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A Embaixada da República Socialista do Vietnã no Brasil realizou, na sexta-feira, 21 de agosto, em Brasília, um seminário e conferência de imprensa dedicado às relações entre Vietnã e Brasil. O encontro reuniu representantes da imprensa e convidados interessados no fortalecimento da parceria bilateral.
Durante o evento, o embaixador do Vietnã no Brasil, Bùi Văn Nghị, apresentou um panorama das transformações econômicas e sociais vivenciadas pelo país ao longo das últimas quatro décadas, as diretrizes da política externa vietnamita para os próximos anos e as perspectivas para o aprofundamento da Parceria Estratégica entre Vietnã e Brasil.
A atividade ocorre em um momento de importância para o Vietnã, que se prepara para celebrar, em 2 de setembro, o 81º aniversário da Revolução de Agosto e do Dia Nacional, além de marcar quatro décadas do processo de Renovação, conhecido como Đổi Mới. O país também iniciou a implementação das diretrizes estabelecidas pelo XIV Congresso Nacional do Partido Comunista do Vietnã.
Quatro décadas de transformação
Em sua apresentação, o embaixador Bùi Văn Nghị ressaltou que os 40 anos de Renovação transformaram profundamente a economia vietnamita. Segundo ele, o país deixou de ser uma economia marcada por grandes dificuldades para se tornar uma economia dinâmica, aberta e cada vez mais integrada às cadeias internacionais de comércio e produção.
O diplomata destacou avanços na infraestrutura, na capacidade produtiva, na ciência e tecnologia e na formação de recursos humanos, além da melhoria das condições de vida da população.
De acordo com os dados apresentados pelo embaixador, nos primeiros sete meses de 2026, a produção industrial vietnamita cresceu 11,4%, enquanto as vendas varejistas de bens e as receitas de serviços aumentaram 13,1%. O investimento estrangeiro direto registrado alcançou US$ 38,06 bilhões, crescimento de 58%.
No mesmo período, a corrente de comércio exterior chegou a US$ 659,58 bilhões, alta de 28,1%. O Vietnã recebeu 13,9 milhões de visitantes internacionais, crescimento de 13,8%, enquanto a arrecadação pública aumentou 16%.
O embaixador também reconheceu desafios, entre eles as pressões inflacionárias, com alta média de 4,39% no Índice de Preços ao Consumidor (IPC), e o crescimento de 7,6% no número de empresas que deixaram o mercado.
Para enfrentar esses desafios, o Vietnã aposta na ciência, tecnologia, inovação e transformação digital como motores do desenvolvimento, além da transição verde, da economia circular, da qualificação profissional e do aperfeiçoamento institucional.
Política externa baseada em independência e multilateralismo
Outro ponto central da apresentação foi a política externa vietnamita. Bùi Văn Nghị afirmou que o país continuará orientando sua atuação pelos princípios de independência, autonomia, paz, cooperação e desenvolvimento.
O Vietnã, segundo o embaixador, pretende manter uma política de diversificação e multilateralização das relações internacionais, buscando atuar como parceiro confiável e membro ativo e responsável da comunidade internacional.
O diplomata defendeu o respeito à Carta das Nações Unidas e ao direito internacional, a solução pacífica de conflitos, o diálogo e a cooperação baseada em benefícios mútuos.
Bùi Văn Nghị também destacou a participação vietnamita em organismos e mecanismos multilaterais, como as Nações Unidas, a ASEAN e o BRICS. A entrada do Vietnã como país parceiro do BRICS, em 2025, segundo o embaixador, abriu novas possibilidades de cooperação com o Brasil e outras economias emergentes em áreas como desenvolvimento, comércio, finanças, inovação e reforma da governança global.
Parceria Estratégica Brasil-Vietnã
A relação bilateral ocupou lugar de destaque no seminário. Vietnã e Brasil estabeleceram relações diplomáticas em maio de 1989 e, ao longo de mais de três décadas, ampliaram os vínculos políticos, econômicos e culturais.
Um dos principais marcos recentes foi a elevação das relações ao nível de Parceria Estratégica, em novembro de 2024. Com a decisão, o Brasil tornou-se o primeiro parceiro estratégico do Vietnã na América do Sul.
