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A Malásia e o Brasil estão entrando em uma nova etapa da relação bilateral, marcada pela ampliação do comércio, dos investimentos e da cooperação em setores estratégicos da economia. A avaliação foi apresentada durante a recepção em celebração do 69º Dia Nacional da Malásia e do Dia da Malásia, que reuniu representantes do governo brasileiro, corpo diplomático, empresários e membros da comunidade malaia no Brasil.

Em seus discursos, o embaixador da Malásia no Brasil, Dato’ Mohammad Ali Selamat, e o embaixador Everton Frask Lucero, diretor do Departamento de Índia, Sul e Sudeste da Ásia do Ministério das Relações Exteriores, destacaram o avanço das relações entre os dois países e defenderam uma aproximação cada vez mais voltada para negócios, investimentos, tecnologia e integração às cadeias globais de valor.

Segundo o embaixador malaio, a relação entre os dois países deixou de ser predominantemente política e diplomática e passou a incorporar uma agenda econômica e estratégica mais concreta.

“Acredito que estamos avançando cada vez mais da convergência estratégica para uma cooperação concreta”, afirmou Mohammad Ali Selamat.

Comércio e investimentos ganham protagonismo

A expansão da relação econômica foi um dos principais temas da noite. A Malásia possui uma economia aberta, diversificada e fortemente integrada ao comércio internacional, enquanto o Brasil apresenta um amplo mercado consumidor, capacidade industrial, disponibilidade de recursos naturais e crescente domínio tecnológico em diferentes setores.

O comércio bilateral permanece em patamar expressivo e, de acordo com o discurso do representante brasileiro, aproximou-se de US$ 5 bilhões no último ano.

Para o embaixador malaio, existe espaço para ampliar significativamente esse volume por meio da aproximação entre os ecossistemas produtivos dos dois países.

A estratégia passa por conectar empresas, tecnologias, investimentos e talentos, aproveitando as características complementares das duas economias.

O Brasil pode oferecer à Malásia acesso ao mercado sul-americano, recursos naturais, capacidade industrial e oportunidades de investimentos. A Malásia, por sua vez, pode funcionar como uma plataforma estratégica para empresas brasileiras interessadas em ingressar ou ampliar sua presença no mercado da ASEAN, bloco que reúne dez países do Sudeste Asiático.

“A Malásia pode servir como uma porta de entrada natural para empresas brasileiras que buscam oportunidades na ASEAN, enquanto o Brasil oferece às empresas malaias uma plataforma importante para a América do Sul”, afirmou o diplomata.

PETRONAS e Yinson ampliam presença no Brasil

O setor de energia foi apontado como um dos exemplos mais concretos da aproximação empresarial entre os dois países.

A PETRONAS, empresa nacional de petróleo e gás da Malásia, consolidou uma presença de longo prazo na indústria brasileira de energia offshore, inclusive por meio de sua parceria com a Petrobras.

A atuação da companhia inclui projetos relacionados a unidades flutuantes de produção, armazenamento e transferência de petróleo, conhecidas pela sigla FPSO, além de investimentos em soluções de maior intensidade tecnológica.

Outra empresa malaia mencionada foi a Yinson, que também vem ampliando sua participação no setor energético brasileiro.

Para o embaixador Mohammad Ali Selamat, PETRONAS e Yinson representam exemplos de como a aproximação política entre os governos pode resultar em negócios concretos, investimentos, transferência de tecnologia, geração de empregos e relações empresariais de longo prazo.

O embaixador Everton Frask Lucero também destacou a presença de empresas malaias no Brasil e afirmou que companhias como PETRONAS, Yinson e Sapura Energy estão realizando investimentos significativos no setor energético brasileiro.

Semicondutores e manufatura avançada entram no radar

Além da energia, os semicondutores aparecem como uma das áreas com maior potencial para uma nova etapa da cooperação econômica.

A Malásia possui uma posição relevante nas cadeias globais de eletrônica e semicondutores, enquanto o Brasil busca ampliar sua participação em setores tecnológicos e de maior valor agregado.

A aproximação entre os dois países pode criar oportunidades para investimentos, parcerias industriais, desenvolvimento tecnológico e integração das cadeias de fornecimento.

Entre os setores identificados pelos dois governos como prioritários estão:

  • semicondutores;
  • manufatura avançada;
  • economia digital;
  • aeroportos e infraestrutura;
  • energia renovável e limpa;
  • minerais críticos;
  • segurança alimentar;
  • indústria halal;
  • inovação;
  • educação;
  • tecnologia.

“Essas são áreas nas quais nossas forças são complementares, e não concorrentes”, ressaltou o embaixador malaio.

A avaliação é que a complementaridade entre os dois mercados pode ser particularmente relevante diante da necessidade global de diversificação das cadeias de suprimentos e de redução de riscos de concentração industrial.

Brasil pode ampliar acesso empresarial à ASEAN

A localização geográfica da Malásia foi apresentada como um dos principais ativos para o aprofundamento das relações comerciais.

Situada no centro do Sudeste Asiático e integrada às cadeias globais de manufatura e tecnologia, a Malásia pode funcionar como uma plataforma para empresas brasileiras interessadas em acessar mercados asiáticos.

Ao mesmo tempo, o tamanho do mercado brasileiro e sua posição estratégica na América do Sul tornam o país uma plataforma de expansão para companhias malaias.

A proposta, segundo o diplomata, não é apenas aumentar as exportações, mas construir uma rede empresarial mais diversificada e resiliente.

“Isso não se trata apenas de ampliar mercados. Trata-se de construir parcerias mais diversificadas, resilientes e mutuamente benéficas.”

