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Na Grécia que se iniciou o espírito da sociedade ocidental: a filosofia, a democracia, a literatura, a historiografia, as artes e muito do que norteia nossa sociedade. O país é considerado o berço da sociedade ocidental.
Em São Paulo (SP), desde 1938, funciona a Coletividade Helênica, que representa os interesses de seus associados, gregos, descendentes, filo-helenos e interessados em manter e promover as diversas facetas da cultura grega. A Coletividade promove aulas, palestras, eventos e festividades ligados à língua, dança, música, religião, gastronomia, história e valores gregos.
O presidente da Coletividade Helênica de São Paulo, Stayros Kyriopoulos, nos revela um pouco da cultura grega. “A mitologia grega tem algumas particularidades que fazem com que ela seja muito interessante e mesmo estrutural para a nossa sociedade contemporânea”, comenta.
Para Stayros Kyriopoulos, “na medida em que os mitos são representações de partes e potenciais da nossa própria vivência psíquica, emocional e cultural, todos eles em diferentes momentos e em diferentes sentidos, coabitam nossas almas, comportamentos e tendências”. Veja a entrevista completa do presidente da Coletividade Helênica de São Paulo, concedida com exclusividade para o Diplomacia Business:

Diplomacia Business – A Comunidade Helênica é formada por quantos gregos e descendentes? Onde se encontra a maioria dessas famílias?
Presidente da Coletividade Helênica de São Paulo, Stayros Kyriopoulos – Não há um número exato, o consulado tem registrado 17.000 gregos e descendentes. Mas este número deve ser até maior.
Quando foi fundada a Coletividade Helênica de São Paulo e com quais objetivos?
Stayros Kyriopoulos – A Coletividade foi fundada em 1938. Inicialmente sua sede foi a Igreja Ortodoxa Síria, na região da Rua 25 de março. Em 1956, foi construída a nossa Igreja e a sede da Coletividade na Rua Bresser no Brás.
Porque as residências dos gregos no país geralmente são pintadas de branco e azul, cores também da bandeira da nação?
Stayros Kyriopoulos – Não são todas as residências que têm a cor branca. Isso ocorre em algumas ilhas. E o motivo é para diminuir o efeito do sol, do calor. Além de ser um material barato, visto que é usado o cal.
A Grécia é reconhecida como a primeira civilização europeia. Por que essa nação é considerada o berço da civilização ocidental?
Stayros Kyriopoulos – Porque foi na Grécia que se iniciou o espírito da sociedade ocidental. A filosofia, a democracia, a literatura, a historiografia, as artes e muito do que norteia a nossa sociedade.
Qual a importância da mitologia grega?
Stayros Kyriopoulos – A mitologia grega tem algumas particularidades que fazem com que ela seja muito interessante e mesmo estrutural para a nossa sociedade contemporânea. Como todas as mitologias, como todos os conhecimentos (logos) das narrativas sagradas (mythos), a mitologia grega nos mostra um panorama simbólico, emocional e psíquico das forças que nos habitam.
Independente de nossa vontade, cultura ou história, temos uma herança comum enquanto espécie: humanos. Essa herança comum, em termos tanto psíquicos quanto emocionais e físicos, nos habita e preenche a vida de sentidos e significados. Todos os povos originários elaboraram narrativas para dar conta de suas questões mais importantes e principalmente das dinâmicas de desejo e realizações dentro de nós e no mundo. Os mitos são as narrativas elaboradas por essas sociedades para dar conta de suas próprias vivências. Nesse ponto os mitos gregos não são diferentes dos mitos yorubás, japoneses ou iroqueses.
A diferença está em uma questão histórica e política. Enquanto os mitos dessas três sociedades anteriores foram historicamente apagados ou considerados de “menor valor” pela sociedade branca europeia – ao longo do período colonial e dos neocolonialismos que reeditaram uma ideia de dominação e opressão da diferença no mundo não-europeu – os mitos gregos foram considerados na maior parte do tempo como ancestrais respeitáveis da narrativa católica.
