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A população neerlandesa vive historicamente com a água, com mais que 60% do território abaixo do nível do mar. Com a necessidade de coexistir com a água, o país se tornou um expert em questões ligadas à água, como por exemplo infraestrutura de água, saneamento e dragagem. E agora investiga como pode contribuir, por exemplo, com soluções para combater enchentes.

Quem fala sobre os Países Baixos para o Diplomacia Business é o embaixador André Driessen. Na entrevista exclusiva, ele conta das relações dessa nação especialmente com o Ceará, entre outros assuntos. “O Ceará é um estado interessante para os Países Baixos, por causa dos investimentos do Complexo do Pecém, os desenvolvimentos na área de hidrogênio verde e o potencial que o Estado oferece com base na sua característica geográfica”.

Na opinião do embaixador Driessen, o Ceará, por sua localização, pode se tornar um hub logístico, da mesma forma que os Países Baixos são além de mercado um ponto de entrada para Europa. “Há um potencial para mais exportação”. Veja a entrevista completa:

Diplomacia Business – Em abril, os Países Baixos comemoram sua data nacional. Como serão as festividades, dentro e fora do país? O sr. poderia também comentar sobre essa data?

Embaixador dos Países Baixos no Brasil, André Driessen – A data nacional é tradicionalmente celebrada no dia do aniversário do Rei, por isso se chama Koningsdag – o Dia do Rei. É um dia festivo, com festas populares, feiras e concertos por todo o país. A cor laranja tem um papel central nesse dia. O Rei Willem Alexander representa a união do povo neerlandês e seu aniversário é no dia 27 de abril. No Koningsdag comemoramos em liberdade o que nos une em todo o Reino dos Países Baixos. Neste ano, enquanto testemunhamos os acontecimentos terríveis na Europa de Leste, acreditamos que é mais importante que nunca que valorizemos a nossa liberdade democrática.

Recentemente, o sr. foi recebido em Fortaleza pelo governador do Ceará, Camilo Santana. Porque o Ceará é um parceiro importante dos Países Baixos? Como está o projeto de produzir hidrogênio no Complexo de Pecém?

Embaixador André Driessen – No mês passado tive a honra de visitar o Estado do Ceará e me encontrar com o governador Camilo Santana e com outras pessoas de destaque dos setores públicos e privados. O motivo era o início de um segundo projeto em conjunto com a Cruz Vermelha Brasileira. Na cidade de Caucaia entregamos as primeiras mochilas com itens necessários para garantir uma volta à escolha segura, a estudantes de famílias com menos condições financeiras.

O Ceará é um estado interessante para os Países Baixos, por causa dos investimentos do Complexo do Pecém, os desenvolvimentos na área de hidrogênio verde e o potencial que o Estado oferece com base na sua caraterística geográfica. O Ceará, por sua localização, pode se tornar um hub logístico, da mesma forma que os Países Baixos são além de mercado um ponto de entrada para Europa. Há um potencial para mais exportação.

Em 2021, as exportações cearenses para os Países Baixos cresceram 18%. Os Países Baixos compraram o equivalente a US$65,6 milhões em produtos, em especial produtos à base de ferro e aço, além de melões, castanhas, sucos e melancias. Esse comércio pode ser ainda maior este ano, em valores e variedade de frutas?

Embaixador André Driessen – Em relação às exportações brasileiras de frutas, entendemos que o setor brasileiro de frutas já prevê um aumento de 10% para este ano.  Uma delegação do Ministério do Desenvolvimento Regional (MDR) fez uma visita oficial aos Países Baixos, recentemente. Uma das pautas dos visitantes foi a gestão da água.

Que tipo de expertise a Holanda pode oferecer ao Brasil para melhor aproveitamento da água?

Embaixador André Driessen – O Ministério do Desenvolvimento Regional tem uma ampla pauta representando diversos temas e expertises. Acreditamos que podemos cooperar de forma complementar em várias áreas. Assim, ficamos contentes que o ministro Marinho visitou os Países Baixos e que lá pudemos demonstrar a nossa expertise como por exemplo nas áreas de agricultura de precisão e gerenciamento de água.

