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Em um cenário internacional marcado por transformações geopolíticas, reorganização das cadeias globais de produção e busca por novas rotas comerciais, Brasil e Cazaquistão encontram-se diante de uma oportunidade estratégica para ampliar e diversificar suas relações.
Embora separados por milhares de quilômetros, os dois países apresentam complementaridades importantes em áreas como agronegócio, fertilizantes, mineração, energia, tecnologia, aviação, infraestrutura e turismo. O desafio, segundo o embaixador do Brasil no Cazaquistão, Marcel Fortuna Biato, é transformar esse potencial em projetos concretos e superar o ainda elevado desconhecimento recíproco.
À frente da representação diplomática brasileira em Astana, o embaixador também responde cumulativamente pelas representações do Brasil no Quirguistão e no Turcomenistão. Em entrevista exclusiva ao portal Diplomacia Business, ele analisa os principais desafios e oportunidades da relação bilateral e destaca a importância de ampliar o diálogo político, econômico, empresarial e cultural.
Para Biato, o Cazaquistão deve ser compreendido não apenas como um mercado de cerca de 20 milhões de habitantes, mas como uma plataforma estratégica para a Ásia Central, situada entre grandes mercados como China, Rússia, Índia e Europa.
Na avaliação do diplomata, o agronegócio poderá ser um dos principais vetores dessa aproximação, especialmente diante da necessidade brasileira de diversificar fontes de fertilizantes e insumos agrícolas. Ao mesmo tempo, o Cazaquistão busca ampliar sua produção agrícola, atrair investimentos, desenvolver infraestrutura e fortalecer sua posição como corredor logístico entre Oriente e Ocidente.
A entrevista também aborda a presença de empresas brasileiras no país, oportunidades em inteligência artificial, energia nuclear, mineração e aviação, além do potencial turístico da Ásia Central e da importância da cultura e do esporte como instrumentos de aproximação entre as sociedades.
Biato também chama atenção para a complexidade geoestratégica do Cazaquistão, que precisa equilibrar relações com Rússia, China e outros países da região, ao mesmo tempo em que busca ampliar sua autonomia e diversificar seus parceiros internacionais.
Para o embaixador, o Brasil pode ocupar um espaço relevante nesse processo, oferecendo tecnologia, conhecimento, investimentos e experiência empresarial, enquanto aproveita a posição estratégica do Cazaquistão para ampliar sua presença na Ásia Central.
Confira a entrevista:
Diplomacia Business — Quais são, hoje, as principais prioridades da Embaixada do Brasil para fortalecer as relações bilaterais entre Brasil e Cazaquistão?
Marcel Fortuna Biato — Hoje, uma das principais prioridades da Embaixada do Brasil no Cazaquistão é reduzir o desconhecimento recíproco entre os dois países e transformar as afinidades existentes em projetos concretos de cooperação.
Embora o Brasil mantenha uma Embaixada no Cazaquistão há quase 20 anos, ainda existe uma distância significativa, não apenas geográfica, mas também em termos de conhecimento mútuo. Por isso, entendemos que é necessário ampliar a presença e a visibilidade do Brasil no país e, ao mesmo tempo, aproximar os cazaques da realidade brasileira.
Nesse sentido, identificamos algumas áreas prioritárias.
A primeira é a cultura e o esporte. São linguagens universais, capazes de superar barreiras culturais e aproximar as sociedades. Existe uma afinidade natural entre Brasil e Cazaquistão em modalidades como jiu-jitsu, boxe, luta olímpica, e artes marciais. Também há espaço para ampliar a cooperação no esporte paralímpico, área em que o Brasil possui ampla experiência.
Na cultura, queremos fortalecer a presença brasileira por meio da música, dança, capoeira, balé, artes visuais e ensino da língua portuguesa. Já existem artistas cazaques que trabalham com música brasileira, além de bailarinos brasileiros atuando no Balé de Astana. Estamos também trabalhando para criar uma Casa do Brasil em uma universidade cazaque, voltada à promoção da língua portuguesa e da cultura brasileira.
