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Reflexões sobre os dilemas éticos levantados pelo uso da inteligência artificial na segurança internacional, os objetivos e interesses a que o desenvolvimento tecnológico servirá, as ameaças decorrentes da concentração de conhecimento no setor e as possibilidades de cooperação na área marcaram os debates da XXIII Conferência de Segurança Internacional do Forte, realizada nos dias 16 e 17 de junho no Rio de Janeiro. A edição de 2026 do maior fórum de segurança internacional da América Latina teve como tema “Reprogramando o Poder: Tecnologia e Geopolítica em um mundo fragmentado” e se debruçou sobre o uso estratégico da tecnologia como instrumento de poder, controle e dissuasão, bem como suas implicações mais amplas para a segurança global e a democracia.
Iniciativa da Fundação Konrad Adenauer (KAS-Brasil) em parceria com o Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI) e a Delegação da União Europeia no Brasil, o evento reuniu autoridades, diplomatas, representantes das forças armadas e acadêmicos da América Latina e Europa para debater desafios e perspectivas das relações internacionais. A Conferência foi transmitida online com tradução simultânea em português, inglês, espanhol e Libras.
“Estamos em um momento crítico para a paz mundial. Conflitos globais, tensões geopolíticas e transformações tecnológicas estão moldando o nosso tempo de forma inédita. As inovações vêm redefinindo o poder, a soberania e a cooperação, questões refletidas no programa desta edição da Conferência, que aborda governança global, democracia, desinformação e defesa. Por isso, é fundamental intensificar o diálogo entre o Brasil e a América Latina, assim como entre a Alemanha e a Europa. Todos nós somos impactados, de uma forma ou de outra, pelos desenvolvimentos atuais. Segurança é um tema global – e deve ser discutido nesse nível”, ressaltou Maximilian Hedrich, Diretor da Fundação Konrad Adenauer (KAS) no Brasil, que abriu o evento ao lado de José Pio Borges, Presidente do Conselho Curador do CEBRI, e de Marian Schuegraf, Embaixadora da Delegação da União Europeia no Brasil.
Os painéis
O painel inicial, “Do Equilíbrio à Ruptura: Tecnologia e o Futuro do Poder Global”, introduziu diversos aspectos relevantes do tema e deu o tom do evento. Contundente, Celso Amorim, Assessor-Chefe de Política Externa da Presidência da República do Brasil, definiu como um clichê dizer que a tecnologia traz desafios e oportunidades em igual medida, sublinhando a ameaça representada pelo desenvolvimento de armas autônomas em um contexto em que o constrangimento pelo uso da força deixou de existir.
“O uso da força letal se torna cada vez mais impessoal ao operador. A culpa desaparece. Nenhuma máquina deveria ter a possibilidade de optar por tirar a vida de um ser humano. A IA pode alimentar uma cultura em que o inimigo é reduzido a um dado e as vítimas, a um dano colateral. São questões que não podem ser analisadas apenas de maneira abstrata. Mulheres e crianças foram objeto de um verdadeiro genocídio em Gaza”, ilustrou ele, parafraseando os papas Francisco e Leão XIV para ressaltar o dilema moral imposto pela inovação.
Afirmando que a concentração de poder pode minar a democracia e agravar as desigualdades, o ex-chanceler defendeu a legítima regulação das big techs pelos Estados e um desenvolvimento tecnológico voltado para a redução da pobreza, a conservação do meio ambiente e a garantia dos direitos humanos: “Viver em um mundo em que há trilionários enquanto mais de 700 milhões passam fome não é aceitável”, completou.
Já Anna-Kaisa Heikkinen, Diretora-Geral do Departamento para a América Latina, Oriente Médio e África do Ministério das Relações Exteriores da Finlândia; e Henning Speck, Chefe de Gabinete do Ministério das Relações Exteriores da Alemanha, reforçaram a importância da cooperação tecnológica entre América Latina e Europa. “A pergunta não é quem controla a tecnologia, mas a que valores ela serve”, disse Anna-Kaisa. A mediação coube a Diego Schalper, membro da Câmara dos Deputados do Chile.
O painel seguinte, “Governança Global na Era da Disrupção: Multilateralismo, Inovação e Autonomia Estratégica”, debateu a parceria internacional diante dos desafios tecnológicos contemporâneos, como a inteligência artificial. Benedikt Franke, CEO da Conferência de Segurança de Munique, vislumbra nesta matéria uma oportunidade de fortalecimento dos órgãos de cooperação. “A Governança Global vai estar morta se não tivermos um projeto em comum, e a tecnologia pode ser esse campo. Se tratarmos esses avanços de forma individual, estaremos perdidos. É preciso revitalizar o multilateralismo a partir dessa pauta”, defendeu. Mediada por Simone de Manso, ex-assessora de Imprensa da OTAN, a mesa contou ainda com a participação de Iñigo Guevara Moyano, Diretor-Geral da Janes Strategic Services, e de Vinicius de Carvalho, Professor de Estudos Brasileiros e Latino-Americanos no Departamento de Estudos de Guerra do King’s College de Londres.