A visita de Estado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao Vietnã, em março de 2025, também foi apontada como um importante impulso para a relação bilateral.
Os dois países estabeleceram a meta de elevar o comércio bilateral para US$ 15 bilhões até 2030.
Segundo dados apresentados pelo embaixador, nos primeiros sete meses de 2026, a corrente de comércio entre Vietnã e Brasil alcançou US$ 5,49 bilhões, crescimento de 23% em relação ao mesmo período de 2025.
As exportações vietnamitas para o Brasil chegaram a US$ 2,18 bilhões, alta de 42%, enquanto as importações provenientes do Brasil alcançaram US$ 3,31 bilhões, crescimento de 13%. O déficit comercial vietnamita foi de US$ 1,12 bilhão, mas apresentou redução de aproximadamente US$ 265 milhões em comparação com o mesmo período do ano anterior.
A estrutura comercial foi apresentada como complementar. O Vietnã exporta principalmente produtos industriais processados, eletrônicos, máquinas, veículos e bens de consumo, enquanto importa do Brasil produtos agrícolas, minerais e insumos utilizados pelas indústrias vietnamitas.
Oportunidades para investimentos e inovação
O embaixador destacou que a relação bilateral não deve se limitar ao comércio de mercadorias. Segundo ele, os dois países possuem condições para avançar em cadeias produtivas, joint ventures, transferência de tecnologia e projetos conjuntos de pesquisa.
O Brasil apresenta vantagens em setores como agricultura, energia, mineração, aviação e biotecnologia, enquanto o Vietnã possui forte presença nas áreas de manufatura, eletrônicos, têxteis, processamento de alimentos, produtos pesqueiros e transformação digital.
A Embaixada do Vietnã informou que, no segundo semestre de 2026, pretende concentrar esforços em áreas capazes de gerar resultados concretos, incluindo comércio e investimentos, transformação digital, educação, formação profissional e cooperação em segurança e combate à criminalidade.
O trabalho deverá envolver o governo federal, governos estaduais e municipais, Congresso Nacional, universidades, centros de pesquisa e organizações de amizade.
PCdoB defende ampliação do diálogo político
Durante o encontro, a assessora internacional do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), Ana Preste, destacou a dimensão histórica da relação entre os comunistas brasileiros e o Vietnã.
Em sua intervenção, ela lembrou que o país asiático se tornou uma referência para diferentes gerações de militantes brasileiros por sua luta pela independência, soberania e reunificação nacional.
Ana Preste também ressaltou a importância do processo de Đổi Mới e da transformação econômica e social do Vietnã, apontando a experiência vietnamita como relevante para o debate sobre desenvolvimento, soberania nacional e inserção dos países do Sul Global na economia internacional.
Para a representante do PCdoB, a relação entre Brasil e Vietnã deve avançar para além da memória histórica, incorporando novas áreas de cooperação, como ciência e tecnologia, educação, agricultura, transição energética, economia digital e indústria.
Ela defendeu a institucionalização de um diálogo mais frequente entre o PCdoB e o Partido Comunista do Vietnã, com intercâmbios entre dirigentes, departamentos internacionais, organizações de juventude e mulheres, além da realização de seminários conjuntos entre universidades, fundações e centros de pesquisa.
Ana Preste também destacou a importância da diplomacia partidária para aproximar os setores econômicos dos dois países e mencionou as negociações entre o Mercosul e o Vietnã para um possível Acordo de Comércio Preferencial.
Cooperação Sul-Sul
A representante brasileira defendeu ainda o fortalecimento da cooperação entre América Latina e Sudeste Asiático e uma maior coordenação entre países do Sul Global.
Segundo ela, Brasil e Vietnã compartilham interesses relacionados à defesa do multilateralismo, do direito internacional, da paz e da soberania dos povos.
A ampliação dos intercâmbios culturais e educacionais também foi apontada como prioridade, incluindo bolsas de estudo, cooperação universitária, ensino das línguas portuguesa e vietnamita, intercâmbios culturais, turismo e colaboração entre meios de comunicação.