A segunda prioridade é ampliar o diálogo político e diplomático. Queremos recuperar uma agenda de maior visibilidade entre os dois países, com a retomada de visitas de alto nível, consultas políticas e contatos regulares entre os governos. Acreditamos que um maior engajamento político cria as condições para que a própria máquina burocrática avance mais rapidamente em áreas de interesse comum.
A terceira prioridade é ampliar o comércio, os investimentos e a cooperação econômica. O Cazaquistão é um país estratégico na Ásia Central e possui uma posição geográfica privilegiada entre grandes mercados, especialmente China, Rússia, Índia e os demais países da região.
Nesse contexto, queremos estimular a presença de empresas brasileiras no Cazaquistão, sobretudo em setores nos quais o Brasil possui vantagens competitivas e tecnologia reconhecida internacionalmente.
A agricultura e o agronegócio são áreas de grande potencial. O Cazaquistão possui grandes extensões de terras agricultáveis, planas e mecanizáveis, e há oportunidades importantes para cooperação em produção agrícola, soja, pecuária, genética animal, desenvolvimento de pastagens, máquinas agrícolas e tecnologia.
Queremos aproximar instituições como a Embrapa, universidades, empresas brasileiras e instituições cazaques de pesquisa para desenvolver projetos conjuntos, inclusive na adaptação genética de animais às condições climáticas locais.
Também estamos trabalhando para estimular a instalação e a montagem local de máquinas e equipamentos agrícolas brasileiros. A ideia não é apenas exportar produtos, mas criar cadeias de produção e transferência de tecnologia no próprio Cazaquistão, permitindo que as empresas brasileiras utilizem o país como plataforma para acessar outros mercados da Ásia Central.
Outra área prioritária é mineração e energia. O Cazaquistão possui importantes reservas de urânio, petróleo e outros recursos minerais, enquanto o Brasil possui empresas e conhecimento tecnológico que podem contribuir para projetos de exploração, desenvolvimento de minas e novas tecnologias, inclusive no setor nuclear.
A aviação e a conectividade regional também oferecem oportunidades importantes. O Cazaquistão pretende ampliar o papel de Astana e Almaty como hubs regionais, conectando a Ásia Central a mercados da Europa, Ásia e Oriente Médio. Nesse contexto, empresas brasileiras como a Embraer podem encontrar oportunidades, tanto no mercado cazaque quanto nos demais países da Ásia Central.
Além disso, consideramos importante analisar o mercado regional como um todo. O Cazaquistão não deve ser visto apenas como um mercado de 20 milhões de habitantes, mas como uma porta de entrada para uma região muito maior.
Por fim, tecnologia, cidades inteligentes e inteligência artificial também estão entre as áreas de interesse. Já existem empresas cazaques atuando no Brasil, inclusive em soluções de mobilidade urbana, e há potencial para ampliar a cooperação em segurança urbana, gestão de trânsito, cidades inteligentes e tecnologia.
Em síntese, nossa prioridade é transformar a relação entre Brasil e Cazaquistão em uma parceria mais estratégica, diversificada e de longo prazo, baseada não apenas no comércio tradicional, mas também em investimentos, tecnologia, inovação, cultura, esporte, educação e transferência de conhecimento.
O objetivo é encontrar os nichos em que Brasil e Cazaquistão sejam verdadeiramente complementares e, a partir deles, construir uma relação em que os dois países possam gerar valor conjuntamente, inclusive utilizando o Cazaquistão como plataforma de acesso aos mercados da Ásia Central.
Diplomacia Business — Em quais setores o senhor identifica as maiores oportunidades para ampliar o comércio e os investimentos entre os dois países?
