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Por Leulseged Tadese Abebe, Embaixador Extraordinário e Plenipotenciário da Etiópia no Brasil

Desde 15 de julho de 2026, etíopes de todas as esferas da sociedade vêm se reunindo em Adis Abeba para participar de uma Conferência de Diálogo Nacional, de caráter participativo, inclusivo e de alcance nacional. Cerca de 4.000 participantes, representando diferentes setores da sociedade, participam deste evento histórico. O Diálogo Nacional constitui o maior e o primeiro fórum público dessa natureza na história do país.

Conduzido pela Comissão Etíope de Diálogo Nacional, órgão independente estabelecido pela Câmara dos Representantes do Povo, o processo entrou em sua fase final após quatro anos de definição de pautas, consultas e deliberações. Espera-se que o Diálogo contribua para a construção de um consenso nacional sobre questões de vital importância para o país.

Na cerimônia de abertura, S. Exa. o Primeiro-Ministro Abiy Ahmed Ali (Ph.D.) elogiou o processo como um grande esforço nacional destinado a romper com os ciclos das trajetórias políticas do passado. Segundo o Primeiro-Ministro, o diálogo oferece uma oportunidade para a Etiópia escrever um novo capítulo de sua história. Em suas palavras: “O diálogo, por meio da discussão, da consulta e da confiança mútua, é a única maneira de oferecer uma resposta duradoura à questão histórica de como podemos viver juntos”. O Primeiro-Ministro enfatizou que o diálogo representa o caminho para o país e reafirmou o pleno apoio do governo à concretização dos resultados esperados.

Por que o diálogo nacional é necessário?

O diálogo nacional é utilizado como uma abordagem eficaz para tratar de questões nacionais críticas por meio de um processo formal, estruturado e organizado. Constitui uma plataforma para a resolução de divergências políticas sem o recurso a outros meios e tornou-se uma importante ferramenta para a busca de soluções mutuamente benéficas no âmbito dos processos políticos.

Caso alguém pergunte por que os etíopes precisam de um diálogo nacional, trata-se de uma questão legítima e pertinente. Conhecida como o berço da civilização humana e “terra das origens”, a Etiópia é uma nação milenar, com mais de três milênios de continuidade estatal, estruturas de governança e instituições tradicionais.

O país abriga mais de 80 grupos étnicos, com diferentes línguas e culturas que coexistem há séculos. Ainda assim, permanece a necessidade de abordar as preocupações, aspirações e ideias de sua população, incluindo questões persistentes transmitidas de geração em geração.

Os cidadãos são os verdadeiros protagonistas de seu país, e uma sociedade responsável busca participar ativamente da construção de seu futuro. Para a Etiópia, diante do rápido crescimento econômico, da significativa expansão populacional e da existência de uma população majoritariamente jovem, é essencial criar um espaço político inclusivo. As vozes dessa nova geração precisam ser ouvidas. Foi dessa necessidade que surgiu a ideia de um diálogo nacional. A prosperidade duradoura é difícil de alcançar sem enfrentar os desafios do passado e as preocupações do presente.

Foto: Embaixada na Etiópia no Brasil

Pautas do Diálogo Nacional

Segundo o Comissário-Chefe do Diálogo Nacional, Professor Mesfin Araya, a pauta está estruturada em oito pilares principais, definidos diretamente pelos cidadãos: construção do Estado; identidade e história; estrutura de governo e federalismo; situação das cidades federais, incluindo Adis Abeba; assuntos religiosos; Estado de Direito e direitos humanos; desenvolvimento socioeconômico; combate à corrupção; e construção da paz e reconciliação.

Essas pautas foram compiladas durante fóruns realizados anteriormente nos níveis federal e estadual e posteriormente submetidas a uma análise aprofundada antes de serem apresentadas ao processo de consulta nacional, no qual serão discutidas por todos os participantes do diálogo.

Ao longo de três semanas, os participantes apresentarão suas ideias em subgrupos de 10 a 50 integrantes. As discussões serão posteriormente ampliadas para grupos maiores, de 250 participantes, e, finalmente, organizadas em oito grupos de 500 participantes.

O Comissário-Chefe observou ainda que especialistas em áreas como construção do Estado, história, identidade, federalismo e resolução de conflitos estão realizando apresentações destinadas a orientar e subsidiar as discussões.

Lições

O Diálogo Nacional Etíope reveste-se de grande importância. A primeira lição diz respeito à necessidade de reformular a compreensão tradicional dos processos políticos. A maioria dos diálogos políticos tende a ser elitista e dominada por um grupo restrito. Em contraste, o presente Diálogo busca promover uma participação mais ampla e inclusiva, reunindo representantes de diferentes segmentos da sociedade.

Iniciativas políticas que excluem os cidadãos estão sujeitas a enfrentar dificuldades para alcançar resultados duradouros. O Diálogo Nacional Etíope parte desse reconhecimento. Os participantes são selecionados em suas respectivas comunidades e representam não apenas suas localidades, mas também uma ampla diversidade de opiniões e perspectivas. Neste processo, todos são convidados a participar e ninguém deve ser deixado para trás. Esse é o princípio da democracia participativa.

A segunda, e talvez mais importante, lição é que o sucesso do Diálogo Nacional Etíope possui relevância não apenas para o país, mas também para a região e para o continente africano. Localizado no Chifre da África, região em que se cruzam importantes interesses geopolíticos e geoeconômicos e onde se encontra o estreito de Bab el-Mandeb, o espaço regional está sujeito a conflitos de natureza nacional e regional.

A situação de segurança do Chifre da África deve, portanto, ser compreendida como parte integrante de interesses geopolíticos e nacionais mais amplos. As medidas proativas adotadas pela Etiópia por meio de seu diálogo nacional podem servir de referência para outros países da região, incentivando iniciativas que permitam enfrentar tensões antes que resultem em instabilidade e violência.

Nesse sentido, o Diálogo Nacional pode ser considerado um importante teste para avaliar a evolução das sociedades políticas da região. Os diálogos nacionais não devem ser concebidos como último recurso, adotados somente após a eclosão de conflitos, violência ou instabilidade. Ao contrário, devem constituir instrumentos centrais para a prevenção de crises e para a redução de sofrimentos evitáveis.

Os diálogos nacionais podem representar um importante caminho para a construção de sociedades modernas e pacíficas, nas quais as vozes dos cidadãos sejam igualmente valorizadas, respeitadas e ouvidas.

Ao longo dos últimos quatro anos, etíopes de todas as partes do país vêm discutindo e identificando questões fundamentais para o futuro nacional. A fase final do Diálogo Nacional reúne representantes de diferentes segmentos da sociedade para deliberar sobre questões de interesse nacional.

Espera-se que os resultados desse processo contribuam para ampliar ainda mais o potencial de crescimento e desenvolvimento econômico da Etiópia. Este é um momento decisivo, no qual o país escolhe o diálogo, o debate e a reconciliação como caminhos para a construção de soluções duradouras.

Por meio deste processo, a Etiópia busca reformular seu cenário político e oferece à região um exemplo de como enfrentar questões complexas e sensíveis, muitas vezes consideradas tabus, por meio da participação, do diálogo e da busca por consensos.

Fonte: Embaixada da Etiópia no Brasil.

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