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A relação entre Brasil e México ganhou novos contornos estratégicos com a realização, em Brasília, da VI Reunião da Comissão Binacional Brasil-México. O encontro reuniu o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira, e o secretário de Relações Exteriores dos Estados Unidos Mexicanos, Roberto Velasco Álvarez, em uma agenda marcada pela convergência política e pela busca de resultados concretos para as duas maiores economias e populações da América Latina.
Realizada em um momento de aproximação entre os governos dos presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Claudia Sheinbaum Pardo, a reunião reforçou a disposição de Brasília e da Cidade do México de ampliar o diálogo político e transformar a convergência de posições em iniciativas concretas de cooperação bilateral e regional.
Ao longo do encontro, os dois países revisaram os avanços das subcomissões da Comissão Binacional e estabeleceram prioridades para uma agenda que ultrapassa as relações comerciais tradicionais. Energia, segurança, migração, ciência e tecnologia, saúde, educação, cultura, atividades espaciais, mudanças climáticas e coordenação multilateral estiveram entre os principais temas discutidos.
Uma relação estratégica para a América Latina
Brasil e México ocupam posições singulares no cenário latino-americano. Juntos, concentram parcela expressiva da população, da atividade econômica e da capacidade política da região.
Nesse contexto, os chanceleres ressaltaram que o atual ambiente de diálogo favorece o aprofundamento da parceria e a construção de uma agenda capaz de ampliar os benefícios econômicos e sociais para os dois países.
As delegações reafirmaram a intenção de promover novos intercâmbios de alto nível, inclusive visitas presidenciais, dando continuidade ao processo de aproximação iniciado e fortalecido nos últimos anos.
A diplomacia dos dois países também reiterou seu compromisso com a integração latino-americana e caribenha e com o fortalecimento de mecanismos regionais de diálogo e concertação política.
Comércio: o desafio de transformar potencial em resultados
Um dos principais desafios colocados sobre a mesa foi o de aproximar o volume do comércio bilateral do tamanho e do potencial das duas economias.
Brasil e México reafirmaram o compromisso com a expansão do comércio, dos investimentos recíprocos e da integração produtiva. As delegações reconheceram que há espaço significativo para ampliar os fluxos econômicos e defenderam a atualização dos instrumentos comerciais existentes.
Nesse contexto, foram analisadas as negociações relacionadas aos Acordos de Complementação Econômica nº 53 e nº 55, com a reafirmação do compromisso de manter os trabalhos técnicos para ampliar e modernizar o marco comercial bilateral.
A participação do setor privado foi considerada essencial para a construção de uma agenda econômica mais ambiciosa, capaz de identificar oportunidades de negócios e ampliar a presença de empresas brasileiras e mexicanas nos respectivos mercados.
Entre os setores apontados como estratégicos estão infraestrutura, telecomunicações, agroindústria, saúde, tecnologia da informação, serviços financeiros, indústria aeroespacial, energias renováveis e inovação.
Foto; Itamaraty
Energia e biocombustíveis ganham espaço
A agenda energética também ganhou relevância durante a reunião.
Brasil e México destacaram a importância da cooperação bilateral em energia e celebraram o Memorando de Entendimento firmado, em junho de 2026, entre a Petrobras e a Pemex.
O instrumento reforça o papel estratégico das duas empresas nacionais na promoção da segurança energética, do desenvolvimento tecnológico e da integração regional.
As companhias já mantêm reuniões destinadas a avançar na implementação dos compromissos previstos no documento.
A cooperação em biocombustíveis também foi destacada, dando continuidade aos entendimentos estabelecidos durante a visita do vice-presidente Geraldo Alckmin ao México, em agosto de 2025.
A aproximação nesse setor ganha relevância em um cenário internacional marcado pela necessidade de diversificação das matrizes energéticas, redução das emissões e busca por soluções de transição energética.
Ciência e tecnologia como eixo estratégico
Entre os resultados mais relevantes da reunião está a assinatura do Memorando de Entendimento para a Cooperação em Ciência, Tecnologia e Inovação, entre o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) do Brasil e a Secretaria de Ciência, Humanidades, Tecnologia e Inovação (SECIHTI) do México
O documento cria um marco abrangente para a cooperação científica e tecnológica entre os dois países.
