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O início da exploração espacial e da ocupação humana em locais tão distantes do nosso planeta, o lixo espacial não parecia um problema tão grande. Hoje, 60 anos e mais de 6 mil lançamentos depois, o acúmulo de satélites desativados, partes de foguetes e milhares de fragmentos circulando ao redor da Terra já influencia diretamente a forma como novas missões espaciais são planejadas, desde o desenvolvimento até o encerramento da vida útil dos equipamentos.
Conhecidos internacionalmente por engenheiros e técnicos como space debris, a quantidade de objetos cresceu continuamente desde o início da exploração espacial, na década de 1960. A tecnologista da Agência Espacial Brasileira (AEB) Priscilla Andressa de Sousa Silva explica o problema:
“No início da exploração espacial não existia essa preocupação com o descarte dos objetos ao final da missão. Então, tudo o que foi colocado em órbita desde a década de 1960 permaneceu lá. Muitos desses objetos demoram para perder altitude e reentrar naturalmente na atmosfera. E isso gera outro problema: quando a volta é sem controle, existe a possibilidade de causar acidentes.” A agência é uma autarquia vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).
Segundo a Nasa, atualmente existem 33.098 objetos catalogados na órbita da Terra, entre espaçonaves, corpos de foguetes e detritos identificados. Mas estimativas da Agência Espacial Europeia (ESA), porém, apontam que a população real pode ser muito maior: cerca de 500 mil fragmentos entre 1 e 10 centímetros e mais de 100 milhões de partículas maiores que 1 milímetro, pequenas demais para serem rastreadas individualmente, mas capazes de danificar satélites devido às altas velocidades orbitais.
Satélites já são projetados para o descarte
O crescimento da quantidade de detritos levou a uma mudança na engenharia espacial. Se antes o foco estava apenas no desenvolvimento e na operação dos satélites, hoje o planejamento já considera todas as etapas da missão, incluindo o descarte seguro ao final da vida útil.
O pesquisador da Divisão de Pós-Graduação do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) Antonio Bertachini explica que uma das principais recomendações internacionais é retirar os satélites da órbita o mais rapidamente possível depois que deixam de operar. A entidade é uma unidade de pesquisa do MCTI.
“Os satélites passaram a ser projetados para terem meios de sair da órbita quando termina a vida útil, seja por reentrada controlada na atmosfera ou por outras estratégias. Antigamente se falava em até 25 anos para fazer essa retirada; hoje a recomendação caminha para cerca de cinco anos.”
Segundo o pesquisador, outra mudança importante é que muitos equipamentos já são desenvolvidos para facilitar sua destruição durante a reentrada atmosférica. “Existem organizações projetando satélites em módulos. Quando eles reentram na atmosfera, esses módulos se fragmentam mais facilmente e queimam antes de atingir a superfície.”
Também se tornou comum reservar combustível exclusivamente para fazer manobras de desvio e para executar o descarte ao fim da missão.
Pequenos fragmentos podem causar grandes danos
Embora a maior parte do lixo espacial seja composta por objetos relativamente pequenos, isso não reduz os riscos. Os detritos se deslocam a velocidades superiores a 7 quilômetros por segundo. Nessas condições, mesmo partículas de poucos milímetros podem provocar danos severos.
“Um pequeno fragmento de tinta desprendido de um satélite pode ter energia equivalente à de uma granada de mão. Dependendo do ponto de impacto, ele pode destruir completamente um satélite”, afirma Bertachini.
A possibilidade de colisões aumenta principalmente nas órbitas baixas da Terra, conhecidas como Low Earth Orbit (LEO), onde está concentrada a maior parte dos satélites de observação da Terra e das grandes constelações comerciais. Existe ainda uma elevada concentração de equipamentos na órbita geoestacionária, utilizada principalmente por satélites de telecomunicações e meteorologia.
Monitoramento é permanente
Para reduzir o risco de colisões, operadores de satélites recebem continuamente alertas produzidos por redes internacionais de monitoramento de objetos espaciais. A principal delas é a Space Surveillance Network (SSN), uma rede de radares e telescópios operada pela Força Espacial dos Estados Unidos (U.S. Space Force), responsável por rastrear dezenas de milhares de objetos em órbita. Os dados são compartilhados com agências espaciais e operadores de satélites em diversos países. Também existem iniciativas conduzidas por outras organizações, já que nenhum país consegue monitorar sozinho todos os objetos que circulam ao redor da Terra.
O Brasil também participa desse esforço internacional. O Inpe acompanha diariamente a órbita dos satélites sob sua responsabilidade e utiliza informações compartilhadas por essas redes para avaliar riscos de colisão e, quando necessário, fazer manobras de desvio. Além disso, o País conta com estações de rastreio e outros sistemas voltados ao acompanhamento de satélites, que contribuem para o monitoramento das atividades espaciais.
Segundo Bertachini, o Inpe recebe, em média, um ou dois alertas desse tipo por mês. “Todos os dias fazemos a determinação da órbita dos satélites. Quando necessário, fazemos manobras para evitar colisões. Em média, isso acontece uma vez a cada três meses.”
A tecnologista da AEB destaca que essas manobras representam outro desafio para as missões espaciais. “O combustível embarcado no satélite é limitado. Sempre que ele precisa manobrar, parte desse combustível é consumida, reduzindo a vida útil da missão”, afirma Priscilla.
Além de reduzir a geração de novos fragmentos, pesquisadores de diversos países estudam tecnologias capazes de remover objetos que já permanecem em órbita. Entre as alternativas em desenvolvimento estão braços robóticos, arpões, cabos espaciais e veículos capazes de capturar satélites desativados para conduzi-los de volta à atmosfera ou deslocá-los para órbitas de descarte.
Enquanto essas soluções ainda evoluem, especialistas apontam que a principal estratégia continua sendo impedir que novos objetos permaneçam inutilizados no espaço. “Assim como buscamos reduzir a poluição na Terra, também precisamos evitar a poluição do espaço. Se cada satélite fosse retirado da órbita quando terminasse sua missão, isso já faria uma diferença enorme para a sustentabilidade das atividades espaciais”, conclui o pesquisador.
Fonte: MCTI




