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Desde 2019, o Brasil não tinha uma presença tão expressiva no principal encontro do setor cinematográfico do mundo. Cinco filmes brasileiros estão na seleção oficial: “Firebrand”, de Karim Aïnouz, na disputa pela Palma de Ouro; “A Flor do Buriti”, de Renée Nader Messora e João Salaviza, na mostra Um Certo Olhar; os documentários “Nelson Pereira dos Santos, vida de Cinema”, da dupla Aída Marques e Ivelise Ferreira, e “Retratos Fantasmas”, de Kleber Mendonça Filho, fora da competição, e o curta “Solos”, de Pedro Vargas da Faap de São Paulo, na La Cinef de curtas realizados em escolas de cinema do mundo todo. O sexto filme é “Levante”, o longa de estreia de Lillah Halla na mostra paralela Semana da Crítica.
As produções foram selecionadas pelo Festival de Cannes, claro, por sua qualidade artística. Mas pela primeira vez a vinda dos filmes e das equipes contou com o apoio conjunto de quatro agências do governo federal: o Instituto Guimarães Rosa do Itamaraty, o Ministério da Cultura, a Ancine (Agência Nacional do Cinema) e a Apex (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos). A Apex financiou o pavilhão do Brasil no Mercado do Filme de Cannes (R$ 800 milhões). O aporte do Itamaraty foi de R$ 100 milhões.
Diplomacia cultural
Adam Jaime Muniz, chefe de Promoção Cultural do Instituto Guimarães Rosa do Itamaraty, indica que essa articulação das instituições federais visa promover o audiovisual como mecanismo de diplomacia cultural do país.
“O audiovisual é estratégico porque, de todas as linguagens artísticas e culturais, é a que consegue de forma mais eficaz promover a imagem do país no exterior. O audiovisual dialoga com todas as outras linguagens, a literatura, a música, a arte. É nesse contexto que o audiovisual se posiciona de forma estratégica e conta com esse apoio grande de diferentes agências do governo federal”, aponta Adam Jaime Muniz, garantindo que esse apoio vai continuar em outros festivais internacionais.
A produtora Julia Alves emplacou dois filmes na mostra Um Certo Olhar em Cannes este ano: o argentino “Los Delincuentes”, de Rodrigo Moreno, e o luso-brasileiro “A Flor do Buriti”. Ela diz que essa presença expressiva é resultado da resistência do setor cinematográfico nos últimos anos. Julia Alves ressalta que não devemos esquecer que a política do atual do governo é uma exceção, e que o descaso pela cultura é a regra no Brasil.
“É importante lembrar que essa é a regra, o que a gente está tendo agora é a exceção, é sempre importante ter os olhos abertos porque nada nunca está garantido. É sempre importante pensar em novas estratégias de como continuar resistindo e continuar de pé”, sugere a produtora.
Cineastas mulheres
O apoio também permitiu a vinda a Cannes do grupo “Mulheres Lideranças do Audiovisual Brasileiro”, uma iniciativa da sociedade civil que busca a paridade de gênero no setor, e do Instituto Nicho 54, que atua na promoção de profissionais negros e negras e participa do evento pela segunda vez.
Cannes não é só exibição, competição, busca de parcerias e de coproduções de filmes. O evento também organiza uma série de encontros e residências artísticas. O jovem músico Pedro Santiago foi o único brasileiro selecionado em dois programas diferentes para compositores de trilhas sonoras em Cannes.
Ele faz até o final de maio uma residência na Casa Cine para desenvolver a trilha sonora do filme luso-brasileiro “O Tubérculo”, de Lucas Camargo de Barros e Lucas Thomé Zetune. No Spot The Composer, do Mercado do Filme de Cannes, foi um dos 10 escolhidos, entre os candidatos do mundo inteiro, e fez um intenso networking animado por seis jovens cineastas. Pedro Santiago ficou “surpreso” com essa dupla seleção e espera que isso continue para reforçar a sua carreira internacional, iniciada no ano passado.
Temática indígena
Cannes é uma vitrine internacional e uma das temáticas que teve grande visibilidade este ano foi a luta pela terra dos indígenas brasileiros e pela defesa das florestas. A ministra dos Povos Indígenas Sonia Guajajara foi homenageada em um evento paralelo, o festival viu passar no tapete vermelho o cacique Raoni e outros líderes indígenas e foi palco de um protesto da equipe do longa a “Flor do Buriti” contra o marco temporal. Pedro Vargas, que concorre na mostra La Cinef, também gritou fora marco temporal antes da exibição de seu curta-metragem “Solos”, que fala da ocupação de territórios ancestrais.
“Na verdade, meu filme, fala sobre o território e sobre como ele foi ocupado por vários povos e, agora, está sendo ocupado pelo sistema imobiliário, pelo capitalismo. É sobre os povos que estavam lá antes e estão aqui ainda. ‘Fora garimpo e fora marco temporal’ é uma forma de lutar para que os povos ancestrais tenham o seu território, para que um prédio nunca seja construído lá e destrua o território e a vida deles”.