A agenda inclui áreas consideradas fundamentais para a economia do futuro, como inteligência artificial, supercomputação, semicondutores, tecnologias quânticas, transformação digital, biodiversidade, bioeconomia, oceanos, transição energética, espaço, ciência aberta e inovação.
A cooperação poderá envolver projetos conjuntos, chamadas públicas, intercâmbio de pesquisadores, especialistas e estudantes, capacitação, transferência de tecnologia, seminários e visitas técnicas.
O Brasil também convidou o México a integrar o Centro Latino-Americano de Biotecnologia (CABBIO), enquanto o governo mexicano convidou o Brasil a participar da Agência Latino-Americana e Caribenha do Espaço (ALCE).
Os movimentos reforçam uma tendência de maior articulação latino-americana em setores tecnológicos considerados estratégicos para a soberania e a competitividade dos países da região.
Foto; Itamaraty
Educação aproxima instituições e cria novas pontes
A educação também entrou no conjunto de instrumentos concretos assinados em Brasília.
O Brasil e o México firmaram um Memorando de Entendimento sobre Cooperação Educacional entre seus respectivos ministérios das Relações Exteriores.
O acordo permitirá que o Instituto Guimarães Rosa México, vinculado à Embaixada do Brasil no México, ofereça, conforme sua disponibilidade e capacidade institucional, cursos de língua portuguesa e cultura brasileira a servidores e representantes do governo mexicano indicados pelo Instituto Matías Romero.
A iniciativa busca aproximar instituições, ampliar o conhecimento sobre o Brasil entre funcionários mexicanos e contribuir para a formação de profissionais que atuem em áreas relacionadas às relações bilaterais.
O memorando terá duração de três anos e poderá ser prorrogado mediante entendimento mútuo. O instrumento não cria obrigações jurídicas vinculantes nem prevê transferência de recursos financeiros entre os participantes.
Saúde: cooperação regulatória e produção de conhecimento
Na área da saúde, as delegações avaliaram o avanço da cooperação entre a Anvisa e a Cofepris, além das iniciativas desenvolvidas entre a Fiocruz e instituições mexicanas.
Também foram analisadas possibilidades de cooperação na produção de imunobiológicos e antivenenos, incluindo a participação do Instituto Butantan, além de ações voltadas à formação de profissionais e ao fortalecimento dos sistemas públicos de saúde.
A agenda demonstra que a parceria bilateral vem avançando para áreas nas quais ciência, inovação e políticas públicas se encontram.
Espaço: uma nova fronteira da cooperação bilateral
O setor espacial apareceu como outra frente de interesse estratégico.
Brasil e México manifestaram disposição para aprofundar o diálogo entre a Agência Espacial Brasileira (AEB) e a Agência Espacial Mexicana (AEM), com o objetivo de identificar prioridades, compartilhar conhecimentos e desenvolver projetos conjuntos.
A iniciativa ganha importância diante do crescimento da demanda por tecnologias espaciais aplicadas à comunicação, monitoramento ambiental, agricultura, mudanças climáticas e gestão territorial.
Os dois países também deram seguimento aos projetos do Programa Bilateral de Cooperação para o Desenvolvimento Brasil-México, estabelecido em 2024, que inclui iniciativas nas áreas de agricultura, desenvolvimento social e cooperação espacial.
Segurança, migração e direitos humanos
O combate ao crime organizado transnacional foi outro tema de atenção. Brasil e México reconheceram que os desafios relacionados à criminalidade transnacional exigem cooperação internacional baseada no intercâmbio de informações, no fortalecimento institucional e no respeito ao direito internacional e à soberania dos Estados.
Na área migratória, os dois governos destacaram a coordenação existente em fóruns multilaterais e regionais e reafirmaram uma abordagem centrada nos direitos humanos e na integração social e trabalhista das pessoas migrantes.