Marcel Fortuna Biato — Eu identifico oportunidades importantes em diversos setores, mas destacaria, principalmente, fertilizantes e insumos agrícolas, agronegócio, mineração e energia, infraestrutura e logística, máquinas e equipamentos, aviação, tecnologia e investimentos produtivos.
Um dos temas mais importantes, inclusive pela sua dimensão estratégica, é o de fertilizantes. O Brasil depende fortemente de importações para atender à sua demanda interna, o que representa um problema relevante, especialmente diante das atuais crises logísticas e geopolíticas.
Hoje enfrentamos uma possível tendência de desglobalização e de desacoplamento de determinadas cadeias produtivas em relação à China. Existe uma disputa geopolítica que envolve terras raras, tecnologias avançadas e determinados produtos estratégicos e digitalizados. Isso pode provocar rupturas ou reorganizações nas cadeias internacionais de produção e afetar diretamente o Brasil.
Ao mesmo tempo, temos crises políticas que podem provocar interrupções físicas nas principais rotas marítimas internacionais. O Estreito de Ormuz e a situação do Mar Negro, em razão da guerra na Ucrânia, são exemplos importantes.
Esses problemas afetam diretamente o comércio brasileiro com o Cazaquistão.
Historicamente, uma das rotas utilizadas para o transporte de produtos entre o Brasil e esta região passa pelo Báltico. É uma alternativa relativamente eficiente porque, a partir dos portos do norte da Europa, a carga pode seguir por ferrovia até o Cazaquistão.
A alternativa é utilizar a rota pelo Mediterrâneo, passando pelos estreitos de Bósforo e Dardanelos, pelo Mar Negro e pela Geórgia. É uma rota mais complexa e, diante da atual situação geopolítica, apresenta dificuldades adicionais.
Temos ainda o problema do Estreito de Ormuz, porque ele afeta outra importante cadeia logística internacional, que envolve o Golfo Pérsico, o Mar Vermelho, o Canal de Suez, o Mediterrâneo e o Mar Negro.
O resultado de tudo isso é o aumento do custo do transporte e, consequentemente, dos fertilizantes.
Portanto, uma das grandes oportunidades que identificamos é desenvolver uma relação mais estruturada entre Brasil e Cazaquistão na área de fertilizantes e insumos agrícolas, inclusive por meio de contratos de longo prazo, investimentos e eventualmente produção ou processamento local.
Outro grande desafio, e ao mesmo tempo uma oportunidade de investimento, é a infraestrutura logística.
Precisamos acompanhar de perto quais alternativas o Cazaquistão e os países da região estão desenvolvendo para diversificar suas rotas de escoamento e reduzir a dependência de determinados corredores.
Essa é uma questão particularmente complexa porque o Cazaquistão está inserido em uma região geograficamente e geopoliticamente muito sensível.
Ao seu redor estão Rússia, China, os demais países da Ásia Central, o Cáspio e, mais ao sul, países como Afeganistão e Irã.
Por isso, investir em grandes projetos de infraestrutura e corredores logísticos exige uma avaliação muito cuidadosa dos riscos geopolíticos.
Ao mesmo tempo, é justamente essa situação que cria oportunidades.
O Cazaquistão busca diversificar suas rotas de comércio e ampliar suas conexões com diferentes mercados. O Brasil pode contribuir com conhecimento, tecnologia, empresas e experiência em infraestrutura, logística, agricultura e gestão de grandes cadeias produtivas.
Outra área fundamental é o agronegócio.
O Cazaquistão possui grandes extensões de terras agricultáveis e condições para desenvolver uma produção agrícola em grande escala.
Existe espaço para cooperação não apenas na produção de commodities, mas também em genética animal, sementes, máquinas agrícolas, irrigação, tecnologia de produção, processamento de alimentos e armazenamento.
O objetivo deveria ser ir além da simples exportação de produtos brasileiros. Precisamos estimular investimentos produtivos, parcerias entre empresas, transferência de tecnologia e, quando houver viabilidade econômica, a instalação de empresas brasileiras no Cazaquistão.
