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“O comércio entre o Brasil e o Uruguai está logrando recordes, mas o turismo está fraco. É preciso retomar os voos. E Brasília possui um aeroporto magnífico com 48 rotas para 27 estados”. A análise é do embaixador do Uruguai no Brasil, Guilllermo Valles Galmés. Em entrevista exclusiva ao Diplomacia Business, o diplomata lembra que os dois países têm fronteira de mais de mil km, mas que o forte do turismo deve ser por via aérea.
De acordo com Guilllermo Valles, o assunto está sendo debatido pela embaixada do Uruguai com a Embratur e também pelas autoridades aeroportuárias brasileiras e uruguaias, a empresa GOL e o Governo do Distrito Federal. Lembra que um voo de Brasília a Montevidéu dura três horas.
Na opinião do embaixador, Brasília ainda não é um destino turístico, mas deveria ser, porque tem potencialidade para tal, com sua arquitetura e bom clima. Entende que o turismo brasileiro no Uruguai também pode crescer. Veja a entrevista do embaixador do Uruguai:
Diplomacia Business – Recentemente, o sr. se reuniu com o presidente da Embratur, Silvio Nascimento, para debater a promoção do turismo entre os dois países. Como foi essa reunião? O que pretendem realizar juntos?
Embaixador Guillermo Valles Galmés – Há absoluta necessidade de fazer todos os esforços para relançar o setor de serviços turísticos que foi prejudicado pela pandemia. O comércio de bens, de mercadorias e as exportações estão logrando recordes de preços e quantidades. Mas o setor de turismo ainda está muito fraco.
Com o presidente da Embratur falamos sobre a necessidade de retomar as frequências de voos. Nós temos um turismo regional importante, com veículos particulares. Temos mais de mil km na fronteira, com tráfego importante de veículos particulares, mas o grosso do turismo se faz por meio da frequência aérea e as frequências ainda não estão retomadas, com a mesma intensidade de antes.
Debatemos a necessidade de utilizar essa situação para repensar rotas aéreas, por exemplo, aproveitar o magnífico aeroporto de Brasília. A gente geralmente pensa no aeroporto de Guarulhos, que é grande, mas – como centro para pegar voos para outras capitais – Brasília tem um magnífico aeroporto com 48 rotas conectando os 27 estados. Não é uma coisa que se faz de um dia para o outro. A Argentina agora tem quatro frequências de voos diretos semanais de Buenos Aires semanais para Brasília. É uma questão comercial e de demanda. Precisamos acertar entre todos os parceiros, não somente as linhas aéreas, como a Gol, mas também com as autoridades aeroportuárias, porque elas têm custo também. Tem de ser um trabalho de equipes, não só dos governos.
Brasília pode ser um bom destino turístico?
Embaixador Guillermo Valles Galmés – Temos uma potencialidade importante para trazer turistas do Uruguai. Nossa gente conhece Brasília só de nome. Há muitos brasileiros que também não conhecem a capital. Brasília não é um destino turístico, mas deveria ser porque tem já uma vida própria, identidade própria do ponto de vista de arquitetura, urbanismo, tranquilidade e também do clima. Nem todas as pessoas gostam de ir para a praia. O tempo aqui é atrativo para os uruguaios que agora estão com frio lá, no inverno. Também sou muito crítico, nós vendemos o que nós gostamos, as nossas praias, mas aqui no Brasil existem praias maravilhosas. O que temos de vender para o turista brasileiro é outra coisa, o frio.
Temos Montevidéu, pequena, mas muito bonita, tranquila, arvorada, perto do mar e com arquitetura maravilhosa também. Outra coisa é o turismo cultural. Temos uma oferta cultural, uma riqueza cultural que não é própria de um país de 3,5 milhões de habitantes, uma riqueza pictórica, museus, música, ballet de primeira qualidade. Poderia ter um turismo intenso de inverno. Nosso teatro Solis é belíssimo, do século XIX. Temos o enoturismo ecológico, muito interessante.
Em agosto, os uruguaios comemoram a data nacional do país. Como serão as comemorações?
Em 25 de agosto de 1824, o Uruguai se declarou um país independente. Os nossos patriotas fizeram essa declaração na cidade de Florida, a 100 km de Montevidéu. Em Brasília, não programamos festa na embaixada. Apenas um brinde de longe com os nossos amigos. Durante o ano, vamos trazer a Brasília dois guitarristas uruguaios para se apresentarem no Instituto Cervantes, um deles voltado para a música clássica e o outro para o jazz. Eles vão se apresentar também em São Paulo e no Rio de Janeiro. Participaremos também este ano da Mostra de Cinema Latino Americano, no Cine Brasília, com filmes uruguaios.