O impacto da tecnologia nos sistemas políticos foi o cerne do painel “Inteligência Artificial e Democracia: Entre Inovação e Erosão Institucional”, em que a pesquisadora sênior do CEBRI e professora da PUC SP Dora Kaufman avaliou como as inovações podem gerar um ambiente de descrença na sociedade: “É difícil ter um ambiente democrático onde as pessoas não confiam nas instituições e nas informações. A gente cresceu com a máxima de a imagem valer mais do que mil palavras, mas o que a IA generativa está fazendo, entre outros malefícios, é colocar isso em dúvida”. Moderado pelo professor da FGV Leonardo Paes Neves, o debate contou ainda com o professor e doutor Eduardo Magrani, afiliado do Berkman Klein Center da Universidade de Harvard, e Omar Paganini, ex-ministro das Relações Exteriores do Uruguai.
O segundo dia de evento, 17, começou com o painel “Defesa e Inovação: Um Alerta para Europa e América Latina”, que discutiu como desenvolver a IA promovendo tanto inovação quanto segurança. Nele, a Diretora de Segurança da Informação do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), Danielle Ayres, defendeu o uso das tecnologias a partir de uma perspectiva ética e de respeito ao Direito Internacional: “A América Latina não deve lidar com as novas tecnologias de forma passiva, especialmente em relação à defesa. Precisa olhar para elas sob as perspectivas de infraestrutura de poder e de capacidade de defesa e autonomia. Não podemos ser ingênuos, mas também não podemos usar as tecnologias de forma acrítica”. A conversa, mediada pela embaixadora da Suécia no Brasil, Karin Wallensteen, também teve as participações da Diretora do Comitê de Ciência e Tecnologia da Assembleia Parlamentar da OTAN, Brynja Oskarsdottir, e do CEO da Viveo no Brasil, André Clark.
A mineração e gestão estratégica das terras raras, insumos cruciais na cadeia produtiva da tecnologia, estiveram em foco no painel “Minerais Estratégicos e Soberania: A Nova Geopolítica das Terras Raras”, moderado por Loana von Gaevernitz Lima, Diretora Executiva da Câmara de Comércio e Indústria Brasil-Alemanha no Rio de Janeiro. Ex-Ministra da Justiça e dos Direitos Humanos do Peru, Marisol Pérez Tello mencionou o tempo, a capacidade das instituições e uma cooperação internacional equilibrada, entre iguais, como aspectos-chave para que a América Latina se posicione neste mercado, mas fez um alerta. “A pergunta central não é quantos recursos temos, mas se teremos instituições e financiamento suficientes para que estes recursos se transformem em desenvolvimento. Não apenas econômico. Social é ético também. Seu valor final dependerá da legitimidade das nossas decisões”, disse ela, complementando em seguida: “Quem definirá as regras do jogo e ficará com o valor agregado? Só com este equilíbrio será possível converter essa transição histórica em uma oportunidade compartilhada de avanço e não em uma nova forma de dependência”.
Ao lado de Maciej Filip Bukowski, Diretor do Programa de Energia e Resiliência do Fórum de Segurança de Varsóvia, Rafaela Guedes, CEO da RG Impact, antecipou dados do estudo que será apresentado pelo governo brasileiro sobre o potencial do país na área: “Se todos os projetos anunciados nesse setor vingarem, nós passaríamos a produzir 38 mil toneladas em cerca de quatro anos, o que representaria 10% do consumo global atual”.
Encerrando a 23ª Conferência do Forte, o painel “Novas Tecnologias e Guerra Contemporânea: Drones, Sistemas de Armas Autônomas Letais (SAAL) e Inteligência Artificial” avaliou como os Estados vêm lidando com os impactos da tecnologia no setor da segurança. Com mediação da professora da Universidade Lusófona de Lisboa Sabrina Medeiros, a mesa recebeu Igor Marchesini, Senior Fellow do CEBRI; o diretor de Programas do Fórum de Segurança de Varsóvia, Tomasz Smura; e o professor do Departamento de Estudos de Guerra do King’s College de Londres Peter Neumann, que chamou a atenção para a necessidade de os países assumirem seus papéis de liderança e organização social diante de um cenário de rápidas e profundas inovações. “Estamos num meio de uma revolução tecnológica. Precisamos adaptar as regulações para lidar com isso”, disse.
Uma novidade marcou esta edição do evento. Em formato de entrevista, a jornalista Leila Sterenberg e o cientista-chefe da TDS.company, Silvio Meira, conversaram sobre inovação, democracia e futuro. O público também acompanhou dois flashtalks, apresentações-solo introduzidas em 2025: a pesquisadora sênior do CEBRI Larissa Wachholz discorreu sobre o posicionamento estratégico do Brasil e da América Latina diante das transformações econômicas e geopolíticas globais; e Steven Everts, Diretor do Instituto Europeu de Estudos de Segurança abordou a autonomia de defesa do Velho Continente em um mundo fragmentado.
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