Isso permitiria ao país desenvolver sua própria capacidade produtiva e, ao mesmo tempo, permitiria às empresas brasileiras utilizar o Cazaquistão como uma plataforma para acessar outros mercados da Ásia Central.
Também vejo oportunidades importantes em mineração e energia.
O Cazaquistão possui recursos naturais estratégicos, incluindo urânio, petróleo e outros minerais, enquanto o Brasil possui empresas, tecnologia e experiência em exploração mineral e energética.
Existe potencial para desenvolver projetos conjuntos, tanto na exploração quanto no processamento e na agregação de valor aos recursos naturais.
Na área de inovação tecnológica, vejo oportunidades principalmente em inteligência artificial, cidades inteligentes, mobilidade urbana, tecnologia agrícola e gestão de recursos naturais.
Portanto, existem oportunidades em muitas áreas: mineração, energia, fertilizantes, agronegócio, tecnologia, inteligência artificial, aviação, infraestrutura e indústria.
Mas é importante reconhecer que essa agenda ainda está em construção. O próximo passo é transformar essas oportunidades em projetos concretos.
Diplomacia Business — Como o Brasil e o Cazaquistão podem ampliar a cooperação em áreas estratégicas como energia, agronegócio e inovação tecnológica?
Marcel Fortuna Biato — O nível atual de comércio e investimento entre Brasil e Cazaquistão ainda está muito abaixo do potencial dos dois países. Esse é o ponto de partida.
Atualmente, o comércio bilateral está na faixa de US$ 300 milhões a US$ 400 milhões por ano, um volume bastante reduzido considerando o tamanho e a complementaridade das duas economias.
Na área de investimentos, já existem alguns exemplos de presença empresarial brasileira e cazaque.
Do lado brasileiro, já temos empresas presentes no Cazaquistão. A WEG, por exemplo, possui uma operação de montagem no país. Como o mercado local ainda é relativamente pequeno, a empresa traz componentes de suas unidades produtivas — atualmente principalmente da China — e realiza a montagem local, distribuindo os equipamentos também para outros mercados da região.
A Embraer também possui presença no mercado cazaque. Já teve uma participação maior, mas existe interesse em ampliar novamente sua presença. Há aeronaves executivas brasileiras operando no país e também oportunidades relacionadas à família E-Jets, como o E190.
Existem ainda empresas brasileiras atuando em setores específicos, como mineração e soluções para o tratamento e gerenciamento de recursos hídricos.
Na área de serviços e alimentação, também começam a surgir iniciativas interessantes, como cafeterias brasileiras em Almaty, com possibilidade de expansão para Astana.
Sou particularmente otimista em relação ao potencial de investimentos caso a agenda de cooperação agrícola avance.
O agronegócio não se limita à produção agrícola. Existe toda uma cadeia agroindustrial associada, que envolve sementes, genética animal, fertilizantes, máquinas e equipamentos, processamento, armazenamento, logística, tecnologia e distribuição.
Existe também uma oportunidade interessante relacionada aos fertilizantes. O Cazaquistão está investindo no aumento da sua produção e possui recursos minerais importantes para esse setor. Nesse contexto, pode haver espaço para parcerias com empresas brasileiras interessadas na exploração e no processamento de minerais utilizados na produção de fertilizantes.
Na área de energia, especialmente no setor nuclear, também existem oportunidades relevantes. O Cazaquistão é um dos grandes produtores mundiais de urânio, enquanto o Brasil possui reservas e projetos de exploração de urânio, especialmente na região de Caetité, na Bahia.
Uma possibilidade seria desenvolver parcerias que envolvessem investimentos cazaques em projetos de mineração e energia no Brasil, ao mesmo tempo em que empresas brasileiras poderiam participar de projetos relacionados à exploração mineral e ao desenvolvimento de tecnologias no Cazaquistão.