Visitas de Lula e Anwar Ibrahim fortalecem ambiente de negócios

A intensificação dos contatos de alto nível entre os dois governos também foi destacada como fator importante para o avanço da agenda econômica.

O primeiro-ministro da Malásia, Anwar Ibrahim, participou da Cúpula de Líderes do G20, no Rio de Janeiro, em novembro de 2024, quando se reuniu com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Em julho de 2025, Anwar retornou ao Brasil para participar da Cúpula do BRICS, após a Malásia ser admitida como país parceiro do grupo.

Poucos meses depois, em outubro de 2025, o presidente Lula realizou visita oficial à Malásia e participou da 47ª Cúpula da ASEAN, em Kuala Lumpur.

A visita brasileira foi apontada como um marco na relação bilateral e abriu espaço para discussões em áreas como semicondutores, tecnologia e inovação, cooperação entre institutos de política externa, formação diplomática e recursos genéticos e biotecnológicos.

Durante a visita, também foram identificadas novas possibilidades de cooperação em energia renovável, infraestrutura, aviação, economia halal e tecnologias avançadas.

Acordos podem aumentar segurança para investidores

O fortalecimento do ambiente de negócios também passa, segundo o discurso do embaixador Everton Frask Lucero, pela criação de mecanismos que ofereçam maior previsibilidade aos investidores.

Entre as iniciativas consideradas desejáveis está a conclusão de um acordo para evitar a dupla tributação, além de um acordo de cooperação e facilitação de investimentos.

Os instrumentos poderiam contribuir para reduzir incertezas e estimular novos fluxos de capital entre empresas brasileiras e malaias.

A avaliação é especialmente relevante diante do potencial de expansão dos investimentos nos setores de energia, infraestrutura, tecnologia e manufatura.

ASEAN aproxima Brasil do Sudeste Asiático

A participação do presidente Lula na Cúpula da ASEAN foi considerada outro marco da aproximação entre o Brasil e o Sudeste Asiático.

Segundo Mohammad Ali Selamat, o envolvimento brasileiro com a ASEAN pode contribuir para aproximar institucionalmente duas regiões que ainda possuem amplo espaço para expansão de suas relações comerciais e empresariais.

A Malásia, como membro fundador da ASEAN, pode exercer papel estratégico nesse processo.

O governo malaio vê potencial para que o país se consolide como uma ponte entre empresas brasileiras e o mercado do Sudeste Asiático, enquanto o Brasil pode desempenhar papel semelhante para companhias malaias interessadas na América do Sul.

O movimento ocorre em um cenário internacional de busca por novos mercados, diversificação de fornecedores e fortalecimento de cadeias de produção mais resilientes.

Energia limpa, minerais críticos e segurança alimentar

A agenda bilateral também deverá avançar para setores relacionados à transição energética e à sustentabilidade.

Energia renovável e limpa, minerais críticos e segurança alimentar foram apontados como áreas prioritárias.

Brasil e Malásia também compartilham características relevantes no campo ambiental. Os dois países abrigam importantes florestas tropicais e possuem experiência na conservação de recursos naturais.

O discurso brasileiro destacou a participação da Malásia nas discussões que levaram à criação da Tropical Forests Forever Facility (TFFF), iniciativa lançada durante a COP30, em Belém.

A cooperação ambiental, nesse contexto, também pode abrir oportunidades para investimentos, financiamento climático e novas soluções tecnológicas voltadas à preservação florestal.

Economia halal abre novo mercado para empresas brasileiras

Outro setor com potencial de expansão é a economia halal.

A experiência da Malásia nesse segmento pode criar oportunidades para empresas brasileiras interessadas em ampliar sua presença nos mercados muçulmanos, especialmente em alimentos, bebidas, cosméticos, serviços e outros produtos certificados.

A combinação da capacidade brasileira de produção de alimentos e commodities agrícolas com a experiência malaia em certificação, processamento e acesso aos mercados asiáticos pode favorecer novas parcerias empresariais.

Uma relação que busca sair do potencial para os resultados

Em seu discurso, o embaixador da Malásia afirmou que a relação entre os dois países ainda está longe de atingir todo o seu potencial.

Para a Embaixada da Malásia em Brasília, a prioridade será transformar a confiança política construída ao longo dos anos em resultados econômicos mais concretos.

A agenda inclui aprofundar comércio e investimentos, fortalecer os vínculos entre empresas e instituições, ampliar a cooperação em setores tecnológicos e aproximar os ecossistemas empresariais dos dois países.

O embaixador Everton Frask Lucero, por sua vez, ressaltou que Brasil e Malásia já possuem 67 anos de relações diplomáticas, construídas sobre amizade, confiança e respeito mútuo.

Para o diplomata brasileiro, a convergência política entre os dois países encontra cada vez mais correspondência na relação econômica.

A mensagem comum deixada pelos dois discursos foi clara: Brasil e Malásia querem transformar uma relação historicamente amistosa em uma parceria econômica mais estratégica, diversificada e orientada para investimentos e negócios.

Com energia, semicondutores, tecnologia, manufatura avançada, economia digital, infraestrutura, minerais críticos, indústria halal e transição energética no centro da nova agenda, os dois países buscam criar uma ponte mais forte entre a América do Sul e o Sudeste Asiático.

Ao encerrar seu discurso, Mohammad Ali Selamat reforçou a perspectiva de uma nova fase na relação bilateral: “uma fase mais prática, mais avançada e cada vez mais ancorada em cooperações concretas”.

“Selamat Hari Kebangsaan dan Selamat Hari Malaysia!”

“Viva a amizade entre a Malásia e o Brasil!”

*É permitida a reprodução, desde que citada a fonte.

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