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Em meio a um cenário global marcado por divisões geopolíticas e incertezas econômicas, o Canadá deu um passo significativo para diversificar suas parcerias comerciais e fortalecer sua resiliência econômica. O primeiro-ministro Mark Carney realizou, nesta semana, visita oficial a Pequim, marcando a retomada do diálogo de alto nível entre Canadá e China após oito anos e abrindo caminho para uma nova parceria estratégica entre os dois países.

A viagem — a primeira de um chefe de governo canadense à China desde 2017 — incluiu encontros com o presidente chinês, Xi Jinping, o primeiro-ministro Li Qiang e Zhao Leji, presidente do Comitê Permanente da Assembleia Popular Nacional. Ao término das reuniões, Carney e Xi divulgaram uma declaração conjunta que estabelece os principais pilares da nova relação bilateral.

No centro da parceria está o compromisso de aprofundar a cooperação em energia, tecnologias limpas e competitividade climática. Canadá e China, reconhecidos como potências energéticas, pretendem ampliar investimentos em baterias, energia solar e eólica, além de soluções de armazenamento de energia, com o objetivo de reduzir emissões e impulsionar o crescimento sustentável. Durante a visita, o primeiro-ministro canadense reuniu-se ainda com líderes empresariais chineses para identificar e acelerar oportunidades de investimento no Canadá.

Um dos anúncios mais relevantes foi a decisão canadense de permitir a entrada de até 49 mil veículos elétricos fabricados na China, sob a tarifa de nação mais favorecida de 6,1%. O volume representa menos de 3% do mercado canadense de veículos novos e corresponde às importações registradas antes das recentes tensões comerciais. A expectativa do governo é que, em até três anos, o acordo estimule novos investimentos chineses em joint ventures no Canadá, fortalecendo a indústria automotiva nacional, gerando empregos e consolidando a cadeia de suprimentos de veículos elétricos. O entendimento também prevê que, em cinco anos, mais da metade desses veículos seja composta por modelos acessíveis, com preço de importação inferior a US$ 35 mil.

O agronegócio voltou a ocupar posição central nas negociações. A China permanece como o segundo maior mercado de exportação do Canadá, e os dois países avançaram para um acordo comercial preliminar que prevê a redução de tarifas e a eliminação de barreiras históricas. Entre as medidas anunciadas, destaca-se a expectativa de que a China reduza, até março de 2026, as tarifas sobre as sementes de canola canadenses para cerca de 15%, ante um patamar atual combinado de aproximadamente 85%. Produtos como farinha de canola, lagosta, caranguejo e ervilha também deverão ficar isentos de taxas antidiscriminatórias no mesmo período.

Segundo estimativas do governo canadense, o conjunto dessas medidas poderá destravar quase US$ 3 bilhões em encomendas de exportação, ampliando o acesso de empresas e trabalhadores canadenses ao mercado chinês, que conta com cerca de 1,4 bilhão de consumidores.

A visita também reforçou o compromisso de ambos os países com o multilateralismo e a governança global. Canadá e China pretendem cooperar em áreas como estabilidade financeira, competitividade climática e fóruns multilaterais. Ottawa confirmou apoio à presidência chinesa da Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (APEC) em 2026 e agradeceu o respaldo de Pequim à candidatura canadense para sediar a cúpula de 2029.

No campo da segurança pública, os dois governos acordaram aprofundar a cooperação entre suas agências de aplicação da lei no combate ao tráfico de drogas, ao crime transnacional, ao cibercrime e à lavagem de dinheiro. Também foram anunciados novos Memorandos de Entendimento em áreas como intercâmbio cultural, produtos de madeira, segurança alimentar, saúde animal e vegetal.

A agenda incluiu ainda iniciativas para fortalecer o turismo e os laços culturais. O primeiro-ministro Carney saudou o acordo entre a Destination Canada e o China Media Group para promover o turismo canadense, especialmente no contexto da preparação para a Copa do Mundo da FIFA 2026, além do compromisso chinês com a isenção de vistos para cidadãos canadenses.

Em declaração, Carney destacou o potencial da reaproximação. “Quando estão no seu melhor, as relações entre o Canadá e a China oferecem enormes oportunidades para os nossos povos. Ao focarmos no comércio, na energia e no agronegócio, estamos a construir uma nova parceria estratégica que reflete o mundo de hoje e beneficia ambas as sociedades”, afirmou.

Comércio bilateral entre Canadá e China alcançou US$ 118,9 bilhões em 2024, consolidando Pequim como o segundo maior parceiro comercial de Ottawa. Para o governo canadense, a visita marca um ponto de inflexão na relação bilateral e estabelece as bases para uma cooperação mais pragmática e orientada ao futuro.

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