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Após três anos de rompimento diplomático, o Brasil retomou relações com a Venezuela e encerrou uma política hostil em relação ao país vizinho. Por decisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o governo brasileiro voltou a reconhecer o mandato de Nicolás Maduro, normalizou o status dos diplomatas venezuelanos no Brasil e enviou um encarregado de negócios a Caracas para reabrir a embaixada brasileira na capital venezuelana.
O diplomata Flávio Macieira chegou ao país ainda em janeiro para chefiar a missão brasileira e reativar a principal sede diplomática do Brasil na Venezuela. Hoje, três meses após sua nomeação, ele afirma que a retomada de relações ainda está “em uma fase preliminar”, mas que as expectativas “são as melhores possíveis”.
Em entrevista ao Brasil de Fato na embaixada do Brasil em Caracas, ele falou sobre os avanços do restabelecimento de relações, os desafios do processo de reabertura das sedes fechadas pelo governo de Jair Bolsonaro (PL) e as perspectivas para o futuro.
Confira os principais trechos da entrevista:
Em qual estado os edifícios da embaixada e dos consulados brasileiros na Venezuela foram encontrados?
Flávio Macieira: Havia uma diferença de organização dos espaços das representações brasileiras. Aqui [em Caracas], há dois imóveis próprios brasileiros: esse aqui, da chancelaria, e a residência oficial do embaixador. Esses imóveis estavam muito bem preservados. Claro, na hora da saída foi tudo um pouco improvisado e foi muito difícil dar um jeito de interromper o trabalho de uma hora para a outra, mas essa parte foi bem coberta porque veio uma equipe do Brasil e foi contratada uma empresa que cuidou muito bem dos imóveis.
Então a gente não parte do zero, a gente parte de uma estrutura que existe, é só recolocá-la em funcionamento, mas tem vários problemas. Todos os funcionários foram dispensados e nós estamos fazendo novos processos seletivos para recompor o quadro de funcionários da embaixada, porque uma embaixada não funciona corretamente sem funcionários locais. Só com o staff que vem do Brasil nós ficamos sem janela suficiente para o governo local, para a sociedade venezuelana. Então a gente precisa ter nosso corpo de funcionários locais. Já os outros imóveis eram alugados e eles foram devolvidos.
O consulado-geral em Caracas era muito bem instalado, um prédio ótimo que eu visitei. O espaço foi devolvido, não existe mais, está vago até hoje. Eu estou aqui tentando equacionar o que seria melhor para o serviço brasileiro, mas uma boa solução seria o Brasil reabrir esse consulado no mesmo lugar de antes. Ele estaria muito bem instalado e teríamos a presença institucional brasileira em Caracas muito mais completa.
Os outros são muito importantes também, os vice-consulados [em Puerto Ayacucho e em Santa Elena de Uairén] e o consulado em Ciudad Guayana, mas eles também estavam em espaços alugados que foram descontinuados. Inclusive os arquivos dessas sedes, que são arquivos sensíveis, com informações pessoais, ficaram armazenados aqui em Caracas, por segurança. Isso tem que ser equacionado, mas não pode ser feito ao mesmo tempo, porque todo esse esforço que está sendo feito aqui [em Caracas] terá que ser reproduzidos em cada uma das sedes.
O que consta nessa primeira agenda? Quais são os temas prioritários?
Eu vou citar o embaixador Celso Amorim, nosso ex-ministro, que falou sobre o relacionamento entre Brasil e Venezuela, dizendo que a ideia é recompor um relacionamento como existiu no passado, que era um relacionamento muito completo e complexo. Porque havia comércio, investimento, venda de serviços, cooperação de empresas, cooperação técnica. Então a ideia é recompor tudo isso, mas de uma maneira planejada, cautelosa e progressiva.
Ninguém dará passos exagerados ou precipitados, mas a ideia é reativar o relacionamento da maneira que for possível, porque é uma coisa mutuamente benéfica. Hoje em dia já existem exportadores brasileiros abastecendo parte do mercado daqui e isso é um aporte muito importante para que eles baixem os preços e dominem essa inflação que tem criado dificuldades para a economia da Venezuela.
Eu acho que o Brasil é uma presença muito importante para a Venezuela, e a Venezuela para nós, porque é um país vizinho com quem temos uma partilha histórica. Toda a América do Sul possui uma história entrelaçada de países soberanos que compartilham a mesma origem. Então a ideia é essa, recompor um bom relacionamento. Você sabe que a Venezuela chegou a ser, em certo momento pontual, o segundo destino de exportações do Brasil nas Américas, já estava ultrapassando a Argentina. Não sei se a gente chega lá de novo, mas isso mostra a importância do mercado venezuelano para o Brasil.
Como foram os primeiros contatos com o governo venezuelano? Quais temas foram abordados?
Foram os melhores possíveis. Eu estive aqui primeiramente por apenas dez dias, então eu tive contato com o vice-ministro de Relações Exteriores [Rander Peña] e com a chefe de protocolo da Chancelaria venezuelana. Naquele momento, estava prevista, no curto prazo, uma reunião dos dois presidentes [Lula e Maduro]. Por causa disso, o contato político já estava atendido, já que aconteceria uma reunião máxima em breve. Infelizmente, a reunião acabou não acontecendo.
Confira na íntegra a reportagem de Flávio Macieira no site Brasil de Fato.