Também houve intercâmbio de informações sobre os sistemas de vistos eletrônicos.
No campo dos direitos humanos, Brasil e México reafirmaram o compromisso com a proteção de grupos em situação de vulnerabilidade e com a prevenção de retrocessos nas agendas de direitos humanos nos fóruns internacionais.
Clima, Amazônia e segurança alimentar
A agenda ambiental ocupou espaço relevante nas discussões.
Brasil e México concordaram em fortalecer a cooperação para aproveitar os resultados da COP30, incluindo iniciativas relacionadas ao Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF).
A segurança alimentar também foi tratada como prioridade comum, com os dois governos defendendo sistemas agroalimentares mais resilientes e capazes de responder aos desafios impostos pelas mudanças climáticas.
A convergência nesse campo amplia as possibilidades de atuação conjunta em temas que combinam desenvolvimento econômico, preservação ambiental e segurança alimentar.
Uma agenda comum no cenário internacional
Nos fóruns multilaterais, Brasil e México identificaram ampla convergência em temas como paz e segurança, desarmamento e não proliferação, direitos humanos, igualdade de gênero, mudanças climáticas, segurança alimentar, cibersegurança e tecnologias emergentes.
Os dois países reafirmaram seu compromisso com o multilateralismo, a democracia, o direito internacional e a coordenação bilateral diante dos grandes desafios globais.
Também reafirmaram apoio à candidatura conjunta de Michelle Bachelet para conduzir a Organização das Nações Unidas, destacando sua experiência e capacidade de liderança.
No âmbito regional, Brasil e México defenderam a preservação da CELAC como espaço central de diálogo e concertação política entre os países latino-americanos e caribenhos.
As delegações também reiteraram a importância de preservar a América Latina e o Caribe como uma Zona de Paz formada por Estados soberanos.
Diplomacia também passa pelo esporte e pela cultura
A dimensão cultural e esportiva também esteve presente na agenda.
Os governos reafirmaram a disposição de ampliar o intercâmbio de informações e boas práticas nas economias criativas e de avançar nas negociações de um acordo sobre coproduções audiovisuais.
Também foram identificadas possibilidades de cooperação em sustentabilidade de museus, capacitação profissional, museus comunitários e novas tecnologias.
No esporte, os chanceleres destacaram a realização da Copa do Mundo FIFA 2026 no México, que sediou o torneio juntamente com Canadá e Estados Unidos.
O futebol foi ressaltado como instrumento de aproximação entre os povos. Brasil e México também desejaram sucesso à Copa do Mundo Feminina FIFA 2027, que será realizada no Brasil.
Foto; Itamaraty
México deverá sediar a próxima reunião
Ao final do encontro, Mauro Vieira e Roberto Velasco Álvarez avaliaram positivamente o estado da relação bilateral e destacaram os avanços obtidos em áreas consideradas prioritárias.
Para o Brasil e o México, a VI Reunião da Comissão Binacional representou mais do que uma revisão da agenda bilateral: foi uma oportunidade para transformar convergências políticas em mecanismos de cooperação capazes de produzir resultados concretos.
O secretário de Relações Exteriores do México agradeceu a hospitalidade oferecida à delegação mexicana durante sua passagem por Brasília e manifestou o interesse de seu país em sediar a VII Reunião da Comissão Binacional Brasil-México, em 2028, em data que será definida de comum acordo.
Uma parceria com potencial para a próxima década
O encontro de Brasília sinaliza uma etapa de amadurecimento da relação entre Brasil e México.
Em um cenário internacional marcado por mudanças geopolíticas, reconfiguração das cadeias produtivas, transição energética, transformação tecnológica e desafios climáticos, a aproximação entre as duas maiores economias latino-americanas ganha dimensão que ultrapassa os interesses estritamente bilaterais.
Com novas iniciativas em comércio, energia, ciência, tecnologia, educação, saúde, espaço, cultura e meio ambiente, Brasil e México procuram construir uma parceria mais diversificada e estratégica — com potencial para influenciar não apenas suas relações bilaterais, mas também os rumos da integração latino-americana.
Foto; Itamaraty
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