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O site Options, que pertence ao portal The Edge da Malásia, publicou nesta segunda-feira (21), uma entrevista com Ary Norton de Murat Quintella, embaixador do Brasil na Malásia e embaixador não-residente no Brunei.
Ele analisou a amizade entre as duas nações e abordou temas como sobre turismo, cultura e a carreira diplomática.
The Edge: Malásia e Brasil desfrutam de uma longa relação diplomática desde 1959, com suas respectivas embaixadas já estabelecidas há quatro décadas. O que o senhor recomendaria que os malaios experimentassem ao visitar seu país pela primeira vez?
Ary Quintella: De fato, Brasil e Malásia têm desfrutado de uma relação política frutífera e próxima por muitas décadas. Acredito que ambas as sociedades compartilham um interesse mútuo pelos costumes, tradições culturais e belas paisagens uma da outra. Ao turista malaio, eu diria que o Brasil é um país tão grande que as recomendações dependem muito de onde e quando você vai viajar. Se a visita for em fevereiro, sem dúvidas o Carnaval do Rio, Salvador ou Recife; as praias do nordeste em qualquer tempo; as históricas cidades coloniais de Minas Gerais; o fascinante passeio de barco de Manaus a Belém, descendo o rio Amazonas, o maior do mundo; e as Cataratas do Iguaçu, no Paraná, que curiosamente ainda não são muito conhecidas no exterior, embora certamente sejam uma das maravilhas do mundo.
Como as viagens de longa distância continuam difíceis, existe algum lugar que os malaios podem visitar localmente para conhecer o Brasil?
Sim, o KLCC Park. Ele foi projetado por um paisagista brasileiro muito famoso, Roberto Burle Marx, e acredito que esse parque foi seu último projeto. A vegetação da Malásia peninsular também me lembra a Mata Atlântica ao longo da costa brasileira. O KLCC Park é um bom resumo dessa semelhança.
Malaios e brasileiros também compartilham um grande amor pela comida.
Sim, os brasileiros têm um interesse especial pela boa comida. Para qualquer carioca, a feijoada é culturalmente tão importante quanto o nasi lemak para os malaios. Mas acho que é a culinária baiana que os malaios mais apreciariam. É diferente, picante e baseada em frutos do mar. Sugiro que experimentem acarajé, caruru e vatapá. Os turistas malaios certamente apreciarão esses pratos.
Quais foram suas descobertas favoritas da Malásia desde que chegou ao país?
A lista é bastante longa, pois sou apaixonado pela Malásia. Mesmo passados dois anos, tenho um sentimento diário de admiração pela beleza deste país, mas vou falar de cinco coisas: a simpatia e generosidade dos malaios, algo que nunca deixa de me surpreender; a deslumbrante variedade de culturas, todas novas para mim; um livro, os Anais Malaios; o Museu de Artes Islâmicas da Malásia, sobre o qual escrevi para uma revista brasileira; e a fruta durian, que me tornei viciado. Minha mãe está visitando no momento e ela também desenvolveu um grande gosto pelo durian. Não vou mencionar nenhum estado ou cidade específica, pois acho que isso seria injusto. Nunca estive em nenhum lugar na Malásia que eu não gostasse.
O senhor também é um escritor prolífico, tratando de muitas histórias interessantes sobre a vida e a cultura em seu site pessoal, aryquintella.com, ao mesmo tempo em que contribui para muitas publicações no Brasil e na Malásia. O que inspirou esse amor por escrever?
Meu pai era um escritor e meu avô era um conhecido matemático. Duas ou três gerações de brasileiros cresceram estudando matemática com seus livros. Então, acredito que desde cedo vivia cercado de um compromisso com o aprendizado. A família da minha esposa também é de acadêmicos. E como minha mãe era diplomata, meus dois irmãos e eu crescemos em culturas diferentes, isso serviu de desafio e estímulo.
Que livro o senhor está lendo agora?
Um novo romance, Palmares, do escritor americano Gayl Jones, ambientado no nordeste do Brasil no século XVII. O autor trouxe aquele tempo e lugar de volta à vida. O assunto, porém, é difícil, pois trata das realidades da escravidão e do colonialismo. Também planejo ler mais ficção de autores da Malásia. Em 2019, enquanto me preparava para a audiência no Senado em que seria confirmado como embaixador em Kuala Lumpur, comecei a ler sobre história, economia e política da Malásia, mas pouca ficção até agora. Como estrangeiro, sei que há muito para descobrir, tanto na l´íngua bahasa quanto em inglês, e estou aberto a sugestões.
Sua família também é formada por diplomatas ilustres, sendo sua mãe a primeira aluna do Instituto Rio Branco a se tornar embaixadora de carreira, enquanto sua esposa Eugenia atualmente é embaixadora em Cingapura. Conte-nos um pouco sobre o instituto, por que foi criado e que conselhos você daria aos jovens que desejam ingressar no corpo diplomático.
O Instituto Rio Branco foi fundado em 1945 para garantir que os candidatos ao ingresso no Ministério das Relações Exteriores o fizessem exclusivamente por mérito. Os vestibulares são notoriamente difíceis e o instituto também ajuda os recém-chegados a se adaptarem ao ministério e à vida como servidores públicos. Bons diplomatas precisam ter amor por seu país e um espírito resiliente, pois a ascensão na carreira é difícil e demorada. Ou, pelo menos, é assim no serviço de relações exteriores brasileiro, do qual você só pode ingressar como Terceiro Secretário. É preciso estar preparado para viver longe de sua família e das pessoas que você mais gosta.
De fato, a pandemia me trouxe isso à mente, pois fiquei dois anos sem ver minha filha, minha mãe e minha irmã, e só consegui ver minha esposa muito ocasionalmente – duas vezes nos últimos dois anos. No final das contas, ser um diplomata exige que você seja capaz de confiar principalmente em si mesmo e confiar em suas convicções. O trabalho, porém, muitas vezes é bastante empolgante e ser diplomata enriquece sua experiência de vida. Estes dois últimos anos na Malásia, país tão diverso e cheio de riqueza cultural, são um bom exemplo dos benefícios que se podem tirar de uma vida diplomática. A Malásia me trouxe muita felicidade.