Na área de inovação tecnológica, vejo oportunidades principalmente em inteligência artificial, cidades inteligentes, mobilidade urbana, tecnologia agrícola e gestão de recursos naturais.
Podemos estimular parcerias entre empresas, universidades, centros de pesquisa e governos, criando projetos conjuntos e permitindo que as soluções desenvolvidas em um país sejam adaptadas e aplicadas no outro.
Sou otimista. Acredito que Brasil e Cazaquistão têm uma relação econômica ainda muito pequena diante do que poderiam construir juntos.
Há potencial real para uma nova etapa, baseada não apenas na compra e venda de produtos, mas principalmente em investimentos, produção local, transferência de tecnologia, inovação e construção de cadeias produtivas integradas.
Diplomacia Business — Qual mensagem o senhor deixaria para empresários brasileiros e cazaques interessados em desenvolver parcerias e novos negócios entre os dois países?
Marcel Fortuna Biato — A primeira mensagem é muito simples: venham conhecer o Cazaquistão.
Nós temos incentivado empresários brasileiros a virem para cá e estamos trabalhando para fortalecer uma Câmara de Comércio ainda em estágio inicial, mas que queremos fazer avançar.
Quando o ministro das Relações Exteriores do Brasil Mauro Vieira, esteve aqui, organizamos uma mesa-redonda com empresários de diferentes setores, incluindo representantes da Petrobras, da Embraer, do setor de carnes e do agronegócio. O objetivo foi justamente estimular o diálogo e identificar oportunidades concretas de negócios.
Acredito que Brasil e Cazaquistão têm muito em comum, apesar da distância geográfica.
O Cazaquistão possui uma localização estratégica. Uma parcela muito significativa do comércio terrestre entre a China e a Europa passa pelo território cazaque. Portanto, para um empresário brasileiro interessado em internacionalizar sua empresa e continuar atendendo mercados como China, Rússia, Índia e outros países da Ásia Central, o Cazaquistão pode ser uma plataforma muito interessante.
Para empresários do setor agrícola, esse potencial é ainda maior.
Vejo o Cazaquistão como uma possível nova fronteira agrícola e agroindustrial, não apenas para a produção, mas também para máquinas, equipamentos, tecnologia, genética, processamento e logística.
Outro aspecto importante é o ambiente de negócios. De maneira geral, o governo cazaque tem uma postura bastante favorável à atração de investimentos e empresas estrangeiras. Existem incentivos e políticas de apoio em setores considerados prioritários.
A agricultura e a inteligência artificial estão entre as áreas que recebem atenção especial das autoridades cazaques.
Por isso, a mensagem para o empresário brasileiro é: tenha disposição para conhecer o mercado, identificar parceiros locais e avaliar as oportunidades com uma perspectiva de médio e longo prazo.
Também considero importante associar essas iniciativas empresariais a uma agenda política de alto nível. Missões oficiais, especialmente aquelas organizadas em conjunto com ministérios e que tragam empresários, podem facilitar muito a abertura de portas e a construção de parcerias.
É importante compreender que a localização do Cazaquistão é, ao mesmo tempo, uma vantagem e um desafio.
A distância em relação ao Brasil é um obstáculo logístico, mas a localização do Cazaquistão entre China, Rússia e os demais países da Ásia Central é uma enorme vantagem para quem pretende internacionalizar uma empresa.
Um empresário brasileiro que esteja planejando uma missão à China, à Índia ou à Rússia poderia considerar a possibilidade de incluir o Cazaquistão no roteiro.
Por fim, existe um ativo importante que não devemos subestimar: a imagem do Brasil no Cazaquistão é muito positiva.
Os cazaques não querem depender exclusivamente de seus vizinhos imediatos. Eles procuram diversificar suas relações econômicas, comerciais, tecnológicas e diplomáticas.