O projeto Hidrovia da Lagoa Mirim integrará comercialmente por via fluvial o sul do Brasil ao leste do Uruguai. Qual a importância desse projeto e como ele pode ser realizado?
Embaixador Guillermo Valles Galmés – A construção da hidrovia está prevista há 60 anos no ponto mais oriental do Uruguai, na Lagoa dos Patos, que tem água salgada; e mais ao sul do Brasil, na Lagoa Mirim, de água doce. Uma empresa privada fará o porto no rio Taquari, um porto que permite a deslocação de muito tráfego rodoviário para barcos que podem carregar até 100 caminhões. Um tráfego com mais segurança e menos emissões de carbono, com diminuição de distâncias e menos gastos de energia. Uma hidrovia para transporte de trigo, sorgo, soja…na região da fronteira e com menos gastos por transporte de cada tonelada de grãos.
Uma simples mudança de transporte que muda toda uma economia, com transporte mais barato e ecológico, em terras férteis longe. O investimento para construir o porto é de uma empresa privada do Uruguai, uma corporação que deve ser autorizada pelo governo brasileiro para dragar as areias em 22 km. Não é um projeto custoso. Do lado brasileiro, o Ministério da Infraestrutura está preparando um leilão para essa concessão. O assunto envolve também a Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antac) e apoio do Banco de Desenvolvimento da América Latina (CAF).
Em quais áreas comerciais, os dois países podem ampliar seus negócios? Quais outros novos setores podem entrar nesse comércio?
Embaixador Guillermo Valles Galmés – Depois da China, o Brasil é o maior parceiro comercial do Uruguai. Os demais países parceiros são importantes também, mas são menores. São Paulo, Rio Grande do Sul e Paraná, principalmente, são grandes importadores dos produtos do Uruguai. O Rio Grande do Sul importa mais do Uruguai do que o Chile, mais do que o México, Peru ou Bolívia. Somente a Argentina é um mercado maior do que o Rio Grande do Sul.
O mesmo acontece com Santa Catarina, Paraná e São Paulo. São Paulo importa do Uruguai mais do que qualquer país da União Europeia. O que estou frisando é a magnitude da parceria do Uruguai com o Brasil. Exportamos para o Brasil insumos para a indústria manufatureira, de alimentação, como leite em pó. E também insumos para a indústria eletrônica e eletromecânica. Esse comércio pode crescer em serviços de tecnologia, informática, telecomunicações e software. Uruguai é per capta o maior exportador de software da América Latina. É também um bom lugar para as empresas que estão buscando se internacionalizar.
A educação básica no Uruguai é integral? Como esse setor é valorizado no país?
Embaixador Guillermo Valles Galmés – A educação pública no Uruguai é laica, gratuita e obrigatória. Começa no jardim de infância e vai até o terceiro grau, com vagas para todos. Nos últimos anos, a qualidade dessa educação tem decrescido e está se fazendo uma reforma sobretudo na educação do ensino médio, não só no orçamento, mas nos programas, na distribuição das vagas e na formação dos professores. A educação básica é integral no Uruguai desde quando a criança tem dois anos de idade.
Perfil – O embaixador Guillermo Valles Galmés é diplomata uruguaio de carreira com 45 anos de experiência profissional. Exerceu diversos cargos diplomáticos multilaterais e bilaterais na América Latina, Europa, Ásia e ONU, sendo (o primeiro) embaixador do Uruguai na China; na União Europeia, Bélgica, Luxemburgo e perante a Organização Mundial do Comércio e a ONU em Genebra.
Foi vice-ministro das Relações Exteriores e assumiu como chanceler interino em várias ocasiões. Trabalhou para a ONU por seis anos como diretor da Divisão de Comércio Internacional de Bens e Serviços e Matérias-Primas da UNCTAD. Foi o principal negociador diplomático do Mercosul entre 1992 e 1996. É árbitro-painelista do Órgão de Solução de Controvérsias da OMC.
É licenciado pela Faculdade de Direito e Ciências Sociais da Universidade da República com o título de Doutor em Diplomacia. No Uruguai foi professor nas Universidades ORT, Católica e da República. Ministra cursos no Colégio de México. Em 1995 recebeu a Grã-Cruz da Ordem do Rio Branco da República Federativa do Brasil. Também foi condecorado pelos governos do Chile, Paraguai e Itália, e teve reconhecimentos da Federação Russa e do W.W.F. É membro ativo e voluntário em várias organizações de serviço público. O embaixador Guillermo Valles é casado com Sachiyo Kajita Valles (Japão) e “orgulhoso” pai de Agustín Ken Valles Kajita. Tem 67 anos e rema três vezes por semana no Lago Paranoá, em Brasília.




