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Por Embaixador Rajiv Bhatia
Discutir uma parceria entre a Índia — um único país — e a África, um continente composto por 54 nações, pode parecer, à primeira vista, uma relação assimétrica. No entanto, dois fatores fundamentais sustentam esse diálogo: a empatia histórica e o apoio consistente da Índia à África, correspondidos pela admiração e pelo respeito que grande parte dos africanos nutre pelo sucesso indiano como a maior democracia do mundo e uma das economias de grande porte que mais crescem. Com populações de cerca de 1,4 bilhão de habitantes cada, Índia e África têm potencial para apoiar-se mutuamente na promoção da boa governança e da prosperidade. Nesse contexto, a evolução da parceria Índia–África ao longo da década de 2020 assume relevância global. Essa parceria pode ser analisada a partir de quatro dimensões centrais: multilateral, continental, regional e bilateral.
Na esfera multilateral, a cooperação tem como principal eixo as Nações Unidas. Há décadas, Índia e países africanos atuam de forma convergente em temas como descolonização, desenvolvimento econômico, manutenção da paz e reforma do sistema das Nações Unidas. Atualmente, a Índia mantém participação ativa em missões de paz da ONU na República Democrática do Congo, no Sudão do Sul, na República Centro-Africana e no Saara Ocidental. Em um cenário de crescente pressão sobre o multilateralismo, ambos continuam a coordenar esforços para manter na agenda a reforma da ONU, especialmente do Conselho de Segurança. Questões globais como assistência ao desenvolvimento africano, alívio da dívida, transição energética justa e crescimento inclusivo contam com o apoio da diplomacia indiana. Destaca-se, ainda, o papel da Índia durante sua presidência do G20 (2022–2023), quando liderou o processo que resultou na admissão plena da União Africana no grupo. Da mesma forma, apoiou a entrada do Egito e da Etiópia na primeira ampliação do BRICS.
No plano continental, a criação da Cúpula do Fórum Índia–África, em 2008, marcou um avanço significativo. Outras duas edições ocorreram em 2011 e 2015, e a quarta, prevista inicialmente para 2020, foi adiada em razão da pandemia de Covid-19 e de fatores geopolíticos. Indicações oficiais apontam agora para sua realização em 2026. O momento é oportuno, dado o rápido redesenho da geopolítica global, frequentemente em detrimento dos interesses do Sul Global. A Índia, frequentemente descrita como a “voz” do Sul Global, e a África, seu “coração”, têm diante de si a oportunidade de estabelecer um diálogo estratégico franco e abrangente, voltado à definição de objetivos comuns.
A dimensão regional da parceria refere-se aos esforços da Índia para aprofundar a cooperação com Comunidades Econômicas Regionais africanas, como a Comunidade da África Oriental (EAC), o Mercado Comum da África Oriental e Austral (COMESA) e a Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral (SADC). Essas iniciativas, impulsionadas por entidades empresariais indianas como a CII e a FICCI, visam ampliar o comércio, os investimentos e a cooperação em áreas como minerais críticos e tecnologias digitais. Especialistas defendem que essas plataformas continuam relevantes, desde que recebam maior respaldo político.
Já no plano bilateral, considerado o mais decisivo, a Índia tem ampliado significativamente sua presença diplomática no continente. Nos últimos anos, foram inauguradas 18 novas embaixadas africanas, hoje plenamente operacionais. Elas facilitam a interação entre autoridades, empresas, centros de pesquisa e instituições dos dois lados. O diálogo político foi intensificado com a retomada das visitas de alto nível após a interrupção causada pela pandemia.
Entre 2022 e 2025, a Índia realizou 12 visitas oficiais de alto escalão, envolvendo contatos com líderes de 17 países africanos, abrangendo regiões do Norte, do Oeste e do Chifre da África, além da tradicional presença na África Oriental e Austral. Durante a pandemia de Covid-19, a Índia também se destacou ao fornecer vacinas, medicamentos e equipamentos médicos a diversos países africanos, em contraste com a postura de alguns países ocidentais, que mantiveram estoques excedentes sem distribuição imediata.
Duas áreas demandam atenção prioritária. A primeira é a cooperação comercial e econômica. O comércio bilateral Índia–África alcançou US$ 103 bilhões no ano fiscal de 2025, e Nova Déli estabeleceu a meta de elevá-lo a US$ 200 bilhões até 2030. O investimento indiano acumulado no continente, estimado em US$ 80 bilhões, também precisa ser ampliado e diversificado, o que exige um roteiro prático elaborado conjuntamente por governos e lideranças empresariais. A segunda área é o chamado poder brando, abrangendo cultura, educação, formação de habilidades e produção intelectual, com protagonismo de universidades, centros de pesquisa, mídia e organizações da sociedade civil. Um plano conjunto pode fortalecer os laços entre as populações, promovendo maior interação entre cerca de 2,8 bilhões de pessoas.
A parceria multidimensional entre Índia e África apresenta perspectivas promissoras. Para que alcance um novo patamar, contudo, será necessário maior engajamento político, atenção estratégica e investimento de recursos por parte dos principais atores de ambas as regiões.
Rajiv Bhatia é embaixador e membro ilustre da Gateway House, em Mumbai. Foi Alto Comissário da Índia no Quênia, na África do Sul e no Lesoto, além de Diretor-Geral do Conselho Indiano de Assuntos Mundiais (ICWA) entre 2012 e 2015. É autor do livro “Relações Índia–África: Horizontes em Transformação” (Routledge, 2022).
Fonte: Embaixada da Índia no Brasil.