Mesmo o politeísmo grego arcaico não tendo qualquer relação direta com o monoteísmo de origem judaico-cristã que, por muito tempo, buscou varrer as pluralidades religiosas de boa parte do mundo, ainda assim a mitologia grega permaneceu compreendida – no Ocidente – como uma respeitável herança cultural.
Por isso, quando se encontram vestígios arqueológicos de origem grega, a postura sempre foi de reverência, cuidado, interesse e curiosidade. Daí que temos mais quantidade e melhor preservação de materiais referentes às sociedades gregas arcaicas (no plural mesmo, porque a união da Grécia como um país é um fenômeno relativamente recente) do que o que encontramos em relação a outras sociedades em geral.
Todas as sociedades criam discursos, desenvolvem narrativas para dar conta da incrível experiência de estarmos vivos. Todos os povos procuram um sentido e um significado mais profundo para as vivências pessoais e sociais pelas quais passam. A diferença e a especificidade grega está, em primeiro lugar, no fato de que, por uma decisão político-histórica, se resolveu salvaguardar e respeitar aquilo que viesse dos gregos, ao contrário do que fizeram, no mesmo continente, com as narrativas celtas, galesas e nórdicas, por exemplo, que nos chegaram com muito menos material originário.
A diferença principal é que se todos os povos desenvolveram narrativas sobre sua existência – e aquilo que consideravam de maior importância sagrado – o material originário grego nos chegou com maior quantidade e em melhor estado de preservação, com maior qualidade também.
Outras diferenças interessantes são oriundas dessa escolha política em relação à mitologia grega. Entre elas a elaboração da poesia ocidental, a formação do romance de aventura e de batalha – cujo primeiro referencial é a poesia épica de Homero – o nascimento do teatro ocidental, que originalmente veio das procissões musicadas em honra a Dioniso, os ditirambos, formados por séquitos dessa divindade, o Thiassos.
Afrodite, Adônis, Homero….Quem são os grandes deuses ou personagens gregos?
Stayros Kyriopoulos – Nossa! Que pergunta difícil, hein! Na medida em que os mitos são representações de partes e potenciais da nossa própria vivência psíquica, emocional e cultural, todos eles em diferentes momentos e em diferentes sentidos, coabitam nossas almas, comportamentos e tendências.
Pela minha experiência, penso que quando eu não tenho uma relação de identificação e sintonia muito grande com uma personalidade mitológica – seja uma divindade, heroína ou herói – eu não estou percebendo, vendo ou honrando uma parte de mim mesmo. Vou te dar um exemplo: O mito de Atalanta.
Atalanta é uma heroína que vai entrar em breve no ciclo de Heroínas e Heróis. Ela participou de uma caçada onde se destacou mais que todos os caçadores mais velhos e mais experientes do que ela e conseguiu realizar o feito que nenhum ali antes conseguiu: caçou o Javali sagrado de Ártemis que estava devastando as terras de um rei que não havia mencionado a deusa da caça num ritual que fez para dar graças por uma colheita extraordinária que teve.
Pois bem, Atalanta é uma mulher humana que foi abandonada por seu pai – que só queria filhos homens – e que foi criada numa floresta. Ela se tornou a melhor caçadora de todas porque basicamente foi criada pela própria deusa Ártemis. Mesmo ela tendo sido a principal responsável pela caçada ao Javali da deusa, os outros não quiseram lhe dar o crédito, de maneira que um outro caçador, Meleagro, teve que lutar contra os próprios tios para ajudar Atalanta a receber o reconhecimento que merecia.