A II Conferência dos Oceanos das Nações Unidas (UNOC) será aberta dia 27 de junho, em Lisboa. Como o sr. vê essa discussão sobre água, contaminação, oceanos, clima e sustentabilidade?

Embaixador André Driessen – A população neerlandesa vive historicamente com a água, com mais de 60% do território abaixo do nível do mar. Com a necessidade de coexistir com a água, o país se tornou um expert em questões ligadas à água, como por exemplo infraestrutura de água, saneamento e dragagem. Estamos investigando como podemos contribuir com soluções por exemplo na área de combater enchentes.

Estes temas, e mais importante, a conexão e a interdependência entre os assuntos, são imprescindíveis para enfrentar a mudança climática. A ligação entre os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) relevantes, é uma das prioridades principais dos Países Baixos durante a Conferência dos Oceanos da Organização das Nações Unidas – ONU. Os efeitos das atividades humanas na terra podem ser transmitidos ​​para o oceano através dos rios, entre outros, representando uma carga substancial em nossos ecossistemas marinhos.

A interconexão dos ecossistemas aquáticos demanda respostas políticas que gerenciem os recursos terrestres, costeiros, marinhos e de água doce de forma holística. Portanto, é crucial quebrar barreiras persistentes na política e conseguir uma gestão sustentável dos oceanos colaborando com países, institutos e o setor privado e trocando melhores práticas e lições aprendidas de intervenções novas.

Vale mencionar que além da participação nessa conferência, os Países Baixos organizam a Conferência de Água em 2023 da ONU em conjunto com o Tajiquistão. Será a primeira conferência em 50 anos dedicada exclusivamente à temática da água.

Como estão as relações bilaterais entre Brasil e os Países Baixos? Em quais áreas o comércio entre os dois países pode crescer?

Embaixador André Driessen – O Brasil e os Países Baixos mantêm relações bilaterais de longa data. Este ano o Brasil comemora 200 anos de independência. As relações bilaterais começaram formalmente apenas uns anos após a independência brasileira com um tratado de amizade e comércio marítimo. Os laços históricos são mais antigos ainda, remetendo ao século 17 e à presença neerlandesa no Nordeste brasileiro.

Nos próximos anos vejo uma relação bilateral mais intensa no âmbito político e econômico. No mundo de hoje é necessário que os países que compartilham normas e convicções, como os Países Baixos e o Brasil, se unam para defender os seus valores. A cada dia somos lembrados que temos muito a defender e que só unificados conseguimos vencer.

Economicamente vamos intensificar parcerias nas áreas de sustentabilidade e de inovação. Essas são áreas em que meu país tem muito a oferecer. Temos que trabalhar juntos para combater os efeitos da mudança climática e alcançar uma transição energética. Também é necessário introduzir mais práticas sustentáveis na agricultura e avançar na luta contra o desmatamento. Isso é essencial para um fortalecimento da nossa relação econômica.

Quais políticas a Holanda tem adotado para combater o tráfico de drogas?

Embaixador André Driessen – O tráfico de drogas é um problema muito grave e temos que fazer todo o esforço para lutar contra esse mal. Felizmente as autoridades neerlandesas e brasileiras estão se juntando na cooperação aduaneira e na área de segurança em prol dessa luta.

Como o sr. avalia a guerra entre a Rússia e a Ucrânia e as consequências econômicas e humanas para todo o mundo?

Embaixador André Driessen – O conflito na Ucrânia é uma ameaça para a estabilidade e a paz na Europa. Os Países Baixos condenam a invasão russa. A agressão russa danifica os fundamentos de segurança e ordem legal internacional. É um conflito que só tem perdedores. É uma tragédia humana e as perdas materiais são enormes. Já estamos sentindo as consequências econômicas e os efeitos ainda terão impacto nos próximos meses e anos.

Perfil de André Driessen – Até a sua nomeação como embaixador no Brasil, André Driessen trabalhou como diretor da Direção de Comércio Internacional do Ministério neerlandês de Relações Exteriores. Antes dessa função André foi vice-embaixador neerlandês em Beijing e teve alocações em Madrid e Bogotá.

 

 

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