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A Residência Oficial da Bélgica, em Brasília, sediou um encontro especial em celebração à 5ª edição da Semana da Língua Neerlandesa 2026, iniciativa que reúne Bélgica, Países Baixos e Suriname em torno de um idioma que, além de ser uma ferramenta de comunicação, representa identidade, cultura, história e aproximação entre diferentes povos.
Realizado pelo quinto ano consecutivo, o encontro reuniu os embaixadores da Bélgica, dos Países Baixos e do Suriname no Brasil, além de professores, estudantes e representantes da Universidade de Brasília (UnB). A programação destacou a importância do ensino e da preservação da língua neerlandesa e ressaltou seu papel como instrumento de intercâmbio cultural, acadêmico e diplomático.
Anfitrião da noite, o Embaixador da Bélgica no Brasil, Chris Hoornaert, destacou o caráter especial do encontro e a sensação de uma reunião anual entre amigos e parceiros que compartilham não apenas o idioma, mas também o interesse em promover o diálogo entre culturas.
“É um grande prazer recebê-los para mais uma edição da Semana da Língua Neerlandesa”, afirmou o embaixador ao dar as boas-vindas aos convidados.
Segundo Hoornaert, a língua neerlandesa cria uma ligação especial entre os três países. No caso da Bélgica, ele lembrou que o neerlandês convive com o francês e o alemão, que também são línguas oficiais do país.
O embaixador também parabenizou professores e estudantes que se dedicam ao aprendizado do idioma e ressaltou que conhecer uma língua significa descobrir um universo que vai além da gramática e do vocabulário, envolvendo literatura, criatividade, curiosidade e diferentes formas de expressão.
Ao falar sobre a riqueza do neerlandês, Hoornaert destacou suas variantes regionais e dialetos, além dos diferentes campos em que o idioma é utilizado, como a linguagem diplomática, administrativa e jurídica, a tradição marítima e a literatura.
“Uma língua é também um espaço de encontro, diálogo e troca”, afirmou.
O embaixador também mencionou a União da Língua Neerlandesa (Nederlandse Taalunie), organização criada em 1980 pela Bélgica e pelos Países Baixos e posteriormente ampliada com a participação do Suriname. A instituição atua no fortalecimento e na promoção da língua neerlandesa, contando também com instituições voltadas à pesquisa linguística e à elaboração de dicionários de referência.
Para Hoornaert, a diversidade é justamente um dos elementos que tornam a comunidade neerlandófona tão rica. Cada falante contribui com seu sotaque, suas expressões, sua história e sua cultura, fazendo da língua um importante elemento de identidade e pertencimento.
Ao concluir sua fala, o embaixador recorreu às palavras do linguista Marten van der Meulen: “A língua é um jogo. O jogo é amor. O amor é festa. A língua é festa.”
Com bom humor, encerrou desejando que a noite fosse uma verdadeira celebração e brincou com a expressão neerlandesa “banho de língua”, recomendando aos presentes que não a levassem ao pé da letra.
O neerlandês como língua viva e em constante transformação
O Embaixador dos Países Baixos no Brasil, Aldrik Gierveld, também destacou a importância da celebração e agradeceu à Bélgica e ao Suriname pela parceria na realização da Semana da Língua Neerlandesa.
Segundo Gierveld, cerca de 26 milhões de pessoas falam neerlandês no mundo, mantendo o idioma em constante movimento e transformação.
O embaixador ressaltou que a língua está aberta a influências de outros idiomas e incorporou, ao longo do tempo, palavras utilizadas internacionalmente. Para ele, essa capacidade de adaptação é uma das características do neerlandês.
“As redes sociais fazem com que tudo isso aconteça hoje mais rapidamente do que nunca”, observou.
Gierveld também chamou atenção para a diversidade de sotaques, expressões e formas de falar presentes nos Países Baixos, na Bélgica e no Suriname. De Paramaribo a Maastricht, e de Groningen a De Panne, diferentes variedades linguísticas convivem dentro de uma mesma comunidade.
“É justamente essa diversidade que torna o neerlandês tão vivo. E devemos nos orgulhar disso”, afirmou.
O embaixador também destacou a relação entre os países neerlandófonos e o Brasil. Segundo ele, dezenas de milhares de brasileiros vivem nos Países Baixos, na Bélgica e no Suriname, contribuindo para a circulação de pessoas, culturas, costumes e histórias entre os países.
Esse intercâmbio também ocorre no sentido inverso, com palavras do português brasileiro incorporadas ao cotidiano e à experiência cultural dessas comunidades. Entre os exemplos citados por Gierveld estão “samba”, “caipirinha” e “açaí”.
“Por isso, esta noite não celebramos apenas uma língua, mas sobretudo as pessoas que a falam, aprendem, transformam e transmitem”, afirmou.
