós-pandemia. Além disso, o Brasil não pode deixar de aproveitar as oportunidades de parceria com a China, viabilizadas pela plataforma “Cinturão e Rota”.
No final de 2020, a China anunciou que havia acabado com a pobreza extrema. Como o Brasil e outros países que ainda lidam com isso podem se beneficiar da experiência chinesa?
A China, com 1,4 bilhão de habitantes, sofreu por muito tempo com a pobreza. Desde 2012, a China travou uma batalha decisiva contra esse flagelo. Com isso, quase 100 milhões de chineses saíram da pobreza, cumprimos a árdua missão de erradicar a miséria absoluta e o país alcançou, com 10 anos de antecedência, um dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável da ONU para 2030. Pelos padrões do Banco Mundial, a China responde por mais de 70% da redução da pobreza do mundo, em termos populacionais.
Todos os governos do mundo trabalham em busca da equidade social e do desenvolvimento equilibrado. Nessa frente, a China conseguiu avanços históricos, e continua determinada a alcançar maiores conquistas. Vamos compartilhar sem reservas a nossa experiência na redução da pobreza com países que a desejarem e, ao mesmo tempo, queremos tirar inspirações com as práticas bem-sucedidas do Brasil e de outros países. Sempre acreditamos que o desenvolvimento da China cria mais oportunidades para o mundo, e que a prosperidade comum do mundo propicia à China progressos ainda maiores. O desenvolvimento é nossa missão comum, mas essa missão só será cumprida unindo o conhecimento e a sabedoria de todos.




