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Durante décadas, a aviação africana conviveu com um paradoxo: as economias que mais crescem no continente continuam fragmentadas por rotas caras e tortuosas, que muitas vezes obrigam os viajantes a fazer desvios pela Europa ou pelo Oriente Médio. Essa era está agora mudando de forma decisiva. Com o início oficial das obras do Aeroporto Internacional de Bishoftu em 10 de janeiro de 2026, a Etiópia começou o, denominado pelo primeiro-ministro Abiy Ahmed, “maior projeto de infraestrutura de aviação da história da África” – de US$ 12,5 bilhões. Trata-se de uma declaração clara de intenção de se tornar o principal portal de aviação do continente.
No entanto, além das estatísticas impressionantes, o projeto também revela uma transformação mais ampla. O setor de construção da Etiópia está em franca expansão. A Ethiopian Airlines é uma das melhores do mundo e a melhor da África. A Ethiopian Airlines está executando uma estratégia de crescimento audaciosa, e um novo eixo de cooperação com o Brasil e a América Latina está silenciosamente tomando forma – prometendo transferência de tecnologia e uma parceria Sul-Sul renovada.

Aeroporto Internacional de Bishoftu: em números
Localizado a cerca de 45 quilômetros a sudeste de Adis Abeba, próximo à cidade de Bishoftu, o novo aeroporto está sendo construído em uma área de aproximadamente 3.500 hectares. Projetado pelo escritório londrino Zaha Hadid Architects, o terminal se inspira no Grande Vale do Rift da Etiópia, com uma “coluna vertebral” central conectando quatro píeres para minimizar as distâncias de transferência para até 80% dos passageiros em trânsito.
A primeira fase, com conclusão prevista para 2030, inclui duas pistas paralelas de código 4E com 4.800 metros cada, um terminal de 660.000 metros quadrados com capacidade para 60 milhões de passageiros por ano, capacidade de carga de 1,4 milhão de toneladas por ano e estacionamento para 270 aeronaves em sua configuração final. A conclusão total após 2030 contará com quatro pistas independentes, capacidade para 110 milhões de passageiros – superando o Hartsfield-Jackson de Atlanta – e uma “Cidade Aeroportuária” completa com instalações de MRO, hotéis, parques industriais e zonas residenciais para 80.000 pessoas.
Uma outra vantagem frequentemente esquecida: Bishoftu fica a cerca de 1.910 metros acima do nível do mar – quase 400 metros mais baixo que o aeroporto Bole, em Adis Abeba. Essa altitude mais baixa permite que as aeronaves decolem com pesos máximos mais elevados, possibilitando voos diretos para a América do Norte e o Leste Asiático sem escalas para reabastecimento.

Financiando um gigante continental
O custo de US$ 12,5 bilhões está sendo coberto por uma combinação equilibrada de capital público, empréstimos multilaterais e financiamento bilateral. A Ethiopian Airlines contribui com seus lucros retidos, enquanto o governo entra com fundos alocados. O Banco Africano de Desenvolvimento é o principal organizador financeiro. A Corporação Financeira Internacional para o Desenvolvimento dos EUA e o Banco de Exportação e Importação estão considerando o financiamento. O Banco da China está em negociações avançadas, e a Itália entrou por meio do seu “Plano Mattei”. Fundos soberanos do Oriente Médio, empresas turcas e o Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura também mantiveram conversas exploratórias. Essa estrutura diversificada de financiamento sinaliza alta confiança internacional.

Ethiopian Airlines: de Bole a Bishoftu
A força motriz por trás de Bishoftu é a Ethiopian Airlines – a maior companhia aérea da África em tamanho de frota, número de passageiros e receita. Atualmente operando a partir do Aeroporto Internacional de Bole, em Adis Abeba, que recebe cerca de 20 milhões de passageiros anualmente, a companhia aérea há muito superou a capacidade de sua base. O CEO Mesfin Tasew foi franco: Bole “atingiu seus limites”. A “Visão 2040” da companhia aérea prevê o crescimento de sua frota de 160 para 240 aeronaves e essa expansão é impossível sem um novo hub.
Assim que o Aeroporto de Bishoftu for inaugurado em 2030, Bole passará a ter uma função doméstica, enquanto todas as operações internacionais serão transferidas para o novo aeroporto. Os dois aeroportos serão ligados por uma dedicada ferrovia de alta velocidade. Fundamentalmente, a altitude mais baixa de Bishoftu permitirá voos diretos da África Oriental para a Costa Oeste dos EUA – uma virada de jogo para o comércio e a conectividade.

O pilar oculto: a parceria com o Brasil
Uma relação estratégica está se aprofundando com o Brasil. A Embraer, terceira maior fabricante de aeronaves do mundo, realizou reuniões de alto nível com a Ethiopian Airlines. A empresa propôs o fornecimento de aeronaves das famílias E-Jet e desenvolvimento conjunto de uma academia de treinamento de pilotos utilizando tecnologia de simulação brasileira. Para a Etiópia, a parceria com o Brasil oferece uma alternativa, promovendo a transferência de tecnologia.
A relação bilateral vai além da aviação. O Fórum de Cooperação Econômica Etiópia-Brasil de 2026 trouxe mais de 130 empresas brasileiras a Adis Abeba.
Acordos formais foram assinados nas áreas de agricultura (com a Embrapa compartilhando expertise em manejo de solos tropicais), etanol e biocombustíveis (utilizando o know-how brasileiro em cana-de-açúcar) e inovação digital. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) do Brasil sinalizou disposição para oferecer linhas de crédito à exportação para empresas brasileiras que participariam de projetos de infraestrutura etíopes, incluindo o Aeroporto de
Bishoftu. Ambos os países são membros do BRICS+ – a Etiópia aderiu em 2024. Para o Brasil, a Etiópia serve como porta de entrada para o mercado africano de 1,4 bilhão de pessoas. Para a Etiópia, o Brasil oferece um parceiro confiável com expertise de nível mundial em agronegócio, aviação regional e biocombustíveis.

Conclusão: um novo começo
Quando os primeiros passageiros atravessarem o terminal esculpido de Bishoftu em 2030, encontrarão mais do que um aeroporto. Eles entrarão em uma manifestação física da ambição da Etiópia de dar um salto para uma economia próspera e impulsionada pela logística. O Aeroporto Internacional de Bishoftu é uma aposta na conectividade. Os jatos da Embraer brasileira poderão em breve exibir a pintura da Ethiopian, e uma parceria Sul-Sul de Brasília a Adis Abeba poderá ajudar a reescrever a forma como a África constrói seu futuro. Essa história ainda está sendo escrita – as empresas etíopes e brasileiras têm um futuro mais promissor juntas.
Fonte: Embaixada da Etiópia