Pontes para uma parceria estratégica e sustentável
O representante brasileiro Pedro de Oliveira, Secretário-Geral da Associação de Amizade Brasil-Vietnã participou do seminário com uma apresentação intitulada “Brasil e Vietnã — Construindo Pontes para uma Parceria Estratégica e Sustentável”.
Em seu discurso, ele ressaltou que a transformação das relações bilaterais de uma parceria abrangente para uma Parceria Estratégica representa mais do que uma mudança diplomática. Para ele, trata-se do reconhecimento de interesses convergentes entre os dois países.
Pedro destacou o papel da Associação de Amizade Brasil-Vietnã (Abraviet), das câmaras de comércio, das embaixadas e dos ministérios dos dois países na aproximação entre empresários, acadêmicos e representantes da sociedade civil.
Entre os setores com maior potencial de cooperação, citou agronegócio e segurança alimentar, inovação, tecnologia verde, telecomunicações, integração regional, comércio, cooperação multilateral, ciência e tecnologia e intercâmbio entre universidades e centros de pesquisa.
Segundo ele, a complementaridade das duas economias cria oportunidades para investimentos conjuntos e desenvolvimento de novas cadeias produtivas.
O representante brasileiro também defendeu a ampliação da cooperação em áreas como produção de vacinas e medicamentos veterinários, agricultura, finanças, setor espacial e defesa.
Cultura e conhecimento mútuo
A dimensão cultural também foi destacada durante o encontro. Os participantes ressaltaram a necessidade de ampliar o conhecimento recíproco entre as sociedades brasileira e vietnamita.
A história do líder vietnamita Ho Chi Minh foi mencionada como parte do legado que aproxima os dois países. O discurso também destacou a importância de apresentar ao público brasileiro o Vietnã contemporâneo, marcado pelo crescimento industrial, desenvolvimento tecnológico e integração às cadeias internacionais.
Da mesma forma, foi defendida uma maior divulgação do Brasil no Vietnã, contribuindo para o fortalecimento do turismo, dos intercâmbios acadêmicos e das relações culturais.
Imprensa como ponte entre os dois países
Em seu discurso, o embaixador Bùi Văn Nghị atribuiu à imprensa um papel estratégico na aproximação entre brasileiros e vietnamitas.
Segundo ele, embora a distância geográfica entre os dois países seja significativa, o desconhecimento mútuo pode ser reduzido por meio de informações precisas, objetivas e acessíveis.
O embaixador afirmou que a Embaixada pretende ampliar o diálogo com os meios de comunicação brasileiros, fornecer informações em tempo hábil e facilitar iniciativas destinadas a aproximar os dois povos.
“A distância geográfica entre o Vietnã e o Brasil é grande, mas a distância no conhecimento mútuo pode ser reduzida”, destacou o diplomata.
Ao encerrar sua participação, Bùi Văn Nghị agradeceu ao governo brasileiro, ao Congresso Nacional, aos governos locais, às empresas, universidades, instituições de imprensa e organizações da sociedade civil pela cooperação e amizade com o Vietnã.
O embaixador manifestou confiança de que a Parceria Estratégica Brasil-Vietnã continuará avançando, apoiada pela convergência política, pela complementaridade econômica e pela disposição dos dois países em ampliar a cooperação.
Encontro termina com almoço de confraternização
Após as apresentações e os debates, o encontro foi encerrado com um almoço oferecido pela Embaixada do Vietnã, que proporcionou aos convidados a oportunidade de conhecer um pouco mais da rica e diversificada gastronomia vietnamita.
O momento de confraternização reforçou o caráter de aproximação cultural do evento e encerrou uma manhã dedicada ao diálogo, à cooperação e às novas perspectivas para as relações entre Brasil e Vietnã.
A conferência deixou como mensagem central a necessidade de transformar a histórica amizade entre os dois países em projetos concretos, investimentos, intercâmbios, inovação e novas oportunidades para brasileiros e vietnamitas. A Parceria Estratégica, estabelecida em 2024, surge, assim, como uma plataforma para uma relação bilateral cada vez mais ampla, sustentável e orientada para resultados.
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