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Localizada nos Bálcãs, a Sérvia busca ampliar sua presença na América do Sul com projetos concretos nas áreas de tecnologia, agricultura, turismo e sustentabilidade. Em entrevista à Diplomacia Business, o embaixador Aleksandar Ristić destaca a cooperação com Goiás em inteligência artificial e agricultura de precisão, a experiência pioneira de transporte público gratuito em Belgrado, as oportunidades de investimento em energia limpa e tecnologia verde, além dos preparativos para a Expo 2027 e a participação ativa na COP30. Ele também comenta a receptividade brasileira, o papel da diáspora sérvia e as semelhanças culturais que aproximam os dois países.
Leia abaixo a entrevista na íntegra:
Diplomacia Business: O senhor já teve a oportunidade de conhecer diferentes regiões do Brasil. Alguma lhe causou uma impressão especial? O que mais chamou sua atenção?
Aleksandar Ristić: Tive compromissos profissionais em diversas partes do país, mas também aproveitei para visitar muitos lugares e apreciar as belezas do Brasil, onde tenho a felicidade de atuar como embaixador. As grandes cidades litorâneas têm vida própria e atraem milhões de pessoas, mas outras regiões brasileiras são igualmente interessantes e, em alguns casos, únicas. Minha estadia nos Lençóis Maranhenses, por exemplo, parece hoje quase irreal – as fotos dão a impressão de serem fruto de uma montagem ou edição.
Para nós que vivemos em Brasília, verdadeiro monumento à coragem e ousadia do povo brasileiro, basta dispor de um pouco de tempo para sair da cidade e desfrutar da natureza, da gastronomia, da música – sou admirador de Goiânia e do sertanejo – e, sobretudo, da hospitalidade.
Diplomacia Business: Durante essas viagens, houve aspectos culturais ou características regionais que o surpreenderam positivamente?
Aleksandar Ristić: Minha experiência no Brasil, embora motivada pela responsabilidade do cargo, é extremamente agradável e confortável. O tratamento que recebo – seja das autoridades, dos empresários, da comunidade acadêmica ou no convívio diário – me traz felicidade.
Isso reflete não apenas respeito ao país que represento e a mim pessoalmente, mas também evidencia uma cultura de paciência, cortesia e cordialidade, características que me conquistaram.
Diplomacia Business: Na sua avaliação, algum Estado brasileiro se destaca como potencial parceiro da Sérvia nos campos comercial, cultural, tecnológico ou de defesa?
Aleksandar Ristić: Atualmente, Goiás concentra a maior parte de nossos projetos de cooperação. No ano passado, estabelecemos contato entre o Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento em Inteligência Artificial da Sérvia e o Centro de Excelência em Inteligência Artificial da Universidade Federal de Goiás, inclusive com visita já realizada à Sérvia.
O objetivo é unir talentos de ambos os países para desenvolver produtos conjuntos. Mantemos também colaboração muito positiva com a PUC-Goiás, a Fecomércio, a Conaje, a Acieg e a paróquia da Igreja Ortodoxa, contando com total apoio do governo estadual.
Esperamos ainda a assinatura de um memorando de cooperação entre a Assembleia Legislativa de Goiás e a Assembleia da Província Autônoma da Voivodina – região do norte da Sérvia, principal produtora de soja e milho, com características semelhantes ao Centro-Oeste brasileiro. O plano inclui ampliar a cooperação esportiva, com destaque para o basquete.
Diplomacia Business: Quais setores da economia sérvia oferecem as melhores oportunidades para parcerias com empresas brasileiras?
Aleksandar Ristić: A Sérvia tem grande potencial agrícola. Gostaríamos de compartilhar experiências de sucesso do Brasil – como os Sistemas Integrados de Lavoura, Pecuária e Floresta (ILPF), o Sistema de Plantio Direto, a fixação biológica de nitrogênio e a agricultura de precisão – adaptando-as à nossa realidade.
Ao mesmo tempo, temos contribuições próprias a oferecer, especialmente no uso de tecnologias modernas e inteligência artificial aplicadas ao campo. Destaco o Instituto BioSense, orgulho da ciência sérvia, exemplo de como pesquisa de ponta pode servir não apenas ao nosso país, mas à humanidade.
O BioSense reúne especialistas em agricultura digital, tecnologia da informação, bioengenharia e análise de grandes volumes de dados, fortalecendo o desenvolvimento sustentável, a preservação ambiental e o crescimento econômico da Sérvia. Estamos convencidos de que a união de esforços entre nossos países poderá gerar parcerias duradouras, com benefícios concretos tanto para a Sérvia quanto para o Brasil.
Diplomacia Business: Quais iniciativas estão em andamento – ou poderiam ser fomentadas – para incentivar o turismo entre Sérvia e Brasil?
Aleksandar Ristić: Em 2024, a Sérvia recebeu pouco menos de seis mil turistas brasileiros. Os dados do primeiro semestre de 2025 indicam que o número será semelhante neste ano. Considero esse resultado ainda insuficiente e defendo maior esforço para promover o potencial turístico sérvio.
