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Ela é baiana de Salvador e estudou alguns períodos de Arquitetura, trancou a faculdade e começou a se dedicar à arte. Fez cursos de aquarela, de mercado da Arte, de geometria, arte islâmica e caligrafia árabe artística. Hoje, mora em São Bernardo dos Campos (SP). Maryam faz cada vez mais sucesso com seus delicados e exuberantes trabalhos.

As obras da artista estão em diversos estados do Brasil, como no Rio de Janeiro, em São Paulo, Minas Gerais, Brasília, dentre outros lugares, e também em outros países, como Turquia, Reino Unido e Austrália.

À medida que Maryam percebeu que sua arte estava se tornando sua profissão, passou a investir nos melhores materiais do mercado para trazer o máximo de qualidade para o resultado das obras. “Isso faz toda a diferença, pois garante a longevidade das obras. As tintas que eu uso são de origem holandesa. As folhas de ouro eu compro da Alemanha. Há também vários materiais profissionais que eu compro de marcas brasileiras”, explica.

Através da arte, Maryam diz que pode mostrar às pessoas que o Alcorão, “ao contrário do que muitos pensam, não prega ódio, e suas palavras, mesmo quando não entendidas, fazem emocionar os corações”. Veja a entrevista que a artista concedeu exclusivamente ao Diplomacia Business.

Diplomacia Business – Você é brasileira, de Salvador, como nasceu seu despertar para o islamismo?

Maryam Souza – Desde criança eu sempre tive um interesse por religiões e sempre busquei uma conexão com Deus. Nessa busca, sempre sentia que faltava algo, não encontrava respostas para todas as perguntas que eu tinha. Até que, quando eu tinha 17 anos, conheci uma muçulmana brasileira que usava hijab. Fiquei curiosa sobre o porquê do uso do hijab, já que até então eu nunca havia ouvido falar sobre o Islam.

Minha curiosidade me levou a fazer diversos questionamentos a essa amiga, no que ela me respondeu prontamente e ainda me deu um livro cujo nome era “a mulher no Islam”. Devorei o livro no mesmo dia e no outro dia voltei com ele grifado para fazer mais perguntas. Esse foi o início de uma busca contínua. Prossegui com meus estudos através de outros livros e de artigos que encontrava na Internet, até que me senti totalmente pronta para fazer a conversão ao Islam. Uma vez feito o testemunho de fé, busquei conhecimento sobre tudo o que diz respeito às práticas diárias da religião e poucos meses depois comecei a usar o hijab.

Como o Islam influencia sua arte?

Maryam Souza – O Islam influencia a minha arte de todas as maneiras possíveis. Minhas principais ideias surgiram após eu ler algum versículo do Alcorão, ouvir alguma palestra ou livros islâmicos. Quando algum texto toca profundamente minha alma, tenho a necessidade imediata de trazer meus sentimentos para o mundo físico através da Arte.

Você parece ter feito da pandemia uma oportunidade para se fortalecer como artista. Você fez do limão uma limonada?

Maryam Souza – Eu diria que sim. Antes da pandemia eu nunca havia tido uma conta no Instagram. Então resolvi me aventurar e comecei a postar, de forma totalmente despretensiosa, algumas aquarelas que eu fazia. Até então, eu não tinha tido contato com a arte islâmica, mas com o passar dos dias em pandemia, o tempo que eu me mantive em casa com minha família me fez olhar mais atentamente para tudo o que me rodeava. Detalhes – que eu nunca havia reparado antes – se tornaram interessantes para mim, como foi o caso dos ornamentos das páginas do meu alcorão que me despertou o primeiro interesse pela arte islâmica.

O Alcorão está presente em algumas das suas obras? Como é essa conexão entre arte e religião?

Maryam Souza – Sim, na maioria delas, de forma direta (com versículos claros do Alcorão) e de forma indireta (com elementos que fazem menção ao Alcorão). Pelo fato de eu ser muçulmana, minha arte e minha religião se conectam diretamente porque fazem parte de quem eu sou. Como artista, retrato o que sinto, o que penso e o que sou, e o Islam faz parte de mim. Por isso, é inevitável que ele esteja presente em absolutamente tudo que eu digo, penso ou falo.

Os materiais que você usa muitas vezes são caros. Eles vêm de onde? Como você seleciona esses materiais?

