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Por Embaixadora Bhaswati Mukherjee
O patrimônio cultural e civilizacional da Índia constitui um verdadeiro presente para o mundo. Compreender essa herança implica empreender uma profunda jornada histórica em direção ao nosso passado. Qualquer reflexão séria sobre a história deve partir das considerações de E. H. Carr que, em O que é História?, afirma: “A história é um processo contínuo de interação entre o historiador e os fatos, um diálogo interminável entre o presente e o passado — um processo dinâmico e dialético que não pode ser limitado apenas pelo empirismo ou pelo amor aos fatos.”
Outro aspecto fundamental dessa reflexão é a relação entre cultura e imperialismo no século XIX. Em sua obra seminal Cultura e Imperialismo, Edward W. Said observa: “Em parte devido ao império, todas as culturas estão interligadas; nenhuma é única ou pura; todas são híbridas, heterogêneas, diferenciadas e não monolíticas.”
Essa definição reflete com precisão a essência da cultura indiana. Após a chegada de holandeses, portugueses, franceses e britânicos, houve reiteradas tentativas de minimizar ou desvalorizar o patrimônio cultural da Índia. Tratava-se do auge do colonialismo e do imperialismo, período no qual, como observa Said, a noção de “raças inferiores” foi utilizada para justificar a aquisição imperial de territórios. A cultura do imperialismo promovia a veneração da cultura colonizadora em detrimento das demais — uma concepção profundamente antagônica à visão civilizacional indiana.
Uma das obras mais relevantes sobre a Índia, A Maravilha que foi a Índia, de A. L. Basham, rejeita a antiga interpretação ocidental que retratava a civilização indiana como apolítica, excessivamente espiritual e imutável. Ao contrário, Basham demonstra que a Índia possui uma civilização dinâmica, marcada por contínua transformação cultural. Nesse contexto, as tradições orais desempenharam papel essencial na preservação e transmissão do conhecimento.
A civilização que floresceu nos vales dos grandes sistemas fluviais do Indo e do Ganges, embora geograficamente delimitada pelos Himalaias, jamais foi isolada. Comerciantes e colonizadores chegaram à Índia por terra e por mar, vindos tanto do Oriente quanto do Ocidente. Como potência marítima, os próprios indianos também viajaram amplamente, favorecendo intensos intercâmbios culturais. Esse processo resultou em um padrão cultural complexo e multidimensional, refletido na arte e nas tradições desde a Antiguidade até a era moderna — dos Budas dançantes da escola de Gandhara, influenciada pela estética grega, aos grandes templos do norte e do sul da Índia.
O período ariano testemunhou o florescimento da literatura védica e dos Puranas. O Rig Veda constitui a fonte literária mais antiga, ao lado das grandes epopeias Ramayana e Mahabharata. A arquitetura e a escultura da Índia antiga evidenciam dinamismo e capacidade de adaptação, jamais estagnação.
Graças à fertilização cruzada de culturas, a civilização indiana não desapareceu com a chegada dos invasores muçulmanos. Ainda assim, as invasões iniciadas a partir do século X causaram danos severos à herança cultural ancestral, incluindo ataques e destruições de templos, como os múltiplos episódios envolvendo o templo de Somnath.
Posteriormente, no entanto, a arquitetura indo-islâmica mogol e as pinturas em miniatura emergiram como expressões marcantes de uma cultura sincrética. O período mogol consolidou um padrão cultural eclético, no qual a adaptação de elementos indianos resultou em obras-primas como o Taj Mahal.
A cultura e a civilização da Índia também constituem um legado essencial para sua diáspora. Como Estado multicultural, a Índia, em parceria com sua vasta comunidade global, transformou sua herança cultural em uma força de conexão, construção de relações e superação das rupturas impostas pela história e pela política. Internacionalmente, reconhece-se que uma das contribuições mais significativas da Índia ao mundo reside em suas parcerias culturais e civilizacionais milenares.
O conceito de Vasudhaiva Kutumbakam, presente nos Maha Upanishads — “Udara charitanam tu vasudhaiva kutumbakam” — expressa a ideia de que o mundo inteiro é uma família para os generosos. Trata-se de um dos mais antigos precursores da noção contemporânea de cidadania global e constitui a base do diálogo contínuo promovido pela UNESCO entre culturas, religiões e civilizações.
Por meio de sua diáspora, a vibrante herança cultural da Índia espalhou-se pelo mundo, reafirmando valores fundamentais como tolerância, inclusão e intercâmbio cultural — princípios hoje mais relevantes do que nunca diante de uma ordem global marcada pela instabilidade. Nesse contexto, a diplomacia cultural desempenha papel central na disseminação desses valores. As artes, a cultura e a espiritualidade indianas atraem povos de todas as regiões há séculos.
A espiritualidade indiana, em particular, mantém presença global significativa, evidenciada pela ampla difusão do Yoga. Por iniciativa pessoal do Primeiro-Ministro Narendra Modi, a Assembleia Geral das Nações Unidas reconheceu, em 2014, o dia 21 de junho como o Dia Internacional do Yoga.
O grande desafio contemporâneo reside na preservação dessa herança viva. A cultura indiana somente sobreviverá se for continuamente nutrida pelas gerações sucessivas, inclusive pela diáspora. Caso não seja apresentada de forma acessível e atraente à juventude indiana, esse patrimônio corre o risco de se enfraquecer.
Nossa cultura plural é a dádiva da Índia ao mundo. Ela reflete a trajetória histórica de um país que soube absorver influências externas sem jamais perder sua essência. Durante visita recente à Universidade Visva-Bharati, em Shantiniketan, deparei-me com a inspiradora mensagem de Gurudev Rabindranath Tagore, que permanece atual: “A Índia representa a riqueza da mente que é para todos.”
Reconhecemos, assim, a obrigação da Índia de oferecer ao mundo a hospitalidade de sua melhor cultura — e também o direito de acolher o melhor das outras culturas. Foi assim no passado e continuará a ser por muitas gerações. É por isso que somos Bharat, ou seja, Índia.
Fonte: Embaixada da Índia no Brasil.




