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O Conselho dos Embaixadores Árabes no Brasil recebeu convidados na noite de terça-feira (24) para a celebração do Iftar, refeição que marca a quebra do jejum diário durante o mês sagrado do Ramadã. Realizado ao pôr do sol, o momento simboliza partilha, espiritualidade e fraternidade.

Tradicionalmente, o Iftar tem início com tâmaras e água, seguindo costume atribuído ao profeta Muhammad, e é seguido por uma refeição mais completa, com frutas, sopas, pães e pratos típicos das diversas culinárias do mundo islâmico.

O Ramadã, nono mês do calendário islâmico, é um período de profundo significado religioso para os muçulmanos. Durante esse mês, os fiéis praticam o jejum diário — o sawm — do amanhecer ao anoitecer e intensificam a oração, a reflexão espiritual e a solidariedade com os mais vulneráveis. O jejum vai além da abstinência de alimentos e bebidas, envolvendo autocontrole, paciência e busca por uma conduta ética elevada. O período se encerra com o Eid al-Fitr, celebração que reúne fé, convivência familiar e caridade.

Além do aspecto religioso, o Ramadã também se caracteriza pela convivência comunitária. Em diversos países muçulmanos, cidades ganham iluminações especiais, mercados noturnos e encontros familiares após o pôr do sol. Música, literatura e gastronomia assumem protagonismo, reafirmando identidades culturais e religiosas.

Valores espirituais e diálogo entre civilizações

O decano do Conselho dos Embaixadores Árabes e embaixador do Marrocos no Brasil, Nabil Adghoghi, afirmou ser uma “imensa honra” acolher os convidados e agradeceu a presença de todos para compartilhar “esta abençoada noite de Ramadã, em uma atmosfera de cordialidade, respeito e fraternidade humana”.

Segundo ele, o mês sagrado representa misericórdia, perdão e devoção, além de fortalecer valores como paciência, generosidade, solidariedade e apoio mútuo. Destacou ainda que o jejum é prática comum às três religiões monoteístas, constituindo uma “escola ética e humanista” que promove a cultura de paz, o diálogo e o entendimento entre povos e civilizações.

O diplomata ressaltou que o Islã, em sua essência, é uma religião de misericórdia, equilíbrio e abertura, que respeita o pluralismo e dialoga com as realidades contemporâneas sem renunciar a seus valores.

Ao abordar as relações bilaterais, afirmou que os laços entre os países árabes e o Brasil se distinguem pelo respeito mútuo e pela cooperação construtiva, configurando um modelo de parceria equilibrada e frutífera. Mencionou ainda perspectivas de cooperação em áreas estratégicas, como segurança alimentar, energia e conectividade logística.

O embaixador agradeceu o apoio da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira, da FAMBRAS, da Câmara de Comércio Brasil-Iraque e da empresa Alhaji Beef Produtos Halal na promoção da parceria econômica entre o Brasil e os países árabes.

Paz, moderação e soluções negociadas

O secretário de África e Oriente Médio do Itamaraty, Carlos Sérgio Sobral Duarte, representou o governo brasileiro na celebração. Em seu discurso, destacou que o Iftar simboliza solidariedade e respeito, reunindo milhões de pessoas ao redor do mundo.

Observou que, neste ano, o Ramadã e a Quaresma cristã tiveram início na mesma data, ressaltando valores comuns como jejum, oração, penitência e renovação espiritual. Também enfatizou o histórico brasileiro de acolhimento e apreço pela diversidade cultural e religiosa.

O secretário manifestou preocupação com cenários de conflito e instabilidade, mencionando a situação na Palestina — especialmente em Gaza e na Cisjordânia —, além da escalada de tensões no Golfo. Reafirmou que o Brasil condena o uso da força e defende soluções negociadas como base para uma paz duradoura, com investimento em medidas de construção de confiança.

Justiça como fundamento da paz

O presidente do Superior Tribunal de Justiça (STJ), ministro Herman Benjamin, afirmou que sua presença no evento se fundamenta em um princípio essencial: a justiça.

Ao recordar a influência árabe na formação cultural brasileira, mencionou os cerca de oito séculos de presença árabe na Península Ibérica e a transmissão de conhecimentos fundamentais em áreas como matemática, medicina, filosofia e ciências naturais, além da preservação do legado clássico grego.

Para o ministro, justiça significa paz — na família, entre crenças, entre comunidades e entre povos. Ele expressou o desejo de que o Ramadã inspire ainda mais solidariedade e compromisso com a equidade.

O encontro reafirmou o simbolismo do Iftar como espaço de diálogo, partilha e aproximação entre culturas, fortalecendo os laços históricos, culturais e diplomáticos entre o Brasil e o mundo árabe.

Foto: Embaixada do Reino do Marrocos

*É permitida a reprodução, desde que citada a fonte.

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