À medida que conheçam melhor o potencial tecnológico e empresarial brasileiro nas áreas que são prioritárias para o Cazaquistão, acredito que existe uma combinação muito interessante de interesses.
Portanto, minha mensagem aos empresários brasileiros e cazaques é: interessem-se, venham conhecer, conversem com potenciais parceiros e estejam dispostos a olhar para essa relação com uma perspectiva de longo prazo.
O Cazaquistão ainda é pouco conhecido pelos empresários brasileiros, e o Brasil ainda é pouco conhecido pelos empresários cazaques. Justamente por isso, existe um espaço enorme para construir novas relações.
Diplomacia Business — Diante da distância geográfica, quais ações práticas têm sido promovidas para aproximar as sociedades brasileira e cazaque, facilitando o turismo, a mobilidade de cidadãos e a difusão da cultura brasileira no país?
Marcel Fortuna Biato — A distância geográfica entre Brasil e Cazaquistão é, evidentemente, um dos principais obstáculos à aproximação entre os dois países. As viagens são longas e caras. Por isso, precisamos trabalhar não apenas para facilitar a mobilidade, mas também para criar motivos concretos para que brasileiros e cazaques tenham interesse em conhecer os respectivos países.
No caso do turismo, existe um fenômeno internacional que pode favorecer bastante essa aproximação: o crescente interesse pela Rota da Seda e pela Ásia Central.
A Rota da Seda faz parte de uma história muito antiga de conexão entre povos, culturas e economias. Durante séculos, ela ligou a China, a Ásia Central, o Oriente Médio e a Europa, permitindo não apenas o comércio de mercadorias, mas também a circulação de conhecimentos, tecnologias, religiões, costumes e manifestações culturais.
Grande parte dessa história ainda é pouco conhecida pelos brasileiros.
Cidades como Samarkand, por exemplo, foram importantes centros de comércio, conhecimento e cultura muito antes de muitas das grandes cidades europeias e brasileiras existirem. Esse patrimônio histórico pode ser um elemento poderoso para despertar a curiosidade dos brasileiros e estimular o turismo na região.
Acredito, portanto, que existe um potencial muito grande para desenvolver o turismo brasileiro no Cazaquistão e, de maneira mais ampla, na Ásia Central.
O Cazaquistão oferece uma combinação interessante de história, cultura, paisagens naturais, esportes e experiências ligadas à cultura nômade.
É possível conhecer as tradições nômades, hospedar-se em uma yurta, experimentar a culinária local, conhecer museus, sítios históricos e paisagens naturais. O país possui regiões de montanha, estações de esqui, grandes lagos, cânions e paisagens que podem lembrar, em alguns lugares, o oeste dos Estados Unidos.
Outro aspecto importante é que o Cazaquistão não precisa necessariamente ser vendido como um destino isolado.
A localização geográfica permite combinar a visita ao país com outros destinos. Por exemplo, é possível viajar de Istambul para Astana em aproximadamente quatro horas e meia e, de Astana ou Almaty, seguir para diferentes cidades da Ásia.
Isso cria uma oportunidade interessante para o turista brasileiro que já pretende viajar para a Ásia.
Ainda não existe uma política brasileira de promoção turística no Cazaquistão com a dimensão e a estrutura que considero necessárias.
Já existem turistas brasileiros que vêm para cá, mas, em grande parte, essas viagens são organizadas individualmente ou por iniciativa própria.
Acredito que exista espaço para uma estratégia mais estruturada de promoção turística, envolvendo o setor público, companhias aéreas, agências de viagens, operadores turísticos e empresas privadas.
Precisamos identificar quem é o brasileiro que viaja para a Ásia, para onde ele vai, o que procura e quais argumentos poderiam convencê-lo a incluir o Cazaquistão e outros países da Ásia Central em seu roteiro.
O mesmo vale para o mercado cazaque.
