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Por Embaixador Ashok Sajjanhar
O Cáucaso Meridional — formado por Armênia, Azerbaijão e Geórgia — é uma região geograficamente pequena, mas de elevada relevância geopolítica. Situado em uma encruzilhada estratégica entre Rússia e Europa, Oriente Médio e Ásia, o território é palco de intensa competição entre potências regionais e globais.
A Guerra de Nagorno-Karabakh, em 2020, e os acontecimentos subsequentes — incluindo a expulsão de cerca de 120 mil armênios étnicos e a tomada total da região pelo Azerbaijão, em setembro de 2023 — alteraram significativamente o equilíbrio de poder regional, consolidando a posição de Baku.
Nesse contexto, a relação da Índia com o Cáucaso Meridional combina vínculos históricos, herdados das antigas rotas da Seda, com as novas realidades geopolíticas do século XXI. O que antes ocupava um espaço periférico na política externa indiana passou, nos últimos anos, a figurar como um foco estratégico central para Nova Délhi, reunindo desafios relevantes, mas também oportunidades crescentes.
A aproximação indiana com os países da região tem se intensificado, com ênfase na conectividade estratégica por meio do Corredor Internacional de Transporte Norte-Sul (INSTC), na cooperação em defesa — sobretudo com a Armênia, hoje uma das principais compradoras de armamentos indianos — e na ampliação dos laços econômicos em áreas como energia, tecnologia da informação, comércio, educação e turismo. Ao mesmo tempo, a Índia busca equilibrar as dinâmicas das grandes potências e contribuir para a estabilidade regional.
Atualmente, a Armênia desponta como o parceiro mais próximo da Índia no Cáucaso Meridional, beneficiando-se de apoio significativo nas áreas de desenvolvimento e defesa. Paralelamente, Nova Délhi mantém relações pragmáticas com o Azerbaijão, especialmente nos setores de energia, turismo e comércio, e aprofunda seus vínculos com a Geórgia, com foco em investimentos, educação e turismo. Essas parcerias têm gerado benefícios econômicos mútuos e ampliado a influência geopolítica indiana, apoiando a estabilidade regional por meio de maior conectividade e infraestrutura.
Laços históricos e culturais
As relações entre a Índia e o Cáucaso Meridional remontam a milênios de intercâmbio comercial, cultural e humano. Registros históricos indicam a existência de assentamentos indianos na Armênia já em 149 a.C.
Na Armênia, a presença histórica é reforçada pela antiga comunidade armênia na Índia. O imperador mogol Akbar teria se casado com uma mulher armênia e concedido privilégios comerciais a esse grupo. Cidades como Calcutá e Chennai ainda abrigam igrejas armênias históricas, e foi em Madras (atual Chennai) que circulou, em 1794, o primeiro jornal armênio do mundo, o Azdarar.
No Azerbaijão, o Templo do Fogo de Ateshgah, em Baku, testemunha a passagem de comerciantes indianos — hindus e sikhs — ao longo da Rota da Seda, com inscrições em devanágari e gurmukhi preservadas em suas paredes.
Já na Geórgia, os vínculos culturais ganharam destaque em 2021, quando a Índia devolveu as relíquias sagradas da rainha Santa Ketevan, quase quatro séculos após terem sido levadas para Goa. A chamada “diplomacia das relíquias” contribuiu para o fortalecimento das relações bilaterais.
Relações políticas
No campo político, a Armênia consolidou-se como parceira estratégica da Índia, impulsionada por preocupações comuns em relação ao eixo Azerbaijão–Paquistão–Turquia. O relacionamento bilateral avançou de forma significativa nos últimos anos.
Com o Azerbaijão, os laços permanecem pragmáticos. Apesar das tensões decorrentes do apoio de Baku à posição do Paquistão sobre a Caxemira, a Índia mantém relações funcionais, baseadas sobretudo na cooperação energética e comercial, em consonância com sua política de multialinhamento.
A Geórgia, por sua vez, é vista por Nova Délhi como uma porta de entrada para o Mar Negro. As relações têm se aprofundado desde 2021, beneficiadas pela postura neutra de Tbilisi em relação a questões internas da Índia. Em julho de 2024, como sinal do fortalecimento dos vínculos, a Índia inaugurou sua missão diplomática residente no país.
Economia, conectividade e defesa
O Cáucaso Meridional ocupa posição central na estratégia indiana de acesso terrestre e marítimo à Europa e à Rússia. A cooperação em defesa com a Armênia destaca-se como um dos pilares dessa presença, refletindo tanto mudanças geopolíticas quanto preocupações com a segurança regional.
Desde 2022, Yerevan firmou contratos de defesa com a Índia que somam mais de US$ 1,5 bilhão, incluindo sistemas como os lançadores de foguetes Pinaka, radares Swathi, mísseis terra-ar Akash, mísseis de cruzeiro BrahMos e tecnologias antidrone. A Armênia tornou-se, assim, o maior cliente da Índia em sistemas de armas acabados, respondendo por cerca de 15% a 20% das exportações indianas de defesa nos últimos anos.
Essa cooperação marca a transição da Índia de grande importadora para exportadora relevante de armamentos, com o Cáucaso do Sul funcionando como uma plataforma estratégica para sua indústria de defesa nacional.
No campo da conectividade, além do INSTC, a Índia tem promovido o Corredor Golfo Pérsico–Mar Negro, que prevê o transporte de mercadorias via o porto iraniano de Chabahar, passando por Armênia e Geórgia até a Europa. Embora o Azerbaijão siga como um nó importante do INSTC e fornecedor relevante de petróleo, Nova Délhi tem diversificado rotas por razões geopolíticas.
Relações interpessoais
As relações interpessoais também têm se intensificado. Armênia e Geórgia tornaram-se importantes destinos para estudantes indianos de medicina, enquanto o Azerbaijão registrou forte crescimento no número de turistas indianos, tornando-se uma das principais origens de visitantes até 2024–2025. Voos diretos entre cidades indianas e capitais do Cáucaso reforçaram esse movimento.
Conclusão
A Índia vem deixando de atuar como observadora para se afirmar como ator estratégico no Cáucaso Meridional. Por meio de iniciativas em defesa, diplomacia, comércio, energia, educação, turismo e conectividade, Nova Délhi busca garantir seus interesses e contribuir para a estabilidade regional.
A estratégia indiana caracteriza-se por uma abordagem pragmática e diferenciada: uma parceria profunda e multifacetada com a Armênia, especialmente em defesa e conectividade; laços energéticos, comerciais e turísticos com o Azerbaijão; e um engajamento crescente com a Geórgia, focado em educação, comércio e acesso ao Mar Negro — refletindo uma política país a país, mais do que uma estratégia regional única.
Fonte: Embaixada da Índia no Brasil.