O fato de não termos saída para o mar não afasta visitantes do Brasil, que possui belíssimas praias. Nosso país oferece outros atrativos, como turismo urbano, estâncias termais, estações de esqui e lagos. Hábitos alimentares semelhantes e o apreço pela boa gastronomia aproximam sérvios e brasileiros, fazendo da culinária sérvia um diferencial. Embora ainda não haja voo direto – possibilidade que deveríamos considerar, já que a Air Serbia vem expandindo sua malha –, chegar ao país é simples.

Esperamos também o apoio brasileiro à Expo 2027, que ocorrerá em Belgrado de 15 de maio a 15 de agosto de 2027, reunindo mais de 120 países sob o tema “Jogar pela Humanidade: Esporte e Música para Todos”.
O Brasil certamente terá espaço de destaque e aguardamos com expectativa a confirmação de sua presença, assim como a participação de visitantes brasileiros para aproveitar o verão na Sérvia e conhecer, a partir de Belgrado, a cultura e o esporte de diversas nações.
Diplomacia Business: Qual o papel da diáspora sérvia no Brasil no fortalecimento das relações bilaterais?
Aleksandar Ristić: Embora haja sérvios espalhados pelo mundo, a comunidade no Brasil é pequena – apenas algumas centenas de cidadãos com passaporte sérvio e alguns milhares de descendentes.
A imigração mais recente, no entanto, trouxe profissionais de destaque em música, cinema, tradução, saúde e esportes. Atrevo-me a dizer que um sérvio – o ex-jogador de futebol Dejan Petković – talvez seja o estrangeiro mais famoso do Brasil. E aguardamos com entusiasmo mais um reforço esportivo: Jelena Todorović, que em breve assumirá o comando técnico do clube masculino Fortaleza Basquete Cearense. Essas personalidades contribuem para tornar a Sérvia mais visível no Brasil e representam com excelência nosso país.
Diplomacia Business: Como a Sérvia avalia sua participação na COP30 e quais serão as principais prioridades ambientais apresentadas pelo país?
Aleksandar Ristić: Vivemos tempos turbulentos, marcados por crises e conflitos. A paz é condição indispensável para que outros temas avancem na agenda internacional. Nesse contexto, destaco o papel notável do Brasil e seu compromisso com a paz, sempre apoiado pela Sérvia.
Da mesma forma, saudamos a liderança brasileira na proteção ambiental e no combate às mudanças climáticas, compromisso que também assumimos. Buscamos soluções para os impactos climáticos em nível nacional, regional e global, pois enfrentamos desafios semelhantes. Estudos mostram que a Sérvia aquece mais rapidamente que a média mundial e, desde 2000, sofreu eventos climáticos extremos com graves perdas materiais e humanas.
Ainda hoje sentimos os efeitos das enchentes de 2014. Manifestamos, portanto, solidariedade aos habitantes do Rio Grande do Sul, pois compreendemos plenamente as dificuldades enfrentadas. Acreditamos que cada voz tem igual importância, sobretudo para países em risco existencial, como nossos amigos de pequenos Estados insulares.
Somente com ação coordenada alcançaremos resultados concretos. Apesar das fronteiras nacionais, todos estamos interligados, e apenas com maior compreensão mútua e respeito aos interesses de cada Estado poderemos avançar de forma efetiva.
Diplomacia Business: Existem projetos sustentáveis em andamento na Sérvia que possam ser compartilhados ou replicados no Brasil e na América Latina? Há interesse de empresas sérvias em investir nos setores de energia limpa, tecnologia verde ou agricultura sustentável?
Aleksandar Ristić: Para reduzir a poluição nas grandes cidades e diminuir o número de veículos, Belgrado tornou-se pioneira ao adotar transporte público gratuito – a primeira cidade do mundo com mais de um milhão de habitantes a implementar tarifa zero.
Tivemos a oportunidade de apresentar essa experiência a nossos amigos brasileiros, entre eles o deputado federal Jilmar Tatto, defensor histórico da medida. Mostramos não apenas as razões da decisão, mas também os resultados concretos do projeto, iniciado em 1º de janeiro de 2025. Belgrado está aberta a compartilhar essa experiência não só com o Brasil, mas com toda a América Latina.
Atualmente, três empresas sérvias de TI e inteligência artificial negociam projetos conjuntos com parceiros brasileiros, sendo que duas já iniciaram operações em São Paulo. O Brasil é hoje o maior parceiro comercial da Sérvia na América do Sul e, apesar da distância geográfica, há enorme potencial de cooperação.
O intercâmbio empresarial pode abrir novas portas e sonhamos em ver a Sérvia como centro regional de distribuição para produtos brasileiros. Também desejamos aprender com a experiência brasileira em biocombustíveis, energia renovável e agricultura sustentável.
A diversificação da matriz energética brasileira – com destaque para a eólica e a solar – e a frota de veículos flex mostram que é possível crescer economicamente sem comprometer o meio ambiente.
*A reprodução é permitida, desde que citada a fonte.