Ainda que eu não seja um caçador e ainda que eu não seja uma mulher, é óbvio, para mim, que em alguns contextos da minha vida, eu precisei da ajuda de outras pessoas para ter o meu mérito reconhecido dentro de um meio ao qual eu era estranho. É óbvio que eu já tive momentos em que me senti excluído porque, por algum critério que depende sempre do contexto, eu “não pertencia” e de alguma forma tive que lutar para ter um reconhecimento que me foi negado. E ainda que isso não tenha acontecido comigo de uma forma tão direta a ponto de estar fresco na minha memória, é claro que eu reconheço esse tema como sendo constituinte da história de várias pessoas que eu conheço e vejo ao meu redor.
O mesmo pode se aplicar a Dioniso, Deméter e por aí vai. Vamos a Deméter. A grande ampliação que tenho feito para a apostila da Deméter nos encontros Mito e Mente é o trabalho em cima dos temas contemporâneos do agronegócio. Parece estranho? Oras, Deméter é a deusa dos cereais e da terra cultivada e eu trabalho sobre o simbolismo dos mitos, eu vou colocar essa perspectiva junto com o tema clássico associado a Deméter que é o da faceta “pantanosa” do mitema – mitemas são os temas mitológicos mais comuns – da grande mãe.
Deméter é uma típica grande mãe constelada na faceta pantanosa e, a princípio, como eu sou homem e não mulher, eu estaria impedido (sempre por uma força externa, social) de vivenciar essa faceta em mim. Mas essa é uma leitura privatista e neoliberal do mito (querer que ele seja privatizado por um gênero ou por um grupo), o mito, em essência, é polissêmico e fala de temas que nos permeiam a todos. Então como eu poderia me “conectar” com um mito como Deméter? Oras, eu produzo, eu crio, certo? Produzo encontros, crio apostilas, escrevo textos.
Esses são os meus “filhos”, as minhas “criações”. E em relação a eles eu posso ter uma postura mais autoritária – impedindo que as pessoas tenham contato com eles, indo atrás de cada pessoa que copiar e colar uma frase minha sem mencionar a autoria em redes sociais, etc. Ou posso ter uma postura mais aberta, como uma Tétis (mãe do Aquiles) que criou seu filho para o mundo e deixou que ele escolhesse seu próprio caminho. Inclusive morrer jovem.
Os mais famosos da mitologia grega talvez sejam as divindades que se convencionou falar mais como Zeus, Hera, Atená, Posídon, Apolo, Hades, Ártemis e Perséfone, divindades cuja mera menção já nos ativa complexos e faz o caminho afetivo dos nossos pensamentos se direcionar mais para um lado ou para outro. Eles nos tocam de alguma maneira, mesmo que seja para negar a eles a importância que têm, em seus significados profundos, dentro de nós. Talvez, se pensarmos em mortais, fiquemos pensando em Medéia, Cassandra, Helena, por diferentes motivos ou nos grandes heróis Hércules (Heracles, em grego), Aquiles e Ulisses.
Creio que até a ordem com que lembramos dos mitos fala sobre a ordem dos complexos constelados na nossa mente e na nossa cultura. Isso tudo é sintomático de para onde o nosso pensamento e as nossas emoções estão se movendo. A primeira divindade que tem vem à cabeça quando você pensa em divindades, qual é? E a segunda? Depois dessa vem qual? Precisamos ter consciência de que essa percepção, isso de pensar a primeira que vem à mente, e os que seguem depois, já esboça um direcionamento sintomático de onde estamos e para onde estamos nos movendo intimamente.
A quebra de pratos, a dança e a filosofia grega são parte da cultura milenar do povo grego. Porque quebrar pratos?
Stayros Kyriopoulos – Na antiguidade os gregos acreditavam que o barulho espantava os maus espíritos. Então os recém-casados quebravam os pratos na porta de sua nova casa para espantar estes espíritos. Hoje em dia é uma forma de homenagem aos que dançam e outra explicação seria o desapego aos bens materiais.
Quantas igrejas gregas existem hoje no Brasil e onde estão localizadas?
Stayros Kyriopoulos – No total são 12 igrejas grego ortodoxas canônicas no Brasil. Sendo que duas estão inativas.