O Brasil possui destinos extremamente atrativos, como Rio de Janeiro, Foz do Iguaçu, Amazônia e Nordeste, mas precisamos apresentar esses destinos de maneira adequada ao público cazaque.
Não basta dizer que o Brasil tem praias. Precisamos mostrar aquilo que diferencia o país: nossa natureza, diversidade cultural, gastronomia, música, futebol, carnaval, biodiversidade e experiências de aventura.
A cultura também é fundamental para criar essa curiosidade.
Já temos aqui jogadores brasileiros, professores de jiu-jitsu, grupos de capoeira e artistas que trabalham com música brasileira.
Essas pessoas funcionam como verdadeiros pontos de contato entre as duas sociedades.
Portanto, acredito que o principal desafio seja transformar a curiosidade em uma estratégia organizada de promoção turística e cultural.
A distância continuará existindo. O que precisamos fazer é transformar a distância em parte da experiência, e não apenas em um obstáculo.
Se conseguirmos despertar a curiosidade das pessoas, apresentar a história da Rota da Seda, mostrar a cultura nômade, divulgar as belezas naturais da região e integrar o Cazaquistão a roteiros maiores pela Ásia, acredito que o turismo entre os dois países poderá crescer significativamente.
No fundo, a primeira etapa é fazer com que brasileiros e cazaques descubram que existe muito mais em comum entre as duas sociedades do que a distância geográfica faz parecer.
Diplomacia Business — O Cazaquistão exerce um papel fundamental de liderança na Ásia Central. De que maneira a representação diplomática brasileira busca fortalecer o diálogo geopolítico com Astana em fóruns multilaterais e na agenda de transição energética?
Marcel Fortuna Biato — Acredito que, com vontade, conexões e uma estratégia adequada, é possível encontrar nichos importantes de aproximação entre o Brasil e o Cazaquistão.
O desconhecimento entre as duas sociedades é, ao mesmo tempo, uma desvantagem e uma oportunidade. É uma desvantagem porque dificulta a aproximação, mas também pode ser uma vantagem, porque estamos apresentando aos brasileiros um mundo praticamente novo.
Há cada vez mais pessoas que buscam novos destinos e experiências. E é aí que entram as conexões transculturais e históricas.
A história da Ásia Central está profundamente ligada à formação de diferentes civilizações. Personagens históricos como Genghis Khan, por exemplo, tiveram um impacto enorme sobre as sociedades e culturas da região. Conhecer essa história ajuda a compreender melhor o próprio mundo em que vivemos.
Por isso, acredito que seja importante criar essas conexões históricas e culturais como forma de despertar interesse e curiosidade.
Esse processo também contribui para aproximar as sociedades e, consequentemente, criar condições para um diálogo mais amplo entre os países.
A Turquia é um bom exemplo. Istambul já recebe um número expressivo de brasileiros e pode funcionar como uma porta de entrada para a Ásia Central.
A partir de Istambul, é possível chegar facilmente a países como Cazaquistão e Uzbequistão. E existe um enorme patrimônio histórico a ser descoberto.
Eu mesmo tenho vontade de conhecer melhor o Uzbequistão, especialmente cidades como Samarkand e Bukhara, que foram importantes centros históricos da região.
Portanto, acredito que precisamos trabalhar mais essas conexões. O conhecimento gera curiosidade; a curiosidade gera interesse; e o interesse cria oportunidades de aproximação entre as sociedades.
No caso do Brasil e do Cazaquistão, ainda estamos no início desse processo. Existe um enorme espaço para construir pontes — não apenas no turismo e na cultura, mas também no comércio, nos investimentos, na educação, na ciência, na tecnologia e, naturalmente, no diálogo diplomático.
O primeiro passo é fazer com que os brasileiros conheçam melhor o Cazaquistão e que os cazaques conheçam melhor o Brasil. A partir desse conhecimento, podemos ampliar e aprofundar a relação bilateral em diferentes áreas.
*É permitida a reprodução, desde que citada a fonte.