Maryam Souza – À medida que eu percebi que minha arte estava se tornando minha profissão, eu investi nos melhores materiais do mercado para trazer o máximo de qualidade para o resultado das minhas obras, e isso faz toda a diferença, pois garante a longevidade das obras. Eu compro muitos materiais em papelarias especializadas em materiais profissionais para artistas. As tintas que eu uso são de origem holandesa. As folhas de ouro compro da Alemanha. Há também vários materiais profissionais que eu compro de marcas brasileiras, como os pincéis da marca Keramic, que possuem um excelente custo-benefício. Os cristais eu trouxe para as minhas obras para trazer delicadeza e sofisticação, eles fazem toda a diferença no resultado estético e acabaram se tornando uma marca do meu trabalho.

Como as pessoas, inclusive de outros países, tiveram e continuam tendo acesso ao seu trabalho?

Maryam Souza – A maior parte dos meus clientes vieram através do Instagram, por meio de compartilhamentos do meu trabalho, outra parte veio através da minha primeira exposição individual. O fato de a arte islâmica ser algo novo no Brasil acaba chamando bastante a atenção de várias pessoas, que me seguem para acompanhar os processos criativos que compartilho, e acabam comprando em algum momento uma obra.

Você estuda a caligrafia árabe. É difícil? O que de mais especial existe nessa caligrafia e também nos desenhos geométricos presentes em sua arte?

Maryam Souza – É difícil, mas a prática constante vai tornando tudo mais familiar e consequentemente fácil. Eu ainda tenho muito o que aprender sobre caligrafia, mas tenho me dedicado bastante aos estudos dessa técnica para me aprimorar cada vez mais.

O que mais torna especial a caligrafia árabe para mim é sua ligação direta com a preservação do Alcorão e a expansão do Islam. Em uma época que era incomum a escrita, os muçulmanos, com a necessidade de preservar o Alcorão, trouxeram tal prática de volta para as civilizações e posteriormente a expandiram para o mundo todo. Assim também é o que aconteceu com os desenhos geométricos e bifórmicos, uma forma que os artistas da época encontraram para ornamentar as páginas do Alcorão, algo que se fazia para demonstrar a importância e nobreza de algo.

Quantas exposições você já realizou e como foram essas experiências?

Maryam Souza – Minha primeira exposição aconteceu no Golden Square Shopping, em São Bernardo do Campo, de 29/08/21 a 28/11/21. Foi uma exposição individual que contou com 12 obras expostas, sendo a principal delas, a obra “Al Kursi”. Essa obra teve grande importância na exposição porque através dela os visitantes puderam ouvir o versículo do Trono. Eu pude ver dezenas de pessoas se emocionarem ao ouvir o Alcorão pela primeira vez.

Foi extremamente importante para mim, porque através da minha arte eu pude mostrar às pessoas que o Alcorão, ao contrário do que muitos pensam, não prega ódio, e suas palavras mesmo quando não entendidas, fazem emocionar os corações. Ao lado da obra eu coloquei a tradução do versículo que era tocado no áudio, e foi uma surpresa para muitas pessoas que o Deus dos muçulmanos é o mesmo Deus no qual eles acreditam.

A segunda exposição foi “Arte e Mulher”, que aconteceu na Art Lab Gallery, Oscar Freire, de 10/03 a 19/03. Foi uma exposição coletiva que contava apenas com mulheres artistas, na qual eu participei com duas obras. Foi muito legal dividir espaço com tantas artistas talentosas. No momento estou em cartaz com a exposição coletiva “Lugares existenciais”, no Shopping Via Parque, Rio de Janeiro, onde participo com duas obras.

A próxima mostra será onde e quando? Serão exibidos quantos tapetes? Por gentileza, fale-nos sobre eles.

Maryam Souza – A próxima exposição acontecerá no Golden Square Shopping, será uma exposição individual. Ainda não tenho o número exato de obras que estarão expostas, mas o projeto é fazer diversos tapetes que representam cada uma das orações dos muçulmanos, sendo a principal dela a obra “no último terço da noite”, a qual faz menção ao horário da noite onde os muçulmanos se voltam em súplicas e pedidos de perdão a Deus. Essa obra terá o tamanho real de um tapete, uma estimativa de 2m x 1,5m, e será exposta no chão. É um projeto que eu estou muito empenhada para que dê certo, se Deus permitir.

Quais são seus próximos projetos?

Maryam Souza – Além da próxima exposição, tenho o projeto de criar um curso para ensinar minhas técnicas artísticas, pois é algo que sempre me pedem, e ensinar minha arte é uma meta profissional, assim como viajar para países que são o berço da Arte Islâmica para estudar e me aprimorar.

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