Suriname destaca o idioma como ponte entre continentes
Em sua primeira participação na Semana da Língua Neerlandesa, o Embaixador do Suriname no Brasil, Ike Desmond Antonius, destacou a consolidação da iniciativa ao longo de cinco edições e ressaltou o papel da língua como elemento de conexão entre Suriname, Países Baixos e Bélgica.
Para Antonius, a realização consecutiva do evento demonstra a existência de uma base sólida para promover o uso e o estudo do neerlandês para além dos territórios onde o idioma é falado como língua materna.
“A língua conecta”, afirmou, destacando que o neerlandês cria uma ponte entre os três países, apesar de suas diferenças culturais e históricas.
O embaixador ressaltou ainda que o domínio de um idioma vai além da comunicação. Segundo ele, o conhecimento de uma língua estrangeira amplia horizontes, favorece o desenvolvimento, facilita o acesso a diferentes perspectivas e contribui para a integração.
Ao citar a expressão neerlandesa “Kennis is macht”, que significa “Conhecimento é poder”, Antonius destacou a relação entre conhecimento, influência e desenvolvimento.
O neerlandês e a identidade do Suriname
Durante seu discurso, o embaixador explicou que o neerlandês é a língua oficial do Suriname desde 1876 e atualmente é utilizado nas áreas administrativa, educacional, escrita e na comunicação cotidiana.
O idioma convive no país com cerca de outras 20 línguas, entre elas o sarnami, o javanês, o Sranan Tongo, o mandarim e diversas línguas indígenas e quilombolas.
Segundo Antonius, essa diversidade linguística e cultural contribui para a construção da identidade surinamesa. Ele comparou a sociedade do país ao conceito de “bromki djari”, expressão que significa “jardim de flores”, utilizada pelo falecido político surinamês Jagernath Lachmon para representar a convivência entre diferentes grupos e a política de fraternidade no país.
O embaixador ressaltou que, apesar de suas raízes estarem espalhadas por diferentes continentes, a população do Suriname conseguiu preservar uma língua comum que hoje faz parte de sua identidade e de sua história.
Ele destacou ainda a singularidade do Suriname como único país da América do Sul que possui o neerlandês como língua oficial, característica que estabelece uma conexão histórica e cultural particular entre a América do Sul e a Europa.
Literatura como instrumento de intercâmbio
Ao abordar a importância da educação e da literatura, Antonius defendeu o fortalecimento do estudo da língua neerlandesa como caminho para ampliar o intercâmbio de conhecimentos e o diálogo intelectual.
Segundo ele, a cooperação entre instituições de ensino pode ser ampliada, aprofundando os vínculos educacionais entre os países.
O diplomata também compartilhou sua experiência pessoal, lembrando que o conhecimento da língua portuguesa lhe proporcionou a oportunidade de realizar seus estudos em Brasília. Para ele, aprender outro idioma permite ampliar horizontes e analisar questões a partir de diferentes perspectivas.
Antonius aproveitou a ocasião para convidar os participantes a conhecerem mais profundamente a literatura do Suriname, especialmente obras escritas em neerlandês e que apresentam perspectivas próprias da sociedade surinamesa.
Entre os autores mencionados estão Anton de Kom, Robin “Dobru” Raveles, Michaël Slory, Astrid Roemer, Thea Doelwijt, Gerrit Barron, Cynthia McLeod, Bea Vianen e Roy Khemradj, entre outros nomes da literatura surinamesa.
Uma ponte linguística e cultural
Ao final de seu discurso, o Embaixador Ike Desmond Antonius agradeceu ao anfitrião, Chris Hoornaert, e ao Embaixador dos Países Baixos, Aldrik Gierveld, pela co-organização da quinta edição da Semana da Língua Neerlandesa.
O diplomata também estendeu os agradecimentos às equipes das três embaixadas e ao corpo docente da Universidade de Brasília pelo envolvimento na realização da iniciativa.
A celebração reforçou a ideia de que a língua neerlandesa vai muito além de um sistema de comunicação. Ela representa uma ponte histórica e cultural que conecta países, continentes e comunidades.
Ao reunir Bélgica, Países Baixos e Suriname em Brasília, a Semana da Língua Neerlandesa também demonstra como a educação, a literatura e o intercâmbio cultural podem aproximar diferentes sociedades.
A quinta edição da iniciativa consolida, assim, um espaço de diálogo e cooperação que valoriza a diversidade do mundo neerlandófono e estimula novas conexões entre pessoas, instituições e culturas.
Como destacou o Embaixador do Suriname, o desafio é continuar construindo, juntos, uma ponte que não apenas una Bélgica, Países Baixos e Suriname, mas também cidadãos de diferentes continentes e países.


